Até amanhecer

por Américo Paim

TAPETE

A trabalho em Curitiba, pouco tempo livre. Era muito novo. Queria conhecer as mulheres, bem diferentes de onde eu vinha. Loiras elegantes de sorrisos perfeitos, olhos verdes e azuis, vestidas quase sempre de preto, naquele frio retado de julho. Consegui uma folga e fui para a noite com um amigo quinze anos mais velho, separado, um gozador. Em um bar de três pavimentos, com dez minutos concluí que estava morto. Ali era o paraíso, com o metro quadrado de mulheres mais lindas que havia visto. Circulamos e deu match com uma loira, linda, de olhos azuis (claro). Talvez uns poucos anos mais velha que eu, estava com uma amiga, menos loura, regulando minha idade, que gostou do meu amigo. Nada de mais avançado aconteceu. Dois dias depois, saímos os quatro para o mesmo motel, em um só carro. O quarto tinha algo que nunca havia visto: um tapete felpudaço, todo vermelho. Não sei a razão, mas ela ficou tão incomodada com aquilo, que quase não aconteceu nada. Com jeito, a gente se acertou. Pouco depois, meu amigo ligou do quarto deles.

– Véi, ela tá aqui propondo uma troca (dava para ouvir gritos de protesto ao fundo).

Contei à moça e só consegui uma cara assustada e um pedido para ir embora. Humor zero. Ainda nos vimos depois, mas não foi para frente. Anos mais tarde, achei o perfil dela no Insta. Pense numa mulher reaça! Chocante. Entendi a dificuldade com o vermelho. Continuava linda. Só espero que não reze para pneu.

CARTEIRA DE IDENTIDADE

Estava em Castro Alves no São João. A moça era bonita, mas demorou a topar algo comigo. É que tinha uma ruma de irmão vigiando a pobre. Acontece que eu, o tinhoso todo, não desisti. Manobra daqui e dali, conseguimos engatar um namoro, vigiado, é verdade. Ela tinha um cabelão, era um tanto alta, as mãos suaves e um dente montado mais para o meio da boca, porém, perceptível. O conjunto da obra era bonito e eu, na adolescência, não estava em condição de exigir muito. Minha magreza e as espinhas, nessa ordem, me garantiriam o celibato por décadas. Enfim, após uma semana daquele romance ideal, houve uma situação em que minha carteira de identidade ficou exposta (acho que foi no cinema) e caiu no chão. Ela pegou. Queria ver a foto. Todo mundo adora sacanear foto de documento. Ela até ia fazer isso, mas parou no verso da carteira. A noite acabou ali. Não me disse nada. Insisti por um tempo até que consegui lhe falar. Ela terminou tudo. Não podia namorar com um menino mais novo que ela! Creia nisso. Saí chateado. Avaliando depois, ela nem beijava tão bem. E nem lembro o nome do filme.

CALCINHA

No Rio de Janeiro acontece de tudo. Eu já tinha vivido umas coisas meio estranhas, mas atribuído à cachaça. Morava lá há dois meses e ficaria só por mais três, então toda oportunidade de folga era encarada como armagedon. Foi assim que me vi diante de uma dessas deusas na terra. Óbvio que não era para mim. Sabia dos meus limites, porém, o cérebro não comanda nessas horas, como se sabe. Ela estava mesmo de olho em mim. Devia ser míope. Descobri que ela tinha sido miss em um concurso no interior do Espírito Santo, já não lembro o nome da cidade. A mulher parecia a estrada de Santos, de tanta curva. Logo eu já não respondia por mim. Quando ela falou algo como “vamos lá em casa, mas tem que…” eu nem esperei o fim da frase. Era na Barra ou coisa assim, vista bonita da orla. Aquela pegação e beija e aperta. Ela pediu um minuto e foi ao sanitário do quarto dela. Voltou nua, maravilhosa, balançando na mão uma combinação de sutiã com calcinha framboesa ou antiaérea. Pensei que era a dela. Não. Era para mim. Ela queria que eu usasse. Chiei, só que a criatura era toda toda. Ou encarava ou ia perder a criatura. Me disse que o tesão dela ficava incontrolável. Vesti, não vou mentir. Na hora em que a gente tava na vibe perfeita e ela ia me autorizar a tirar aquele conjunto estranho, os pais dela entraram, atraídos pelos gritinhos da filha. O complemento da frase era esse: “…, mas tem que ser rápido porque meus pais vão chegar”. Resumo: fui tangido dali pelo pai raivoso, veloz como um exocet. A mãe nada falou, mas notei olhar de interesse. Uma tara hereditária?

FARELO

Sempre se ouve histórias sobre a precocidade no sexo. Eu, porém, superei. A minha primeira vez foi com nove anos. Talvez, com alguma consciência, penso eu. Foi na casa da minha vizinha, em Aracaju. Ela também tinha nove. Estávamos sentados na varanda da casa dela, falando bobagens infantis, claro. Foi quando surgiu Farelo, o cachorro dela, engatado com uma fêmea, que deve ter encontrado em algum passeio na rua. Minha vizinha riu. Não sei por quê. Nessa hora apareceu a mãe dela, que nos tirou de lá rápido. Eu não perdi a chance e perguntei se eles estavam brincando ou era outra coisa, porque achei estranho. Fui desconversado, mas algo em mim se manifestou. Aquilo ali era diferente. Algum mais velho depois me explicou. Deve ter me traumatizado por algum tempo. É que os cachorros nem pareciam felizes.

VITROLA

A noite, de chuva e relâmpagos, apenas começava. Eu, com uma entorse no pé direito, fui para aquele bar, em Petrópolis. Sentado sozinho, notei que ela me olhava. Me pareceu arrumada demais para a ocasião, mas interessante. Eu, que não estava nos melhores dias, segui quieto. Cansada de esperar minha atitude, deixou o grupo de amigas e veio em minha direção. Em poucos minutos de conversa, perguntou se eu era gay ou não estava vendo os sinais. Esclareci e saímos para a casa dela, afastada daquele centro da cidade. Chegando lá, um monte de carros e gente. Era aniversário da irmã dela, com quem ela não se dava. Contou que fez um social e saiu para a noite. A casa tinha dois andares. A festa rolando no superior. Ela me levou para o inferior, ao seu estúdio. Ligou Stones na vitrola estilosa e eu achei bem alto. Começamos a transar. Ela gritava como se precisasse de exorcismo, assustador, só que estava bom demais e eu abstraí. Aceleramos, ela começou a gozar e eu desejei estar com um protetor auricular. Naquele momento faltou luz. A música desapareceu de vez nos dois andares. Ficou aquele grito imenso e interminável preenchendo a noite chuvosa. Não era um filme de terror, mas eu fiquei com medo de abrir a porta quando bateram. Foi meio estranho sair de lá mancando e com dor de ouvido. Anos depois eu a vi em uma coluna social. Havia se casado com um músico famoso. E eu que achei aquele grito meio desafinado…

TOALHA

A comida ficou para mim e eu faria uma massa com pesto. Os caras cuidaram dos tira-gostos e da bebida. A lua espetacular em Boipeba. Noite morna, tudo perfeito. Conhecemos as meninas em Morro de São Paulo, duas noites antes e conseguimos convencê-las a passarem aquela noite com a gente. Eram quatro, todas lindas e nós quatro, todos tarados. Entre nós, delimitamos quem investiria em quem. Tudo certo na Bahia, só que não. A que me coube não apareceu. Veio uma substituta. Com todo respeito, não estava à altura. Falo de atributos físicos, em foco na ocasião. Os caras me zoavam só com o olhar. Eu queria matar cada um. Tratei a moça muito bem, mas nada iria acontecer. Lá pelas tantas, rolando violão, comidas e bebidas, eu já alegrinho, ela se levantou anunciando que ia dormir. Meu amigo músico emendou “Sonífera ilha”, risada geral. Uma hora depois, eu já a caminho do azul, a moça saiu da casa com uma toalha enrolada. Não conseguia dormir com aquela zoada e ia para a praia. Todos olharam para mim. A praia era muito perto, dava pra ouvir alto o som das ondas. Patrulhado daquele jeito, e chamando urubu de “meu loro”, me senti obrigado a ir atrás da moça. Ela estendeu a toalha e não reclamou quando eu cheguei pedindo espaço. Começamos a pegação e isso e aquilo. Ela começou a tirar a roupa e me levantei para fazer o mesmo. Só aí notei que a toalha era com um escudo do Vitória. Quase broxei ali, mas “verás que o filho teu não foge à luta” … Reparei que o barulho da turma deu uma silenciada, coloquei a camisinha, transamos e no fim das contas foi até bom, fora alguns gritos estranhas que tinha certeza de que no dia seguinte eu já estaria esquecido. Pela manhã, eu e ela fomos os últimos a levantar. Nos encontramos na sala, sorrisos amarelos e fomos para a piscina, onde estariam os outros. Nos receberam com uma cantoria adaptada: “Sonífera ilha (você me fez mulher), descansa meus olhos (cadê, cadê?), sossega minha boca (não, aí não…), me enche de luz (eita porra, de novo…). Nunca gostei dos Titãs mesmo…

BLOCO DE NOTAS

Estava bem frio em Bruxelas. Era o segundo dia do seminário, no hotel onde estávamos todos hospedados. Obedecendo à orientação de haver um rodízio de pares nas cadeiras geminadas, ela sentou-se ao meu lado. A ordem do dia era que esvaziássemos bolsos, mochilas, bolsas e colocássemos tudo sobre a mesa. A partir daquele conteúdo deveríamos construir um case de vendas de um novo produto. Ela era espanhola e muito objetiva. As nossas ideias estavam mais próximas que distantes e ela estava perto o suficiente para eu não ignorar que era bonita e muito cheirosa. O dia correu sem anormalidade. À noite, por volta das dez, a campainha do quarto tocou.

– Desculpe, mas será que não deixei um bloco de notas em sua mochila?

Convidei-a a entrar, claro. Conversamos um pouco e procuramos o bloco de notas. Até amanhecer. Em tempos digitais, até que foi original. No terceiro dia, nos sentamos em mesas separadas e combinamos que eu perderia meu celular. Não se vive mais sem tecnologia.

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