
Marina Berri nasceu em Buenos Aires em 1985. Formada em Letras pela Universidade de Buenos Aires, especializou-se em literatura russa e tradução. Publicou Alfabeto Russo: Cenas de Língua e Cultura (2023), obra que combina ensaios, ficção e memórias estruturados em verbetes inspirados no alfabeto cirílico. Seu método enciclopédico transforma o ato de ler em uma experiência de descoberta geográfica e emocional. O livro venceu o prêmio Latinoamérica Independiente 2024 na categoria não ficção.
Críticos destacam sua abordagem híbrida. A escritora mexicana Valeria Luiselli observou: “Sua prosa é um exercício de erudição afetiva, onde a linguagem opera como mapa e espelho”. O crítico argentino Martín Kohan afirmou: “Nenhum autor contemporâneo explora com tanta precisão as fronteiras entre alfabeto e identidade”. A pesquisadora brasileira Lúcia Tennina destacou: “Berri constrói uma arqueologia pessoal através da linguagem, onde cada grafema revela camadas de história”. Já o escritor russo Mikhail Shishkin comentou: “Ela reinventa o cirílico como território literário, criando pontes entre culturas”. Além de escritora, Berri traduziu autores como Tchékhov e Tólstoi para o espanhol. Atualmente, coordena um projeto sobre diálogos literários entre América Latina e Europa Oriental.
























PROPOSTA
Pedi a meus ajudantes que fizessem – sempre sob minha orientação, diga-se – uma pequena antologia de livros estruturados em formato enciclopédico, ou seja, em verbetes. Aqui tem:
1. O Dicionário Kazar (Milorad Pavić) 5
- Estrutura: Romance-enciclopédia dividido em três “sublivros” (Vermelho, Verde, Amarelo), cada um representando versões cristã, islâmica e judaica da história dos kazares, um povo fictício.
- Característica: Verbete independentes, símbolos que direcionam o leitor a entradas específicas, e duas versões (masculina e feminina) com diferenças sutis.
- Tema: Explora a relatividade da verdade histórica e a construção da realidade através da linguagem.
2. La literatura nazi en América (Roberto Bolaño) 3915
- Estrutura: Enciclopédia fictícia com biografias de escritores nazistas imaginários das Américas, organizadas em verbetes que simulam entradas acadêmicas.
- Característica: Cada capítulo descreve a vida, obras e contextos de autores ultradireitistas, satirizando o mundo literário e político.
- Tema: Crítica à relação entre literatura, poder e ideologia, com paralelos entre extremismos políticos e vaidades artísticas.
3. A Vida Modo de Usar (Georges Perec)
- Estrutura: Romance construído como um quebra-cabeça, com capítulos que funcionam como “verbetes” sobre habitantes de um prédio parisiense, interligados por detalhes mínimos.
- Característica: Inspirado em jogos de restrições literárias, cada fragmento revela histórias cruzadas, seguindo a lógica de um catálogo enciclopédico.
- Tema: A obsessão pelo detalhe e a impossibilidade de capturar a totalidade da experiência humana.
4. O Livro dos Seres Imaginários (Jorge Luis Borges)
- Estrutura: Compilação de verbetes sobre criaturas mitológicas e fantásticas, apresentadas como entradas de uma enciclopédia fictícia.
- Característica: Mistura erudição falsa e ironia, como em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, que simula um verbete sobre um mundo imaginário.
- Tema: A fronteira entre realidade e ficção, e o poder da linguagem para criar universos paralelos.
5. Pale Fire (Vladimir Nabokov)
- Estrutura: Romance composto por um poema de 999 versos e notas de rodapé enciclopédicas que constroem uma narrativa paralela.
- Característica: As notas funcionam como verbetes que reinterpretam o poema, revelando a obsessão do narrador-comentarista.
- Tema: A subjetividade da interpretação e a fragilidade da autoridade literária.
6. O Dicionário do Diabo (Ambrose Bierce)
- Estrutura: Coleção de definições irônicas e cínicas de termos cotidianos, organizadas como entradas de dicionário.
- Característica: Cada verbete satiriza convenções sociais e políticas, usando humor negro e paradoxos.
- Tema: A crítica à hipocrisia humana e às instituições.
Portanto a proposta é justamente que você escreva um texto em formato de verbetes.
Sim, voltamos à estrutura em forma de série.
Só que verbetes aplicados à ficção. Portanto, além de escrever, você deve ser o próprio curador dessa série de objetos. Como se você mesmo fosse o editor de seu próprio léxico familiar.
Ah, sim, você vai partir sempre de COISAS, de objetos concretos.
Cada verbete precisa ter uma aparência levemente didática e explicativa, como em um verbete de enciclopédia – um jeitão meio frio, meio formal, meio de não-ficção. Mas, ao contrário de um verbete, você irá dispô-lo em situações, cenas, diálogos, descrições de espaços e de personagens, em um modo bem sucinto e preciso. Cada verbete precisa ter no mínimo 500 e no máximo 1000 toques – mas, se quiser, pode ser bem resumido mesmo, em duas linhas. É claro que você também vai escrever de modo sumamente gracioso, ironizando a linguagem enciclopédica.
Tais objetos podem ser:
- Conectados ao projeto que você está escrevendo. Por exemplo, digamos que você esteja escrevendo um romance que se passa entre o sertão, a zona da mata e o litoral pernambucano. Então você pode separar objetos que tipificam tais espaços, conectando-os aos personagens. Por exemplo: foice, estrada, garapa, moenda, casa grande, apartamento, cabaré, vestido;
- Uma lista de objetos de seu cotidiano que tenham aura. Podem ser objetos do seu escritório, da sua sala, do seu quarto, do seu gabinete de curiosidades. Conecte-os com histórias;
- Uma lista de lugares em que você esteve. Busque uma memória afetiva específica de cada lugar;
- Uma lista de nomes de pessoas que você perdeu. De amores a parentes, passando por amigos e chefes;
- Uma lista de animais que passaram por sua vida. Um cachorro que você teve, um gato que te arranhou, uma anta que mijou na sua cara numa visita ao zoológico, uma calopsita que mordeu sua bunda enquanto você transava;
- Uma lista de bicicletas que você teve, e por quais lugares você pedalou com elas;
- etc etc etc.
Escreva na primeira pessoa, em uns 11 mil toques.
