Notícias de jornal

por Américo Paim

Tribuna de Pedra Velha, um dia antes:

“Previsão de chuva intensa nas próximas vinte e quatro horas. A Serra deve ser a área mais afetada”.

“Encontrados, na tarde de ontem, os três turistas que estavam perdidos na Serra. Estão na Santa Casa de Pedra Velha, com sintomas de claro desequilíbrio psicológico, descrevendo paisagens e seres sem conexão com a realidade”.

Os dois estavam na sala da casa abandonada. Buscando um lugar ainda mais protegido, entraram em um dos quartos. Três passos e o chão desmoronou. A queda foi feia. Poderiam ter se chocado com alguma ponta cortante. Deram sorte.

Quando despertou, Mutum sacudiu seu corpo robusto e examinou a cabeça passando a mão. Nada enxergava naquele breu profundo. As gotas de chuva se infiltravam no rosto esburacado. Afastou com a mão os cabelos desconexos. Apalpou todo o corpo. Sentiu dor na parte externa da perna direita, onde a calça rasgou. Alisou cuidadoso o ferimento, confirmando o gosto de sangue. Não lhe pareceu grave. Inseguro, não se arriscou a levantar-se. Seguiu encostado no que lhe pareceu uma parede firme, como o chão que pisava. A pele de braços e rosto coçavam. Limpou o que pôde com as duas mãos. Havia um cheiro forte de mofo.

A poucos metros dali, em silêncio, Tiriba se perguntou: “o que aconteceu?”. Suas costas lhe doíam e não achava seus óculos, tateando em torno de si. Não lhe pareceu seguro se afastar muito da posição em que se encontrava, pois nada enxergava. Percebeu um corte suave no nariz adunco. A barba estava gosmenta com algo grudado. Com nojo, limpou o que pôde, entre arrepios. Sentiu o corpo sujo ao tocá-lo. A chuva batia forte na cabeça grande de cabelos ralos. Antes que pudesse falar com o amigo, o forte cheiro de mofo lhe arrancou uma crise de espirros.

– Tiriba! É você? – disse Mutum, com voz firme.

– E quem mais, desgraça?

– Tu tá bem?

– Acho que sim, mas dói a porra toda…

– Eu também. Tem um corte na perna só…

– Quéquetuacha que aconteceu, home?

– Num sei. Num lembro de nada.

– Ué, será que a gente ainda tá na casa?

– Oxe, onde mais? O barulho da chuva tá igual.

– E só chove aqui, jumento? – riu Tiriba.

Eles conversavam guiados apenas pelo som de suas vozes. Não sabiam da distância entre eles ou as condições do ambiente. Tiriba retomou a conversa.

– E aí, satisfeito?

– É o quê?

– Mutum, se não fosse por tu, eu tava tranquilo em Pedra Velha.

– Oxe, tava era na merda.

– Me fodi todo porque fui lhe ajudar.

– Hein? Tu já tava lascado igual a mim.

– Tu num vale nada, Mutum.

– Queria pagápravê com os home de Serafim, miséra?

– Deusémais… Mas precisava me trazer pra essa casa do coisa ruim…

– Oxe, de onde tirou isso?

– Tu viu sim. Num tinha lugar pra se esconder da chuva. Aí ela apareceu, do nada.

– Oxe… A gente é que num tinha visto.

– Pegue a visão. Deu aquele raio, um clarão e ela apareceu, tu viu.

– Escapa da tempestade e ainda reclama?

– Tu tem a mania de se meter em merda.

– Véi, tu faria a merma da coisa.

– Sou burro igual a tu, Mutum?

– Se tivesse lhe vendo agora, rumava-lhe a desgraça.

– Para com isso. Precisamo sair daqui.

– Como? Me diga, me diga.

– Tu sabe a fundura que tamo?

– De que jeito? Só sei que tô olhando pra cima porque levanto a cabeça. Num vejo é nada!

Mutum se levantou, esticou os braços e tocou na parede molhada, rugosa como reboco malfeito, com uma meleca fedida e pegajosa feito musgo. Pediu que Tiriba fizesse o mesmo e ele reportou igual. Não havia muito o que fazer, então. O frio incomodava. Não sabiam que horas eram. A chuva continuava.

– Mutum, tu tá com medo?

– Rá, sabia… Tu é frouxo mermo…

– Fale sério, véi.

– Oxe, tô de boa. Uma hora a chuva para e o sol vai nascer.

– Frio da porra…

– Tu é um merdinha, viu? Tá com frio, com medo…

– Quer me dizer que tá tudo bem? – disse Tiriba.

– Tenho certeza. Só vira barril se aparecer alguém de Serafim.

– Porra, nem fale isso.

– Facinho passar o rodo de bala por aqui.

– Fale não que atrai, home.

– Repare, Tiriba. Tu é mole que só a peste e deu golpinho no chefão…

– Já lhe disse que foi um acidente.

– É o quê? Vazar com dinheiro do caixa da farmácia? Me faça uma garapa…

– Oportunidade. Tava comprando remédio.

– Então se tiver no aeroporto, sai de lá pilotando? É isso?

– Porra, Mutum, o que tu fez foi muito pior, tu sabe. O home tá puto. Vamo é sair daqui!

– Num tem o que fazer. Espera clarear.

– E se num tiver luz? Será que a gente morreu? Será que o inferno é assim?

– Tu num tá com friozinho? Tu é burro que dói, véi. O inferno é quente pra caralho.

– E tu sabe disso como? Já teve lá por acaso?

– Não, mas quero ir pra lá quando morrer.

– Oxe oxe oxe… Por que, home?

– No céu num tem ninguém conhecido.

A gargalhada de Mutum ecoou estranha. Era uma risada nervosa, vulnerável. Tiriba sentiu mais medo. Não conseguiam se aproximar um do outro. Os celulares em suas mochilas, no piso acima, desligados para não chamar atenção enquanto andavam na mata. Fugiam dos capangas de Serafim, que os caçavam para acertarem as contas do dinheiro roubado. Só que a ideia de Mutum de se embrenhar ali não se resumia a se esconder. Ele queria achar o tal lugar de que ouviu falar, onde as pessoas se transformavam em bichos, de todos os tipos. Ele queria virar pássaro, lógico, e convenceu Tiriba, que sonhou em virar um bicho forte e bonito, com visão especial pra livrar dos incômodos óculos. As histórias sobre o lugar eram sedutoras e apavorantes. Mutum sabia ser caminho sem volta, mas se livraria da perseguição do demônio Serafim.

– A gente só tem que sair daqui, Tiriba.

– Ah, tá. Já num disse isso?

– Tu quer continuar assim mirrado e feio?

– Vai se lascar.

– Sem pegar ninguém? Zoado pela cidade toda.

– Mas é maluquice essa porra de virar bicho.

– Ruim mermo é cano de trabuco dos home de Serafim.

– Isso é…

– Vai que tu pega Rosita…

– Aí já é forçar a amizade.

– Por quê?

– Ela num é pro meu bico, não…

– Depende… Se for um bico de águia?

– Palhaço…

– Tiriba, é sério. Se eu ficar em cima de você, será que dá pra sair daqui?

– E como eu vou até aí? Ou tu vem? E se tiver um buracão sem fim no caminho?

– Melhor esperar a claridade, então.

– E se num vier? – fechou Tiriba.

A chuva aumentou. Ouviam o gotejar forte no piso acima. Tiriba disfarçou a tensão perguntando a Mutum sobre as histórias da tal casa onde se entrava humano e saía meio isso e meio aquilo. O amigo falou de um cara racista que quis ser leão e saiu pantera negra. Outro de uma mulher que quis ser tigre, mas saiu uma porca listrada. E teve o que queria ser forte e virou formiga – morreu pisado de forma acidental. Assim contaram a ele. Tiriba disse que ia escolher no menu quando chegasse a hora. Seguiram conversando, intrigados com o breu. Já estavam sem assunto e Mutum trouxe mais tensão. Tiriba se alterou.

– Véi, que peido é esse, mermão? Puta que pariu, Mutum! Caralho…

– Oxe, vou me prender, é?

-Vamo morrer aqui, desgraça…

– Drama da porra. Daqui a pouco passa.

– Precisa largar um queimante monstro desses? Tu comeu o quê?

– Aquela buchada de bode, ué…

– Tu tá morto e num sabe…

Mais tenso ainda, Tiriba desabafou. Ele sempre ajudou o amigo em suas enrascadas desde que eram jovens. Coisas que viraram memória divertida. Só que agora, perseguidos por criminosos e esquecidos em um buraco escuro, frio e úmido com uma vizinhança de seres estranhos, era outro patamar. Mutum ouviu tudo quieto e devolveu que ele sempre protegeu Tiriba e nunca o deixou na mão. Era momento de se ajudarem. E falou grosso. Após alguns momentos de silêncio desajeitado, veio o barulho absurdo.

– Porra, porra, Mutum. Queéisso, queéisso!!!

– É a buchada, véi… Tá foda…

– Vou vomitar se soltar outra porra dessa – gritou Tiriba.

– O próximo estágio será diferente…

– Num se atreva!

– Como é que controla?

– Não, não, por favor. Espera sair daqui!

– Só quando clarear. Abstraia…

– Respire, se acalme. Você consegue segurar isso!

Mutum nem ouviu a última frase, pensando onde seria o serviço. Situação complicada. Suava frio, com cólicas. Arriscou um passo à frente. Sem obstrução. Mais um, mais dois. Esbarrou em algo metálico. Preocupado, recuou de volta à parede. Segurou mais uns minutos e aconteceu. O cheiro subiu insuportável.

– O que é isso, jesus?

– Foi mal. Num dava mais pra segurar.

– Puta que pariu, Mutum – tu morreu, véi, tá apodrecendo. E esse foi silencioso.

– Num foi peido.

– É o quê? Num acredito que tu…

– Agora tô melhor, obrigado.

O berro de Tiriba foi ouvido até na capital e ele quase foi pra cima de Mutum. Gritou e xingou enquanto seu amigo gargalhava alto. Poderiam ficar assim por muito tempo, mas foram interrompidos por algo que acelerou seus corações e lhes congelou o sangue.

– Tu ouviu? – arriscou Mutum quase em sussurro.

– Hum hum. Que diabo é isso?

– Parece gato. E dos grandes.

– Como assim?

– Tu nunca foi ao circo, caralho?

– Isso é hora de lembrança de infância?

– Tô falando de leão, seu jumento. Daí pra cima.

– Tu quer me dizer…

– Isso, isso. É rugido de bicho perigoso.

– Aimeudeus… E agora, e agora?

– Eu diria que fudeu tudo…

– Porra, Mutum, é isso que tu tem pra me…

– Psiu, calaboca, animal.

– Tá aumentando. Ele tá mais perto. Nós vamo morrer!

– Porra, deixôpensá.

– Pensa logo, bora, bora.

– Ele deve ter farejado a gente. Só se…

Sem pensar duas vezes, Mutum foi até o local onde estava a buchada de bode transformada, encheu a mão e jogou na direção do local onde pensou que estava Tiriba. Acertou boa parte do amigo, que ia gritar de ódio, só que ouviu o comando em voz baixa.

– Se mela todo com isso e fica em silêncio.

– Nem fudendo!

– Já comecei. Vamo tentá confundir o bicho.

– Puta que pariu, Mutum, isso não…

– Bora, logo!

Besuntados e silenciosos e com a ajuda de uma pausa da chuva, escutaram os passos pesados da fera no piso superior. Estava a metros deles, sem dúvida. Controlaram ânsia de vômito e desejo de gritar. Escutaram a respiração pesada do animal e seus rugidos diminuindo. O barulho se afastou. Escaparam! Fedorentos, mas vivos. Esgotados, recostaram nas paredes e adormeceram. Quando despertaram, réstias de luz e nenhuma chuva. Havia amanhecido há pouco tempo. Perdurava o silêncio. Enfim se enxergavam, a pouco mais de três metros um do outro, entre escombros e bugigangas. Ficou claro que o piso podre cedeu com o peso deles e o acúmulo de água da chuva, pois o telhado já não existia naquele trecho da casa. Agora fariam uma escada improvisada para sair dali. Ainda ensaiavam os primeiros movimentos, quando uma sombra enorme quase ofuscou toda a luminosidade. Olharam juntos para cima. Nem deu tempo de saberem o que se abateu sobre eles.

Tribuna de Pedra Velha, dois dias depois:

“Cientistas ainda abismados com a estranha espécie de aracnídeo, vista e fotografada na Serra. O imenso animal, de procedência inexplicável, é uma mistura entre tarântula-golias, também chamada de aranha-golias-comedora-de-pássaros e Phrynarachne ceylonica, mais conhecida como aranha-caranguejo-de-esterco-de-pássaro, famosa por seu cheiro e aparência de fezes de pássaro”.

“Seguem desaparecidos Etelvino Teixeira, o Mutum, e Rigoberto Alves, o Tiriba. Pelos antecedentes, a polícia trabalha com a hipótese de queima de arquivo entre facções criminosas”.

“O ilustre empresário Serafim Antônio Lima da Silva anunciou ontem a construção de um novo laboratório para pesquisas sobre fauna e flora da Serra. É mais uma doação ao município”.

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