Bicho

Nem pensa em trair a gente, o Manco diz, a barba cinzenta tenuamente desenhada no queixo. Não olha pra mim, nunca olha pra ninguém, dizem, exceto quando precisa resolver alguma coisa com a pessoa. Saltamos uns cem metros antes das fitas roídas que isolam a área contaminada. Vamos começar uma trilha de dois quilômetros dentro da mata, seguindo as instruções grafadas à faca nos troncos apodrecidos dos eucaliptos. Agora que a contaminação tinha se alastrado, nem os guardas ficavam nos postos. Conheço bem minha sina, tenho vontade de dizer isso ao Manco, como num filme de ação, mas percebo que é uma frase idiota. A verdade é que tento não pensar, desde que recebi a ordem tento não pensar em nada.

Respirando câncer porque você é um viado traidor, diz o Manco para os galhos que furam as nossas caras enquanto abrimos caminho. Como viveu a vida inteira na região, foi destacado para me vigiar. Antes de secar tudo, ele cuidava de três fazendas de eucalipto, a vida inteira mancando entre os corredores de madeira como uma aparição. O Manco diz “a gente” como se estivesse incluso nos planos deles, mas nós dois sabemos que ele não está, e entendo sua revolta porque estar aqui comigo é a confirmação do seu status, ou da falta dele. Depois do vazamento, Manco precisou mudar de ramo e acabou no mesmo lugar de sempre, mas agora, quando sua perna mais curta pisa a terra vermelha, o cabo de um revólver salta da sua cintura, pressionando a coluna arqueada. Quando se manca assim não há como fugir do apelido, mas eu não estranharia se o chamassem, por exemplo, de corcunda, tamanho é o mergulho que faz o topo das suas costas pra chegar na nuca, embora isso talvez seja um reflexo do mancar.

Eu vivia andando por aquela região quando era criança, mas hoje é impossível me localizar, já que o vazamento, em vez de matar tudo, como é de esperar de um acidente desse tipo, fez o mato crescer, esse mato seco e bege. Na época, meu pai costumava me levar pra ver boi ou galinha ou porco, na esperança de eu aprender algo sobre criação de animais. Mas eu estava sempre pensando em outra coisa, naquela época tinham me dito que o céu era infinito e aquilo me afligia o tempo todo, dormia (quando dormia) e acordava achando que seria engolido pelo céu, ou esmagado por uma estrela, que eu já sabia ser muito maior do que aparenta. Não sabe nada sobre animais, não vai saber nada sobre a vida, meu pai repetia toda vez que eu errava as respostas sobre os assuntos mais diversos da criação de bichos. Agora, se eu conseguir voltar, será minha vez de ensinar.

Uma clareira anuncia o fim da trilha, e logo reconheço a fachada desbotada da casa que improvisaram pra prender o bicho. Na foto ainda havia um céu aberto atrás da casa, mas hoje não, hoje está nublado. Tudo o que eu tinha conseguido segurar vem à tona e me curvo como o Manco, e vomito umas três golfadas. Ele gira de leve a cabeça pra trás, apenas o suficiente para demonstrar seu desprezo, sem me olhar. Minhas pernas endurecem enquanto andamos até a casa. Desde as primeiras notícias sobre o bicho eu queria vê-lo, mesmo de longe, na noite no matagal, sugando o sangue das vacas. Porém os poucos que o viram eram unânimes quanto à sua velocidade, se avistado fugia de volta pra área isolada em segundos. Um dia, na fazenda vizinha da nossa, apareceu um feto de bezerro, seco e enrolado pelo cordão umbilical na cerca. O bicho tinha arrancado ele do ventre da vaca e sugado o sangue pelo cordão. Desde então tinha passado uns três anos. Nesse período o bicho foi de pária à solução: depois de um ataque malsucedido, a vaca ferida se recuperou, e muito bem, ficando ainda mais forte com o tempo, tanto que precisou ser separada do rebanho porque estava batendo nas outras. Como aquilo se repetia em outras fazendas, fizeram uns exames e descobriram que a genética acidental do bicho transformava seu sangue num super sangue, com muito mais células, ou células mais fortes, melhores que as nossas. Quando o governo largou a área porque a contaminação só se espalhava, gente de todo lugar perdeu o medo de apodrecer e invadiu a zona do vazamento pra caçar o sangue do bicho. Em menos de um ano a criatura praticamente desapareceu e todo mundo voltou a ficar pobre e endividado. Preservar a espécie, então, virou uma urgência pra região. Quando o pessoal do Manco pegou o bicho, a dívida do meu pai podia ser paga.

Somos recepcionados por um adolescente magro de rosto encardido, ele olha pro Manco o reconhecendo, depois olha pra mim e aperta os lábios segurando o riso. Filho da puta, deve ser retardado. Ou mau. Entro atrás do Manco e no cômodo escuro se delineiam as silhuetas de mais dois homens, ambos perto de um buraco cavado na parede, servindo de janela.

Tá onde, pergunta o Manco.

Um dos homens se adianta e fica na frente do fio de luz branca que vem de fora, evidenciando seu pomo de adão pronunciado quando fala.

Tá ali, diz apontando pro lado oposto ao deles, onde um amontoado de tijolos soltos está empilhado como uma barreira, do piso ao teto, formando quase um outro cômodo.

Não dá pra ver nada, o Manco diz, e reparo que ele vira um pouco a cabeça para os homens agora. Talvez, além de manco, ele enxergue mal. O homem que estava recostado na parede se adianta.

No escuro ele não grita, diz.

Só agora pareço me dar conta de estar a poucos metros do bicho. Preciso vomitar de novo, mas não o farei, tento me concentrar, pensar no futuro, num futuro bem longe dali, em alguma cidade só com pessoas.

E como ele é?, pergunto pra ele.

Valírio disse que é mulher.

Você não viu?

Só vi de costas, antes de jogarem a lona. Tem cabelo grande. Mas de costas engana.

Olho pro vulto de Valírio, que balança a perna direita como se estivesse apertado.

Quem viu mesmo foram os homens do Tisco, diz Valírio. A gente deu seguimento depois dele acorrentado. Subiu em volta os muros, juntou tijolo na frente e fez um quarto pra ele.

Manco risca um fósforo e acende um cigarro de palha. Vai baforando a fumaça, primeiro sem tragar, depois suga o cigarro com afinco e engole a fumaça densa antes de cuspi-la na minha direção. Olha pra mim.

Lembra do combinado. Faz o serviço e volta. Se demorar mais que dez minutos, a gente cimenta.

Por que iria demorar, penso, por que me demoraria numa coisa dessas, penso nos cabelos compridos descritos pelo homem, penso no bezerro sugado pelo cordão. Lá dentro ele se mexe. Sei que os bichos pressentem o perigo, no curral os bois já sabem que vão morrer. Mas também pressentem a presa. Só os humanos que não pressentem nada. Então ouço os ganidos, como talheres rasgando um prato. Depois um uivo gutural, que faz as paredes vibrarem. O garoto se aproxima e me entrega uma lanterna.

Acordou, diz um dos homens.

Como vocês sabem que vai funcionar?, pergunto.

Funcionou lá no distrito, descendo a montanha. Nasceu igual.

Pra vocês é tudo muito normal.

Pro seu pai também foi, diz o Manco. Pra você também devia.

Tento não pensar no que acabo de ouvir, tento ser sugado pelo infinito. O garoto volta a se aproximar e segura meu braço pra acender a lanterna. O facho de luz agora deixa ver dois galões próximos à parede em que os homens se recostam, dois galões que não são de água nem de cachaça.

Os homens andam na minha direção e o bicho se agita mais e grita e uiva, parece cavar o chão de terra com a força que lhe resta. Abaixo um pouco, seguro a bile que sobe do estômago, e meto a cabeça na fresta dos tijolos. Vejo as patas peladas ladeadas por correntes, as unhas asquerosas cavando a terra batida. Com a ajuda de duas pás, os homens movem os tijolos da base de uma vez, abrindo uma grande clareira.

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