Glossário de lembrancinhas

Cesto de papel: 1) recipiente livre de sujeiras orgânicas para depositar folhas da impressora que engasga. Serve também aos manuscritos rancorosos arrancados de cadernos espirais 2) recipiente que adquire a função temporária de depósito de bibelôs e lembrancinhas depois de a impressora que engasga ficar esquecida num quartinho e o rancor das folhas arrancadas permanecer preso num caderno brochura. A função temporária vai-se tornando permanente à medida que os livros na estante, onde os bibelôs e lembrancinhas compunham uma porta de entrada, continuarem enfileirados sem critério.

Girafa azul de bolinhas brancas: primeira lembrança tirada do cesto de papel. Trata-se de presente do filho comprado numa feirinha de rua. As pernas e o pescoço são de canudos plásticos resistentes, o corpo e a cabeça de um material leve, duro e indefinido. O tecido de algodão azul, que reveste o animal,  já está desbotado e as manchas redondas deixaram de ser brancas.  Originalmente seu lugar na estante era diante dos livros já lidos.

Mini aquário: 1)peça que, depois de comportar um pequeno arranjo de flores,  passou a expor o seu vazio diante das edições de poesia. 2) pequeno ninho provisório para uma família de corujas azuis de legítimo vidro murano de Poços de Caldas.  

Família de corujas azuis: conteúdo que torna útil o mini aquário vazio. Três delas perderam as pontas do acabamento dos olhos. Este olhos lembram  uns  óculos de armação pesada anunciados por uma mega Ótica Shopping. O anúncio sugere que tais acessórios proporcionam, sem esforço, um despojado visual de velho nerd, assim mesmo, nestas palavras : um despojado visual de velho nerd.  Quando os livros voltarem à ordem, as corujas vão aguardar um lugar mais nobre junto aos volumes de ensaios e filosofia, se estes últimos forem um dia comprados.

Três câmeras fotográficas:  objetos obsoletos que, por valor afetivo, viraram peças de decoração. A única máquina digital das três se considera uma velha avançada porque, diferente dos rolos com filme, teve uns lances com os chips.  A antiga câmera se compara a uma das senhoras maduras que usam armações de óculos gigantes anunciada pela Ótica Shopping. Seu visor, no entanto, é um pequeno retângulo com pouco mais de um centímetro cada lado.  O lugar das câmeras era no teto da estante, junto a três fotos emolduradas que não encontraram lugar na casa, por  absoluta inabilidade em fazer furos ou alinhar sozinha quadros na parede. Ao menor movimento na estante, as fotos emolduradas costumavam cair sobre as câmeras e as câmeras se estabacarem no chão. Quando os livros tomarem nova ordem, as fotos emolduradas vão deixar o lugar inseguro para aguardar eternamente um espaço nas paredes nuas.

Três miniaturas de Kombi ( uma cor de rosa, uma cor de laranja e uma azul) Brinquedos feitos na China com o teto branco e uma portinha lateral que abre e fecha. Cada uma foi presente de um amigo. Elas compõem o conjunto de outras Kombis, também presentes, que se espalham pela casa em forma de chaveiros, camisetas,  livrinhos e fotos de rua que coleciono num álbum do moribundo Facebook. Os likes para as fotos de Kombi superam em muito os likes para meus textos.

Pequeno calendário triangular em brochura do ano de 2017.  Lembrança do museu Miró, que nunca foi usada como calendário. A peça, junto com as câmeras, as Kombis, as corujas de vidro, deve entrar no meu inventário pós-morte. Trata-se de presente da filha. A base que sustenta as folhas têm marcas de bolor, mas as pequenas reproduções de cada página conservam-se novas como a arte que não morre.

Cartão Postal de Vinícola : Um regalo de papel 18 X 13 centímetros enviado pelo correio de Mendonça na Argentina em 2022.  Guarda a figura de quatro mulheres, uma delas representa a praga Phylloxera que tomou as videiras do Malbec, as outras representam Eleanor de Aquitane, da família de viticultores, uma imigrante e a própria Bodega Catena Zapata, a responsável pela renascença do Malbec na Argentina . O cartão postal é a reprodução do rótulo do bom vinho argentino. Tem besos e um te quiero da filha.

Potinho holandês pintado a mão.  Pequena peça de porcelana com tampa que nunca guardou nada além de poeira.

Folha seca de pata de vaca : suporte para um bordado com a frase “mulher é desdobrável”. Costumava ficar encostada nas prateleiras dos romances ainda não lidos.

Dedal: peça em formato cilíndrico para proteger os dedos da mão e  servir como apoio para a agulha adentrar o tecido no momento da costura.  A peça que estava na estante é só mais uma lembrança de porcelana comprada num museu e nunca foi usada para costura.

Mafalda com as mãos no queixo : bibelô de argila pintada para jamais esquecer de livre pensar. Na prateleira dos livros, nunca teve um lugar definido.

Quadrinho de moldura preta: pequeno porta retrato que suporta o desenho de três girafas : meu filho, minha filha e eu, segundo Selma, a desenhista e amiga. O quadro já tem cinco anos.

Marcador de páginas: tira de papel  com marca de livro, editora, livraria ou sebo que costuma ser encontrada pelos mais diversos cantos da casa e às vezes até mesmo dentro dos livros. Serve para marcar o trecho onde uma leitura parou assim como ,quando em quantidades exageradas, indicar que  as compras de livro estão indo além do tempo para ler.

Lhama de ferro fundido: animalzinho com cerca de quatro centímetros de altura por dois e meio de largura que  costumava compor um canto com outras espécies como um elefante de vidro incolor com a ponta da tromba quebrada, um gatinho do mesmo material e um caramujo de louça branca. O gato é mais alto que o elefante e ambos foram comprados na mesma loja de Poços de Caldas. O caramujo de louça veio de Pedreira, cidade do interior de São Paulo onde meus pais nasceram. Entre estes mesmos animais, uma coruja de pedra de topázio azul com “supostas orelhas” quebradas. Foi um presente do pai dos meus filhos.

Pote redondo de madeira: peça trazida do  Paraná  que hoje guarda estojinhos de plástico colorido com fotos 3 por 4 de todos os membros da família nas mais diversas idades, um pedaço de feltro para pé de cadeira, um cupom fiscal do MC Donalds no valor de  um real e vinte centavos referente a um sorvete de casquinha em 12 de fevereiro de 2004. Junto  também um daqueles clips transparentes que seguram o colarinho de camisas.

Uma latinha de Dobble:  jogo de velocidade, observação e reflexo rápido para 2 a 8 jogadores em idade acima de 6 anos.  Esquecido na estante dos livros desde um esquecido almoço de domingo.  

Lata de estanho com o logo da Varig : último brinde da última viagem do meu pai para os Estados Unidos. Talvez um dos últimos brindes da Viação Aérea Riograndense. O pequeno pote guarda parafusos, porcas e arruelas de peças que já nem devem mais existir.

Lâmpada mágica:  pequena imitação dourada e repleta de arabescos comprada no Catar na Copa do Mundo de 2022. Objeto inútil para atender o desejo de ver o Brasil hexacampeão.

Folha amassada de um caderno espiral : papel com registro de um rancor impublicável. Seu destino é se misturar ao chorume do lixo orgânico.

Deixe um comentário