Batata frita.
Não devia ser tão difícil, né? Afinal, trata-se de um prato muito simples, tão simples quanto um prato pode ser. O nome não deixa dúvidas. Vejamos? Batata frita. Um único ingrediente: batata. Esse tubérculo dos mais ordinários. E como seriam essas batatas? Mais uma vez, o nome não permite hesitação: fritas. Ou seja, cozidas por imersão, em gordura ou óleo, até que estejam crocantinhas por fora e macias por dentro. Certo? Certo.
Então por que ninguém serve?
Estou cravando: em Maringá, não existem batatas fritas.
(O amigo leitor, sempre perspicaz, talvez já tenha entendido qual é o jogo aqui: ao decretar a extinção sumária das batatas fritas, este cronista semibalofo, que nem mesmo está em dia com seus exames de rotina e, portanto, faria bem em se manter afastado da tentação das frituras, espera em segredo que algum maringaense orgulhoso se revolte, que suba nas tamancas e, indignado, entregue o ouro, “isso é um disparate, onde já se viu, lá no __________ [favor preencher o nome do estabelecimento e enviar ao cronista por e-mail] come-se uma batata frita magnífica”. Este truque é batido e permitiu ao nosso saudoso Miranda – que também não enjeitava uma batatinha frita – descobrir a existência de duas das maiores bandas que ele viria a produzir: Mundo Livre S/A e Raimundos. Bastou afirmar na revista Bizz, no início dos anos noventa, que não existia nada de novo em matéria de música no Recife e em Brasília. O resto é história.)
Porque batata congelada não é batata. É qualquer outra coisa.
Dias atrás, à deriva no oceano infinito da dopamina e da procrastinação (o Shorts do YouTube), atraquei num certo vídeo. Um rapaz, dono de hamburgueria, comprava um caixote de batatas. Depois, auxiliado por grande elenco (seus funcionários), ele as lavava, descascava, cortava, lavava de novo, secava, fritava as queridas a cento e vinte graus por uns dez minutos e as deixava no jeito, prontinhas pra, na hora do serviço, serem submetidas a uma segunda fritura, mais rápida e mais agressiva. Só de escrever isso tudo eu já fiquei exausto. Ele então calculava os custos desse procedimento, incluídos aí os gastos com mão de obra, infraestrutura, eletricidade e blá blá blá. Ao final, o que ele descobriu? Que o preço de se engajar nessa aventura insana de fritar batatas equivale ao de simplesmente pedir pro fornecedor um pacotão de batatas pré-fritas e congeladas, da marca de referência (que todo mundo sabe qual é).
Ou seja, dá no mesmo. Nosso herói do vídeo só faz o que faz porque quer servir aos seus clientes aquela batata frita que se convencionou chamar, bizarramente, de “de verdade”. Por um capricho, por vaidade, porque gosta de sofrer como uma Cinderela empreendedora. E nós, meros mortais, dependemos hoje de alguém assim, de um romântico, um pancada, alguém com a resiliência de um semideus, se quisermos comer batatas fritas. Somos prisioneiros desta realidade equivocada, onde a porção de boteco mais corriqueira do mundo é antes um privilégio que um direito. Onde o simples fato de existir uma batata de verdade determina que sejam falsas todas as outras, as que reinam soberanas nos bares e restaurantes de Maringá, mesmo nos mais sofisticados. A não-batata, a batata reborn, a quase salsicha. Aquela que se negou a ser batata frita tão somente, e que ostenta na sua embalagem carnavalesca, em letras de formiguinha doceira, uma lista de mais de catorze ingredientes, alguns impronunciáveis. Celulose microcristalina. Metabissulfito de sódio. Butil-hidroxitolueno. O acompanhamento ideal pra um prato fundo de ganância, desesperança e perversidade, servido frio sobre uma única folha judiada de alface.
Batata frita é uma questão de Estado.
