coisas que eu levo pra escola (lista incompleta [assim como todas as listas {inúteis, portanto, estes comentários}])

1. mochila de cor azul ridícula

meu pai encasquetou de me comprar essa mochila horrorosa, porque ele teve uma igual, pelo menos foi o que ele disse, quando tinha mais ou menos a minha idade. grande coisa. aliás, duvido que seja verdade. eu queria uma preta, de gente grande. não dá pra saber se essa mochila é azul ou verde, ainda que eu tenha dito ali em cima que ela é azul. conclusão: eu não sou mesmo digno de confiança. mas odeio a cor azul tanto quanto a cor verde, não odeio uma mais que a outra, odeio as duas igualzinho. na primeira semana de aula o zíper da mochila travou na metade e ela ficou pra sempre entreaberta. eu poderia fazer uma lista das coisas que meus amigos da escola (principalmente o Kevin) já jogaram dentro da minha mochila, ela se chamaria “coisas que meus amigos da escola (principalmente o Kevin) já jogaram dentro da minha mochila (lista incompleta [assim como todas as listas {inúteis, portanto, estes comentários}])”, mas seria uma outra lista, não seria esta.

2. estojo de silicone (cujo cheiro já foi [ou seja, não é mais {faz tempo}] de morango)

ganhei este estojo da tia Solange, que é irmã da minha mãe, mora sozinha em Curitiba e nunca acertou um único presente. o que um dia era uma essência artificial de morango, que já não tinha cheiro de morango, hoje é uma mistura de mofo, sujeira de umbigo, fandangos sabor churrasco e mijo de gato. seu cheiro me dá ânsia de vômito. mas a Maria Cecília, que estuda na minha sala lá no Trajanão, tem um estojo igualzinho ao meu.

3. boné do Londrina E. C.

não se pode usar boné na escola municipal Professor Geraldo Trajano de França. ou melhor, pode sim, desde que o fiscal de pátio Vagnão ou (muito pior) a diretora Dona Dara não te vejam. tenho uma técnica infalível, que consiste em escondê-lo debaixo do capuz do agasalho. só que Maringá é quente como uma cozinha onde esqueceram pra sempre a porta do forno aberta e eu quase nunca tenho a chance de usar agasalho, ainda mais de capuz. sendo assim, preciso me virar de outras formas. o boné foi presente do meu primo Viktor, depois que ele virou esqueitista (e parou de usar bonés de futebol). ele me disse que na escola dele, lá em Londrina, os alunos podem ir de boné. um sonho. o que será que o Vagnão ou (muito pior) a diretora Dona Dara lá de Londrina fazem com tanto tempo livre?

4. garrafinha térmica “pare de fumar correndo”

ganhei esta garrafa lá no Parque do Ingá, numa corrida que fizeram junto com uma campanha de conscientização. no verso tem um adesivo que diz “água é vida!”, mas eu só bebo pepsi twist ou fanta uva. como a garrafinha é de metal, ninguém percebe. eu não fumo, cigarro é fedido, mas eu também não gosto de correr. o Vagnão fiscal de pátio fuma (escondido). a mãe da Maria Cecília também. sei que meu pai fumava porque minha mãe falou, mesmo que eu nunca tenha visto, isso foi antes de eu nascer. tenho muita curiosidade em saber qual a marca do cigarro que o meu pai fumava. um dia vou perguntar pra ele. o cigarro do Vagnão fede muito. o da mãe da Maria Cecília fede um pouco menos.

5. o camelo de cabelo

na verdade é um dromedário. mas, e daí? é o camelo de cabelo. ele tem uma cabeleira maluca. é o camelo de cabelo. dromedário é um nome imbecil, que não rima com nada.

6. tênis vans com o solado descolado (o fim da minha [já prejudicada] carreira no futebol [de salão {futsal}])

minha mãe, depois de me ouvir chorar muito, comprou esse tênis pra mim lá no Avenida, mas escolheu um tamanho três números maior que o meu, “pra durar mais”. desde então eu não tirei mais ele do pé. mesmo quando ia ter aula de educação física eu ia com o meu vans, não queria nem saber. foi o professor de futebol, qual era mesmo o nome dele, que disse bem assim: “é, Nicolas, com esse tênis de astronauta aí não vai dar não”. o bacaca do Kevin, com uma chuteira bem novinha nos pés, deu risada da minha cara. babaca. depois de um tempo as solas descolaram, a esquerda primeiro. quando eu andava elas abriam feito duas boconas banguelas. meu pai disse que isso aconteceu porque o tênis é falsificado, que era pra minha mãe ir lá na loja reclamar. eu tentei colar com superbonder, mas não deu certo.

7. livro “Onde está Nicolas?” (ou seja, eu [ou alguém chamado Nicolas que pode {ou não} ser eu])

a primeira vez que eu li este livro não fui eu quem li, porque já faz muito tempo, foi alguém que leu pra mim, porque na época eu ainda não sabia ler. desde aquela época eu carrego o livro comigo, sempre dentro da minha mochila semiaberta, onde o Kevin já jogou muitas coisas, uma vez ele virou lá dentro um pacote inteiro de fandangos sabor churrasco, e eu nunca deixei, nem por um minuto, de pensar nessa pergunta, “Onde está Nicolas?” (ou seja, eu [ou alguém chamado Nicolas que pode {ou não} ser eu]), mas não encontrei jamais a resposta.

8. chaveiro do Zé Gotinha

ganhei esse chaveiro lá no Postinho Central, lá onde tem uma estátua do próprio Zé Gotinha feita com azulejos quebrados. deram um chaveiro pra cada criança que tava na fila. eu vi a Maria Cecília na fila junto com a mãe dela. depois as crianças entravam uma de cada vez por uma porta e sem demorar nada saíam chorando. aí entendi que a vacina ia ser de injeção. mas que ninguém ia gostar de um mascote que se chamasse Zé Seringuinha. então eu arranquei um olho do meu Zé Gotinha e pintei gotas de sangue por todo o corpo balofo dele com canetinha vermelha. eu queria perguntar pra Maria Cecília se ela ainda tem o Zé Gotinha que ela ganhou na fila da vacina de injeção. uma vez a diretora Dona Dara tava no pátio na hora da saída e viu o meu chaveiro, ficou uma arara, quis até tomar ele de mim, mas como o sinal já tinha batido eu saí correndo e deixei ela pra trás.

9. diário secreto com o cadeado quebrado

outro presente da tia Solange. vinha com um minúsculo cadeado e uma chave ainda menor, que sumiu em menos de vinte e quatro horas. tive que arrombar o cadeado, que ficou apenas de enfeite. eu tentava escrever todos os dias, mesmo que não tivesse o que contar, porque é o que se espera que um dono de diário faça. de vez em quando eu voltava algumas páginas pra ler o que tinha escrito e nem sempre reconhecia os episódios que eu encontrava, não reconhecia nem mesmo minha caligrafia, era como se alguém mais escrevesse ali além de mim (tenho algumas suspeitas [apenas uma na verdade {Kevin}]). comecei então a mentir no meu próprio diário, por medo de outra pessoa estar lendo aquilo. no recreio nós mantínhamos distância, mas de vez em quando nossos olhares se cruzavam e eu percebia a fúria dele. ele percebia a minha. o Vagnão fiscal de pátio até agora não percebeu nada.

10. canivete (que não é suíço [nem de modelo, nem de origem {é de abertura frontal, do Paraguai}])

fica no meu bolso, não na mochila. não foi presente de ninguém. a lâmina retrátil às vezes trava, não funciona direito. tenho treinado o movimento escondido. quando tudo dá certo, consigo abrir o canivete em menos de um segundo.

Deixe um comentário