Rato morto
Finado mamífero, desprezado em vida. Gordo (ou inchado?), com os olhos saltados cobertos por pálpebras prestes a estourar, as quatro patas estendidas para o alto, a língua estribuchada para fora, a barriga lisa e rosada. Jaz tranquilo sob a grama de um parquinho público. As crianças que passam por ali têm pesadelos à noite.
Conchas
Objetos marítimos deslocados de seu habitat natural. Moradas de moluscos que viram coleções de turistas desavisados, que não sabem que não se pode tirar nada da natureza. São os pós das conchas que formam a areia, em um processo tão antigo quanto o próprio tempo. Uma coleção de conchas atirada na rua marca o fim da decoração do que um dia foi um novo lar. Em milênios, seus fragmentos serão parte da fuligem da cidade.
Brilho
Ele trabalha há 30 anos no sexto andar do estacionamento do antigo Edifício Joelma (estava de férias no dia do fatídico incêndio). É um homem encorpado, de rosto largo, pele negra. Simpático e amedrontador na mesma medida, toca sozinho o negócio de higienização de carros. Alguém encosta por aí e pergunta quanto sai o serviço.
— 350, mas a gente faz de tudo: desmonta seu carro inteiro, usa ozônio pra matar os vírus e bactérias. Pode confiar.
O cliente em potencial pergunta seu nome.
— Eriomar, mas pode chamar de Brilho.
Saco de lixo
Invólucro de plástico com capacidade para 50L que separa o que não serve mais para ficar em casa: contas velhas, bitucas, fralda suja, todas as frutas que você comprou e não conseguiu consumir, as verduras que amarelaram e escurereçaram. Demonstra imensa fragilidade, pois basta um passeio rápido na rua para vê-los arrebentados, expondo as estranhas das casas alheias na calçada.
Dono da banca
Substantivo masculino de meia-idade, cabelos brancos lisos e um dente só no lugar dos dois da frente. De baixa estatura e sorriso fácil, se assemelha a um hobbit. Hoje em dia, pouco lucra com revista ou jornal (o que sai mesmo é o para pets). Vende tabaco e brinquedos de plástico por lazer, são uma desculpa para conversar com os fumantes e as crianças, escapar da solidão da viuvez. Sua verdadeira renda vem dos apartamentos minúsculos que aluga nos arredores.
Papel
Substantivo concreto e versátil. Muito encontrado no chão em forma de panfleto de prédio novo, anúncios de compra de ouro ou notas ficais de supermercado. Um segredo escrito em papel de bala escapa da carteira e cai no meio fio. O vento sujo gerado pelos carros empurra o papel bueiro abaixo. Lá, será devorado por ratos viciados em açúcar, que evacuarão as palavrinhas digeridas, que serão novamente devoradas por baratas, tornando a mensagem enfim indecifrável.
Lata
Objeto com mil e uma utilidades. É frequentemente visto na mão de homens e mulheres que bebem cerveja depois do trabalho – ou antes, em alguns casos. Mas na rua é muito mais do que isso. Vira dinheiro, cachimbo, fogão, copo, arma, artesanato. Na última terça, um homem passou a noite entortando um fundo de lata até que ele se transformasse numa flor. Uma mulher recebeu o presente, agradeceu e descartou o presente em cima de um saco plástico aberto na calçada. Seguiu andando com seus segredos.
Escada rolante
Disputado objeto enorme, que poupa à humanidade o trabalho de subir escadas. Às vezes, provoca acidentes. Nela me distraio com os celulares dos outros. O do homem à minha frente mostra um arquivo de áudio aberto. Junto ao aparelho, um papel com uma letra de música impressa. Tokyo alguma coisa. O homem penteia os poucos chumaços de cabelo que tem de modo que eles fiquem presos ao alto da cabeça. Cinco mechas espaçadas, de cabelo alisado. Parece estar ensaiando. Essa cena me comove, adoro pensar na vida secreta das pessoas, naquilo que as diferencia de um pedaço de carne saltando no vão entre o trem e a plataforma, entrando e saindo do moedor.
Ficha telefônica
Espécie extinta de moeda cinza-chumbo com relevos nas pontas, em formato tridimensional, utilizada em telefones públicos, chamados de orelhões. Essa em específico hoje faz parte do concreto de uma calçada da Rua Barão de Tatuí, junto com chicletes e tampinhas de garrafa. Há 32 anos, foi graças a ela que alguém ouviu seu primeiro eu te amo.
