Se eles ainda imprimissem a lista da Telesp, lá pela página 411, já nas amarelas, um pouquinho depois dos desenhistas e desentupidores, estaria o telefone de Dudu Júnior (11) 99691-6411. O telefone e o endereço, rua Volta Redonda, 55, Campo Belo, São Paulo. Dudu é desrepetideiro. O único da cidade, pelo menos o único que eu conheço. Cuidado para não confundir com desrepetidólogo da desrepitodologia (ramo teórico-interdisciplinar que se dedica ao estudo dos mecanismos, causas e condições que envolvem a repetição de ações, pensamentos ou expressões humanas, com foco específico na superação consciente desses ciclos – caso tu não conheça).
Desrepetideiro é uma coisa mais prática, sabe? Prestador de serviço mesmo. E Dudu é ótimo de serviço. Se ele mantivesse agenda de papel e anotasse os compromissos de uma semana de trabalho daria pra te explicar melhor o que ele faz. Daria até pra saber que Dudu tira folga nas quartas-feiras, por exemplo. É que não chega a ser obstetrícia nem exorcismo, mas às vezes o negócio fica tinhoso, pode complicar e levar o dia todinho. Cansa.
Aí, sei lá, saberíamos também que na segunda da semana passada, ele atendeu a dona Hilda, na Av. Higienópolis, lá em Higienópolis. Dona Hilda resolveu limpar folhinha por folhinha de um Ficus Benjamina que ela tem na sala. Tava empoeirada, quase cinza, o bairro inteiro subindo prédio. Ela começou perfeita, memorizou direitinho os galhos que já tinha passado pano, só que uma hora acabou se perdendo. São muitos galhos e tem uns semi-galhos, uns galhos-pais cheios de galhos-filhos, cada galho com não sei quantas mil folhas. Não dava pra separar quem tava pra limpar, quem já tava limpa. E ela tinha começado no sábado de tarde. Se prometeu que parava pra jantar quando a Benjamina estivesse verde lápis-de-cor. A bichinha magra, numa deuteranopia de não diferenciar as cores do farol. Voltou 500 vezes, redondamente, na repetição. A pressão baixou, deu um semi-desmaio. Limpava, limpava, limpava. Tiveram que chamar Dudu.
Na terça, ele foi num consultório na Rua Rússia. Esse deu trabalho. Russell é um junguiano que se ofereceu pra fazer o imposto de renda da mulher (lacaniana). A diferença de zeros entre o imposto dela e o dele o incentivou a ler Lacan. Problema nenhum. Negócio é que ele começou pelos Escritos e ficou preso na página 55 onde Lacan dizia: “Um parêntese que encerra um ou vários outros parênteses, seja, (( )) ou (( ) ( ) … ( )), eis o que equivale à repartição anteriormente analisada dos β e dos δ, onde é fácil ver que o parêntese duplicado é fundamental. Nós o chamaremos aspas. É ele que destinamos a abranger a estrutura do sujeito (S de nosso esquema L), na medida em que ele implica uma duplicação, ou melhor, essa espécie de divisão que comporta uma função de dobra. Já colocamos nessa dobra a alternância direta ou inversa dos aγaγ.., sob a condição de que o número de signos seja par ou nulo. Entre os parênteses internos, uma alternância γaγa…. γ, em número de sinais nulo ou ímpar”. Russel não entendeu nada, mas resolveu que podia reler. Tranquilo. E quantas vezes fossem necessárias. Fazia uns 6 meses já. Tiveram que chamar Dudu.
Quarta é folga, lembra?
Na quinta, deu tempo de atender 2. Um na Travessa Trapezista Cachoeirinha e um na Avenida Avelino Alves. O primeiro foi um jokenpô que enganchou. Começou quando os meninos tinham uns 11 anos. Já íam barbados, a camisetinha de heroi apertada na barriga, shorts curtos, quase sungas, em tempo de entrar na faculdade, pena que perderam o fundamental 2 e o médio no play do condomínio. Um botou tesoura, o outro também. Um pensou que pedra quebra tesoura e botou pedra, o outro também. Aí o um tentou ao contrário e botou papel, o outro também. Pedra, papel, tesoura, tesoura, papel, pedra. Câimbras horrorosas. Tiveram que chamar Dudu. À tarde ele foi ver a moça que tinha uma dificuldadezinha de encerrar assunto e desenvolveu o vício de linguagem do “só pra concluir” prejudicando interlocutores de toda a Avenida Avelino Alves. O morador que ficasse preso à conversa atraía um ente querido tentando salvá-lo quando ela explicava o argumento e dizia “mas só pra concluir”, puxava-se mais uma vítima e outra. Já eram 411 tentando interromper. Mas, só pra concluir, tiveram que chamar Dudu.
A semana fechou com um caso muito típico. Uma alvoraldite. Tu deve conhecer. É quando o cara já bebeu um pouquinho, aquela sexta fim de tarde, alguém puxa um violão e começa o “Alvorada lá no morro que beleza”, aí o dissabor, o sol colorido, lindo, lindo. Tudo certo. Só que quando a natureza tá sorrindo, tingindo, tingindo, ela tinge quem? “A alvorada, alvorada lá no morro que beleza”. Tiveram que chamar Dudu. Quiser anotar o telefone tá aí ó: (11) 99691-6411. Tomara que não seja preciso. Agora que tu tá cantando Alvorada na cabeça tu tá, tás não? Alvorada é punk.
