PREÂMBULO: Garcia, o personagem principal deste conto, apareceu também é o protagonista no conto “Ficamos com o Siamês” no qual ele é um adolescente/jovem dos anos 80/90 contando sobre algumas mulheres de sua vida e uma, cega, da qual apanhou e ainda tomou uma dedada.
Ver é violento
Que golpe
Aplicar no vento?
Paulo Leminski
1 Snapchat
Recebeu a foto. Eram caixas de remédio sobre o que Garcia sabia ser a cabeceira da cama do tio. Ao lado da quetiapina, era possível ver um rádio relógio. O sobrinho conhecia a casa da irmã da mãe e ele se lembrava do aparelho. Os números digitais em um vermelho frágil, quase apagado. Mesmo os tios dele usavam celular, o aparelho estava ali mais por hábito do que por real necessidade.
Garcia explicou que ele não poderia comprar. Estava sem saldo no cartão. A Tia manda um pix. Mas e a receita? Eles ficam com a receita. Ela então deixou subentendido que era para fazer o que foi feito da outra vez. Mudar a data no editor de imagens. A tia era uma velha, o tio era um doido, o médico ficava do outro lado da cidade e ela tendo que se virar de ônibus, táxi, uber. Muito trabalho por um pedaço de papel. Garcia bufou contrariado. Não vou fazer de novo, tia. A senhora se vira, essa é a última.
-Mês que vez eu vejo, um dia de cada vez.
Garcia sentiu-se à vontade para usar a foto com os remédios. Foi em seu grupo do Telegram. Não era um grupo político, nada assim, embora conforme o novo normal, política virasse ocasionalmente um assunto. Era um grupo onde se compartilhava arquivos, filmes, séries, desenhos, animes, livros, gibis. Coisas que já tiveram seu valor. Porém agora ali, repousavam numa prateleira tão eterna quanto frágil.
Mentiu que era viúvo, que ficara bipolar, que escanear e gravar os arquivos faziam-no melhor e pediu doações para poder manter o trabalho. Porque aquilo era um trabalho. Se não propriamente o dele, mas o de outros que fizeram. Um pix para manter o canal, para adquirir novas mídias, para catalogar e organizar aquele caos de arquivos. O povo geralmente acredita e ajuda. Não são muitos os doadores, mas sempre tem umas almas agradecidas.
Gostaria de vender, como fazia no começo. Mas agora ninguém se dispõe. Diversão ficou barato demais, ninguém valoriza. Se não tem o que se quer, arruma-se outra coisa. Além disso, Garcia já ouvira falar que vender pode dar cadeia. Pouco provável, vamos ser francos. Tanta coisa mais importante acontecendo dar importância aos produtores de Hollywood. Mas quem viu o mundo mudar tanto, melhor não facilitar. Amanhã tudo pode mudar.
2 Windows
Do quartinho de sua casa, o drone passou pela porta entreaberta. Luzes removidas uma a uma para torná-lo mais invisível nos voos noturnos. Dali, subiu do quintal para fora, na rua. Desviou com cautela da teia de fios de energia. Antes haveria chuteiras e rabiolas de pipa entrelaçadas, mas hoje a molecada só sabe de celular.
Dali rumou para o alto rapidamente, tentando evitar testemunhas. Só então partiu para os condomínios. Os espigões erguidos há uns poucos anos. Era uma viela de casas operárias, uma loja das Americanas, um posto de gasolina. Derrubaram tudo e numa velocidade impressionante surgiu um conjunto de prédios com varandas enormes e áreas de lazer na cobertura, especialmente a piscina. O objetivo da piscina no alto deve ser evitar olhares dos vizinhos e câmeras. Porém, esqueceram das varandas.
Segundo disseram a Garcia, a metragem da varanda não entra no valor do IPTU. Ele nunca googleou para confirmar se era verdade, mas assumiu que sim e seguiu a vida. Então é muito fácil para um drone devassar o interior dos apartamentos. Dito isso, apesar de ter pintado o brinquedo do preto mais fosco que encontrou, as luzes urbanas nunca se apagam e o céu adquire um tom cinzento, uma coberta de mendigo. Não existe mais a noite preta. Sendo assim, aproximou-se de muito mais alto do que o necessário para evitar que alguém percebesse o contorno do drone.
Garcia não queria dar na cara. Sabia que alguns condomínios já tem câmeras apontadas para o alto. Fazem isso para aqueles que jogam guimbas de cigarro e cotonetes sujos pelas janelas. Dito isso, os prédios foram recentemente entregues pela construtora e ainda havia muitos apartamentos desocupados. Os moradores nem devem se conhecer direito, um bando de novos ricos que ainda não sabe viver em comunidade. Condomínio novo é sinônimo de desavença. Devem estar mais preocupados em separar vagas de garagem. Pelo menos era o que dizia para si: Enquanto as coisas não assentarem, o drone aproveita para espiar.
3 DJI Shahed
O drone não era qualquer drone. Calderari garantira:
-O Patrão sabe o que faz. O Mossad usava uns desses para detonar na Faixa de Gaza. Por isso que os palestinos se enfiaram em túneis. Os homens ficam que nem toupeiras, todo mundo sob a terra, porque se saem na rua… BUM! Agora tem uns melhores. Esse tem capacidade de áudio e visão noturna e as hélices são quase inaudíveis. Agora deve estar voando lá na Ucrânia. Vi filmagem de um jogando granadas para cima de uns russos. O Patrão sempre tem o melhor pro seu amigo.
Era assim que ele se autointitulava quando se exibia: Patrão. Porém, mentiu quanto ao zumbido de zangão das hélices. E também não havia nenhuma garra para segurar granadas. Garcia era consciente que a palavra de Calderari não valia muito.
Conhecia Radu Calderari há muitos anos. Um colega da faculdade o indicara, esse cara está precisando de alguém que saiba mexer com essas coisas que você gosta. Na época Garcia estava apaixonado pela sua primeira mulher, Úrsula. Para quem se lembra, Úrsula era uma mulher tão forte quanto cega. Ou talvez mais cega que forte. Cegueira tende a ser permanente, já a Força nem tanto. Úrsula trabalhava numa ONG com outros deficientes visuais, por um salário mixo. Já Garcia estava recém formado. Supostamente devia ganhar mais, porém o salário também era miúdo. De modo que a indicação do colega veio a calhar.
Radu falava muito, conversador. Tinha tatuagens e anéis e algo que fazia pensar mais em um músico do que em um dono de empresa. Mas ele tinha uma empresa e era rico. Sua vaidade e anéis e brincos sugeriam um homem gay. Mas ele não era afetado e, além disso, também tinha mulher e filhas pequenas. Parecia em tudo estar um tanto adiantado e de um modo um tanto vago, pensou que ele era um herdeiro. Mas um herdeiro incomum, não era desses que só se apoiava na família. Mais tarde Garcia descobriria que estava certo e errado ao mesmo tempo.
O primeiro trabalho que passou foi instalar câmeras escondidas. Desconfiava que alguém o estava roubando na empresa dele. Garcia fez o serviço todo em uma única noite, Radu o acompanhou o tempo todo, sempre falando e conversando sobre todo tipo de assunto, mas deixando de lado certos detalhes sobre a própria vida. Era algo na convivência dos dois. Não me pergunte e eu não perguntarei. Tanto era assim, que Garcia jamais soube se deu certo. Aparentemente sim, pois passou a pedir outros serviços de tecnologia, sempre nesse limite, entre paranoia e segurança.
Um dia, Radu apareceu do nada em sua casa. Cumprimentou Úrsula e conversaram brevemente sobre questões de cegueira e falta de visão. Depois que ela saiu, Radu retirou de sua pasta um livro. O título na lombada era propositalmente enfadonho, Jurisprudência do Código Processual Fazendário 1993. Era um livro falso, no seu interior oco havia um equipamento de grampo. Um modelo antigo para tempos em que não existia celular.
Garcia arrumou o aparelho sem jamais perguntar o que pretendia. Mas a relação entre elas subira um patamar no organograma das intimidades: dias depois Calderari pediu para montar um taser derruba valentão com flash de máquina fotográfica e concedeu uma única pista:
-Traíra a gente trata como merece.
4 The Sims
Com as luzes acesas, havia apenas o apartamento de uma outra moça no décimo segundo. Mas o alvo dele morava mais abaixo, no sexto andar: seu nome era Kalina. Baixou a altitude do drone para observar o interior. Era um apartamento com decoração escassa, de poucos móveis e ornamentos. Os sofás pareciam claros e caros demais. O objeto mais estranho ali era a imagem de uma santa negra, mas não tanto quanto a Aparecida, uma pele amarronzada. Se Garcia não soubesse nada de Kalina, poderia suspeitar de uma imagem do candomblé. A moça cruzou da sala para a cozinha e da cozinha para os quartos. Era mais jovem que a vizinha do andar de cima, mas usava muitas joias e penduricalhos, o que lhe concedia um certo ar superficial. Talvez preferisse usar em casa para evitar atrair assaltos. Ela gostava de usar os cabelos soltos, era atraente por ser jovem e talvez mais jovem por ser atraente.
Garcia lembrava-se dela antes de tingir os cabelos. Agora eram aloirados. Ele não gostou. As mulheres não envelhecem, ficam loiras. De todo modo, Kalina não era para seu bico.
5 Mcafee
Demitido mais uma vez. Era a terceira empresa. A faculdade de Garcia não era de primeira, então as vagas que surgiam eram de empresas nacionais, sujeitas aos bamboleios econômicos. O Plano Real salvou o país mas quebrou muito lugar que só sabia viver na loucura da inflação. As pessoas físicas e as jurídicas precisavam reaprender a viver naquela mar repentinamente parado. Não era para todos. Por exemplo, na empresa onde Garcia estava empregado, o diretor industrial fora demitido e o novo ainda tentava entender por que não adiantava produzir mais se não havia mais o mesmo desespero para consumir. A agitação migrara da economia e do mercado para dentro dos escritórios da administração.
O sangue espanhol de Garcia não era de quem baixa cabeça. Não tinha medo de perder o trabalho, em sua cabeça que não iriam cagar. Sabia se virar e ainda tinha o quartinho e a oficina dos fundos para não precisar ter chefe. Aprendeu a gravar CDs com músicas piratas obtidas no Napster e vendia para uma pequena loja de discos no centro do bairro.
Recorreu novamente ao Radu Calderari. A essa altura, já sabia que o homem era cigano. Ficou sabendo tempos depois. Talvez tenha sido melhor. Se Garcia soubesse da origem de seu contratante talvez tivesse recusado o trabalho. Tinha na cabeça o preconceito clássico: gente suja e ladra, vivendo em trailers em um terreno baldio próximo ao circo. Tocadores de violino e Sidney Magal. Ainda não havia a novela Explode Coração, mas Garcia não assistia novela, soube muito por cima, sempre em tom de piada, do cigano Igor e a frase dita em tom robótico de Exterminador do Futuro: “Você está grávida de outro homem, Dara?”
Radu era rico e vaidoso, cheio de correntes e anéis e tatuagens em um tempo que era coisa apenas de roqueiro. Tinha a conversa fácil de quem gostava de negociar. Tinha mais de uma picape e gostava de ostentar… mas não demais. Não era burro, vivia no Brasil. Certa vez, entre um copo e outro, Radu lembrou-se quando o pai fora sequestrado, numa época em que isso esteve em moda.
Sempre que precisava de dinheiro, Garcia recorria ao cigano por trabalhos. Nas primeiras tentativas, Radu oferecia empréstimos: deixe de comer feijão bichado, o Patrão aqui tem o suficiente para nós todos. Mas quase sempre eram juros de agiota. O engenheiro sabia que não deveria ficar devendo a ele.
Sendo assim, foi apresentado a outros ciganos, parentes ou não, como um gajo de confiança, com Radu como avalista e fiador. Porém nem sempre os outros ciganos eram de confiança. Na hora da cobrança, alguns tentavam escapulir, dar desculpas, todo tipo de conversa para engabelar. Quando pagavam direito, eram homens honrados; se tentavam enrolar, daí, aos olhos de Garcia, viravam ciganos.
Mas ele também se virava, tinha seus recursos. Não era exatamente um hacker mas sabia onde encontrá-los, na época nem havia deep web direito. Eram outros tempos, havia blogues com pirataria, pornografia, tudo que é tranqueira, assim à mostra, tudo sem medo, sem vergonha. A Internet era o velho oeste. Os tais hackers também eram jovens ou mais novos, verdadeiros moleques. Hoje devem estar todos ricos, trabalhando em corporações, ninguém nem imagina que desenvolviam uns vírus a preço de uma promoção do Mc Donald´s. Caso suspeitasse de um calote iminente, Garcia instalava um vírus na máquina do malandro com data marcada, só esperando.
6 Suicidal Girls
Kalina tinha tatuagens. A distância impedia de ver com detalhes, mas ele podia acessar o instagram da moça para conferir. Garcia não tinha muito interesse por tatuagens, porém para a maioria das pessoas não era assim. Depois que entrou em moda, lá por meados dos noventa, nunca mais saiu. Mesmo ele quase sucumbira a onda. Felizmente seu tio, aquele mesmo tio que hoje precisa de remédios controlados, decidiu fazer uma. Ele já começara uma calvície e ao mesmo tempo fazia desenhos sobre a pele. De algum jeito aquilo serviu de advertência.
Mas ele tinha alguma curiosidade. Conforme a intimidade, perguntava porque a pessoa decidira aquele desenho para fazer sobre a pele. Agora entretanto eram tão onipresentes que ficaram invisíveis. Ninguém prestava muita atenção. Padres, policiais, professores, avós, doentes todos tinham a sua. Parecia ter se esvaziado, mas ainda assim as gerações continuavam exercendo seu direito de inserir tinta sob a pele. Garcia imaginava que era um favor para as famílias: hoje quando se encontra um cadáver, não é mais necessário ver o cadáver por inteiro. Basta conhecer a tatuagem do parente desaparecido.
7 Kwai
Aquele deveria ser o quinto ou sexto dia de campana. A casa não era de Garcia mas de um amigo de Radu. Era um sobrado sobre uma loja, os dois imóveis com placa de Aluga-se. Os imóveis eram o mínimo. Um colchão, algumas cadeiras, uma mesa de bar. Na cozinha, um microondas e um frigobar. Tudo providenciado pelo Patrão.
Já o computador e o tablet era de Garcia, configurado para receber a imagem do drone. Vez ou outra, quando percebia que Kalina iria sair, Garcia pegava a moto para acompanhá-la. Só conseguiu flagrá-la indo para o curso noturno da faculdade. Fez isso algumas quintas e sextas, dias para moçada sair para beber e dançar. Era o que ele esperava, mas a garota ia e voltava para casa, algumas vezes de carona com alguma amiga ou amigo, sem dar sinal de um relacionamento mais íntimo. Garcia estava decepcionado. As pessoas pareciam ter preguiça de viver. Ou poderia ser coisa de cidade grande, as pessoas cada vez mais enjauladas em seus apartamentos, gaiolas douradas de aparelhos e apetrechos e batiam pernas em redes sociais.
Lembrou-se do apartamento em que vivia com Úrsula. Ela fazia direito, já era um pouco mais velha que a média dos colegas. A tecnologia chegara em um nível que facilitara seu acesso aos livros e ao texto. Ela não pretendia advogar a princípio, mas passar em algum concurso que lhe garantisse alguns mirréis. O resultado disso era que ela passava os dias estudando constantemente.
Garcia não queria ter se mudado. A grana estava curta, ela o convenceu a alugar a casa e a ir para o apartamento. Sua oficina foi transferida para a edícula da casa dos pais, agora quando ele precisava fazer qualquer coisa tinha que visitar os velhos. Ele tinha liberdade o suficiente para fazer besteira longe de casa, mas quando se tem vontade de ser idiota… Garcia conheceu uma vizinha no elevador. Seu nome era Solange. Dizia ser advogada. Depois se encontravam na academia e em pelo menos uma reunião de condomínio.
No começo, Garcia dizia ir para a casa dos pais fazer algum serviço enquanto Úrsula se afogava nos áudios de aulas de Constitucional e Administrativo. Mas ele descia o elevador e subia para o décimo andar da outra torre onde comia a vizinha nas sextas feiras, dias em que os juízes não gostam de marcar audiência. Solange não tinha muito afeto por Garcia, ela mesmo dizia “Só trepo contigo porque você é um merda” Ele não se importava.
Garcia também não se lembrava quem teve a ideia. Talvez tenha surgido depois de fumarem um baseado após a foda. Enquanto Úrsula estudava num quarto, eles trepavam em um outro aposento do mesmo apartamento, sem gemidos para não fazerem barulho. Sempre em pé, para não provocarem estalos no estrado. Sempre de meia, para não deixarem passos.
8 Interface
O prédio da universidade de Kalina era amplo o suficiente para ter rampas. Lembrou-se de uma conversa da época da faculdade, um professor anunciando que iriam substituir as escadarias por rampas, porque “os burros conseguem subir rampas mas não escadas”. Era uma piada idiota de um tempo de piadas idiotas, mas Garcia podia sentir certa verdade. Havia menos interessados em contratá-lo; quem entendia de informática, sabia onde procurar auxílio por si, em fóruns de programadores; quem não entendia, preferia descartar o equipamento e comprar outro. Garcia decidira aprender um pouco de linguagem dos smartphones, mas a coisa ali era muito mais amarrada que nos desktops. Ainda havia espaço para seus serviços, em especial na área de segurança, ele instalava câmeras em todo canto.
Mas, pouco a pouco, o rio do mundo o empurrava para a margem. A única compensação é que ele não era o único. Ele sentia o mesmo nos grupos de Telegram, nos fóruns, nas conversas, nas crianças.
9 Me chama no PV
Radu teve seis filhos, quatro meninas e dois meninos. Quando um de seus guris era adolescente, o cigano pagou para que lhe ensinasse uns truques de “hacker”. Por certo, era uma maneira de deixar os conhecimentos técnicos na família. Mas não durou muito, o menino não tinha interesse. Gostava de carro, moto, arma, coisas mais fáceis de ostentar.
Garcia lembrou de si mesmo, seu pai tentando lhe incutir interesse no mercadinho da família. Foi sincero com Radu, acho que ele não tem paciência para isso, tem gente que só quer ser usuário.
Chamar de amizade a relação entre Calderari e Garcia seria forçado. Mas havia pontos em comum. Eram materialistas, mas um queria ostentar e outro queria ferramentas, alavancas para mover o mundo se assim desejasse. Entendiam-se como lobos de uma mesma alcateia.
Mas também havia uma curiosidade mútua. Ou, de uma perspectiva bem rasteira, um homem casado querendo saber da vida de um solteiro e o homem solteiro, daquilo que perdeu. Pois Garcia estava sozinho há uns bons anos: divorciado de Úrsula. A esposa podia não enxergar, mas não era idiota. Um dia, finalmente, entendeu o que estava acontecendo. Quebrou os dedos do então marido que ainda estavam impregnados com o cheiro da vizinha. E depois bateu nele com a bengala, como granjeiro bate num cão comedor de galinhas. Radu não conteve as gargalhadas.
-Comer a vizinha de meias… Eu nunca imaginei que você seria tão cara de pau.
Descuidado era uma palavra melhor. Garcia ainda gostava de Úrsula, mas não eram pessoas que deveriam estar juntas. Uma relação não é somente sobre outra pessoa, mas quem você se torna quando está com a outra pessoa.
Radu entendia isso, mas não havia espaço para ser o que se deseja entre os ciganos. Há sempre a família. Mas em especial, para as mulheres. Elas são o centro da casa, tem que cuidar dos filhos, dos maridos, tem que separar as roupas para lavar, não pode ter a mesma água. Tem que ter filhos e muitas vezes nem podem ir no ginecologista porque o médico é homem e nenhum homem pode tocar a mulher casada. Mas isso é coisa para quem fica em acampamento, para o povo que ainda anda, fica aí pelas estradas. Não era o caso de Radu, ele próprio alegou.
Garcia desconfiou. Das quatro meninas filhas do cigano, três já estavam casadas e foi bem antes dos dezoito. Dizia ele que eram negócios, pagamento de dote entre os primos. Talvez o patrão não fosse tão evoluído das ideias quanto pensava.
10 Onlyfans
Naquela noite em específico, Kalina não foi para a faculdade. O drone capturou uma fotografia do interior do apartamento. De mais diferente, havia um ringlight no meio da sala, a câmera aparentemente apontando para o sofá. Como dito antes, o lugar não possuía uma decoração muito exuberante. Mas o que havia de quadro pendurado fora retirado, incluindo aí a Santa Sara Kali, somente depois Garcia reconheceu a imagem da novela de Igor e de Dara. Havia buquês em vasos pelo apartamento e quando a moça passou pela sala, vestia um negligé e flores presas em tranças pelo cabelo agora tingido.
A moça parecia nervosa ou então sedenta, pois tomava taças de um espumante bem vagabundo. Olhava-se no espelho e se ajeitava e depois removia um móvel que parecia estar ao alcance da câmera do celular. Lá pelas tantas, ela atendeu ao interfone e aguardou a chegada de visitas.
Eram duas pessoas: uma mulher de aparência sóbria e cabelo curto e um rapaz muito alto e musculoso. Ela trazia uma caixa coberta com um pano e ele, uma mochila. Abraçaram-se e cumprimentaram-se. Sentam-se e passam discutir detalhes, a mulher sóbria conferiu o celular preso ao ringlight, o rapaz tira a camisa e usa uma faixa para cobrir o braço. De início, Garcia pensou em um fetiche, mas depois notou que era para cobrir as tatuagens. Em seguida, ele vai para a janela e passa a fechar as persianas da varanda.
Garcia suspirou. Conferiu o horário no canto inferior direito da tela do notebook. Decidiu arriscar. Aguardou uns minutos para que se transcorressem os preparativos. Depois, com a paciência de equilibrista aproximou o drone o mais lentamente possível da janela da varanda, esperando poder enxergar por uma fresta esquecida entreaberta. Sabia que naquela distância o aparelho estaria visível, mas estava cansado dessa espera.
Ajustou o foco da câmera para o interior do apartamento. Conseguiu ver Kalina, cabelos presos em um coque, chupando com carinho o rapaz. Ela também estava com uma máscara ornamentada, entre o chique e o óbvio, algo como um carnaval veneziano. Garcia percebeu que ela também escondia suas tatuagens com faixas em seus braços e quadril. A situação dela não era tão difícil de entender, sendo cigana. Porém, não a do garoto. Será que o homem era casado e não queria ser identificado?
Então a mulher de terno cortou a frente. Ela continuava vestida, não participava da ação em si. Aparentemente cuidando de outros detalhes. Retirou o pano que havia sobre a caixa de madeira perfurada e Garcia entendeu que havia alguma coisa viva lá dentro. Ele só não sabia que a criatura não ficaria viva muito tempo.
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O pai de Garcia dizia que a aldeia onde nascera na Espanha era a Idade Média e que no Brasil chegara no futuro. Abriu um mercadinho com um sócio, mas o sócio desaparecera certa noite, numa noite em que os canteiros de flores do quintal amanheceram remexidos. Sempre gostou de máquinas e motores e não foi difícil passar essa paixão para o filho em épocas de corridas e viagens a Lua. A mãe de Garcia tinha a pele canela e tinha vindo de Minas para ser professora em São Paulo. Acreditava também numa hierarquia das coisas e que criança não tinha que responder. Do pai, carregou consigo o prazer de fazer, de mexer, de descobrir como funciona. Da mãe, aprendeu a salgar comida e a entender que nem tudo se fazia na mão, há de saber estudar, de se usar a cabeça. Agora os dois estavam mortos. O pai hipertenso morto em um derrame. A mãe viveu muito mais, porém sucumbiu na pandemia, ignorando recomendações da OMS graças a seu grupo de Whatsapp.
Garcia não sentia ou não sabia ou não se preocupava em como a vida de seus pais moldou sua própria vida. Como todos nós, ele se sentia à sua maneira, senhor de seu destino ainda que a estrada já estivesse lá. Poesia era coisa de bicha e só os malucos faziam terapia. Porém depois de acompanhar todo tipo de mudança e evolução e mercadoria, sempre tentando se atualizar, Garcia estava cansado de tanta impermanência.
Radu era um cigano sedentário, mas a liberdade era sua religião. Ele não precisava estar nas andanças e nos acampamentos, o próprio mundo parecia dormir num lugar para acordar em outro. E por isso precisava de algo firme, um farol, um porto, seixos debaixo das águas escuras. Prendia-se a tradições e a sua família e ao dinheiro e aos colares e dentes de ouro, a tudo que era sólido. Radu precisava de estabilidade e que sua família lhe obedecesse. Por isso, projetava força e alegria.
Naquele dia, entretanto, Garcia percebeu a quietude de Radu. E quando ele começou a chorar. Não podia falar o nome dela, Kalina fora deserdada antes da pandemia. Ela queria continuar estudando. Mas ele ainda a amava, era sua caçula, sua filhinha querida, ele desejava o melhor para ela, mas ele não poderia ser cigano e ser pai e ser homem e ter o respeito dos primos e dos tios. Ela já não valia mais o valor de seu dote. Ela já não poderia ser mais sua filha. Mas ele a amava e era sua caçula e soube que estava passando dificuldades depois da pandemia e ele queria saber, mas não queria saber e ninguém poderia saber.
Garcia confortou o Patrão. Ele já havia seguido os outros companheiros de sua ex-mulher Úrsula, sabia como investigar uma pessoa discretamente. Veria o que dava para fazer.
12 Netscape
Os ciganos chegaram ao Brasil ainda no primeiro século de colonização. Degredados, cristãos novos, bandidos, órfãs, escravos. Aqui poderiam se estabelecer, esquecer sua condição nômade de andança e talvez muitos tenham feito isso, mas muitos outros continuaram na andança, talvez negociando com tamoios e quilombos, sobre o lombo de mulas e negociando gado. Talvez tenham morrido no estômago dos tupis, sofrido tortura de inquisição, apanhando da polícia e de beatos e de quem mais não gostasse daqueles ladrões de cavalos e sequestradores de crianças. Mas ainda estão por aí, alguns muito bem de vida, outros de pés descalços na terra, mas ambos de celular postando suas falas no Tiktok.
Garcia já ouvira dizer que seu sobrenome também poderia ser cigano. Ele gostava de imaginar que o pai tivesse saído da Espanha por ser contra o Franco, mas também poderia ser para fugir de sua família. O velho falava apenas que nascera numa aldeia que era a Idade Média e que gostava do Brasil, onde poderia ser tranquilamente ninguém em especial.
Enquanto renderizava o vídeo do drone para posteriormente gravar na nuvem e disponibilizar a Calderari, Garcia poderia ter se lembrado de um texto antigo na Internet. Um que dizia que os vitorianos não sabiam que eram vitorianos. Que eles foram nomeados posteriormente por outras gerações que identificavam neles uma série de características em comum. Mas que para os próprios vitorianos aquilo sempre passou despercebido.
Era muito possível que um dia, no futuro, os arqueólogos e historiadores não consigam compreender este presente: no caos de informação, onde tudo será dito e quase nada ouvido, tudo para ver e nada para entender, e ainda sem se saber se era real ou simulação por IA. E então talvez o mundo morra – talvez não literalmente – e não será no fogo ou na água e nem por um meteoro, será uma morte por sufocamento, no garrote, a Terra esgotada e seca.
E aí esses historiadores, esses alienígenas de outro lugar chegarão na Terra. Perguntarão às ruínas, vocês não perceberam para onde caminhava essa Pompeia? Vocês ficaram todos cegos?
Garcia nunca pensaria nada assim. Não é o seu estilo. Mas digamos que ele estivesse lá entre esses arqueólogos. Ele responderia: Tive uma mulher que não enxerga. Eu a amei. Para lhe fazer justiça, entretanto, ela via e estava muito mais presente que a maioria de nós. O problema nunca foi a cegueira mas o excesso de coisas para ver.
Mote:
A eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo
William Blake, 1793
As Mercenárias, 1988
