Tudo junto e separado

Um dos aspectos que chama a atenção em Orbital (trad. Adriano Scandolara) é a habilidade de Harvey em articular o familiar e o estranho, o coletivo e o individual. Acompanhando um grupo de astronautas em missão de nove meses em uma estação espacial, sua prosa – que nunca deixa de lado o deslumbramento com a situação que narra, enquanto nos inunda de dados, eventos e explicações científicas – faz o tempo todo o caminho entre geral e particular, nos lembrando que somos também passageiros da mesma nave.

Nascida em Kent, Inglaterra, Samantha Harvey, 50, constrói uma obra onde a precisão científica dialoga com o mais comovente lirismo existencial. Seu romance The Wilderness (2009) rendeu-lhe um raro feito: simultaneamente finalista do Women’s Prize e do Booker Prize. Sobre este trabalho, Ali Smith afirmou: “Harvey escreve como quem desenha mapas neurológicos – cada frase traça novas conexões no cérebro do leitor”.

A escritora Sarah Waters destacou sua capacidade singular de fundir densidade filosófica com narrativa: “Ela pertence àquela rara linhagem de romancistas que conseguem fazer da metafísica uma experiência sensorial”, referindo-se a Dear Thief (2014). Já Julian Barnes, ao analisar The Western Wind, observou: “Harvey domina o paradoxo de ser simultaneamente medieval e pós-moderna em sua investigação sobre o tempo”.

Orbital (2023) gerou reações entusiasmadas entre seus pares. David Mitchell confessou em entrevista ao Paris Review: “Depois de ler Harvey, o espaço sideral nunca mais me pareceu um vácuo, mas sim um espelho extraordinariamente claro de nossa condição terrestre”. A poeta Ocean Vuong acrescentou: “Ela escreve como se Virginia Woolf tivesse estudado astrofísica”.

O crítico James Wood sintetizou o impacto de sua obra: “Harvey pertence à tradição da grande prosa inglesa que vai de George Eliot a Rachel Cusk, mas com uma assinatura inteiramente própria – seu trabalho é sobre tudo que é transitório, mas construído para durar”.

PROPOSTA

Eis a premissa de Orbital:

Seis astronautas orbitam a Terra em 16 voltas diárias, enquanto suas visões do planeta e reflexões existenciais da autora revelam a fragilidade e a beleza da vida humana.

Com base nesta premissa, eu e meus assistentes criamos todas essas outras:

  • Num caminhão na BR-101, pai e filha dirigem 8 horas com o corpo da mãe no congelador quebrado. A funerária fecha em 3h. ‘Ela odiava calor’, o pai repete.” [Minha favorita, 100% ideia do Deep Seek)
  • Durante um apagão em um prédio de apartamentos, seis vizinhos dividem por 12 horas o salão de festas, único lugar com luz – e descobrem verdades inquietantes.
  • Após um assalto, passageiros de um ônibus trancam o ladrão no banheiro; o assaltante se revela um mestre na arte da manipulação. 
  • Num Uber, 3 passageiros no banco de trás descobrem que o motorista é o mesmo que os demitiu.
  • Um antiquário tranca clientes chatos num porão onde objetos ganham vida. 
  • Operárias de uma fábrica têxtil são trancadas durante a madrugada para cumprir metas, enquanto o mundo lá fora parece desmoronar. 
  • Numa carreta gigante carregando carne crua, dois caminhoneiros percebem que há algo se movendo lá no baú.
  • Dois rivais que disputam o amor de uma mulher ficam presos por 12 horas num elevador. 
  • Num dia de intenso calor e engarrafamento monstro, motorista leva ex-mulher ao casamento dela. No trânsito, ela confessa: está grávida… do motorista.
  • Durante uma viagem de barco, o avô diz que vai vender o sítio; neto e filha calam, sabendo que ele esqueceu o diagnóstico de Alzheimer.
  • Passageiros de um trem preso por um deslizamento de terra decidem realizar um casamento coletivo antes que a comida acabe. 
  • Durante uma madrugada de hora extra, cinco funcionários descobrem que foram trancados no prédio — e o chefe exige que decidam quem será demitido antes do amanhecer.
  • Um blecaute durante a assembleia anual do condomínio revela: cada morador recebeu um bilhete anônimo com um crime que só alguém ali poderia saber.
  • Após um treino noturno, quatro atletas ficam presos no vestiário com o técnico – morto.
  • Fugindo de um tiroteio, seis desconhecidos se escondem em um barco e acabam ficando à deriva em alto mar.
  • Enfermeiros de plantão noturno recebem um recado: um paciente morreu há 6 horas, mas seus sinais vitais ainda aparecem nos monitores. E ele está se mexendo.

Qual delas te apetece?

Talvez, em vez de somente narrar a evolução dos acontecimentos buscando resolver o conflito, você possa refletir sobre o confinamento a que os personagens estão submetidos, sobre cada personagem e sobre a própria natureza da tensão do enredo, sem necessariamente chegar a um desfecho – como faz a Harvey em relação à situação muito especial vivida por seus astronautas.

Escreva na terceira pessoa, em uns 12 mil caracteres.

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