Vontade de morrer

“É verdade que a minha memória por muito tempo sofreu devido ao amor pela bebida. Mais de uma vez acordei ao lado de Johnson sem qualquer lembrança de mim ou dele e do que tinha me levado até ali, até qualquer lugar, na verdade de como eu nem sequer viera a nascer.”

Em 1851, o marinheiro americano McGlue acorda amarrado no porão do navio onde trabalha, acusado de matar Johnson, seu amigo e colega de trabalho. Bêbado e sofrendo de um traumatismo craniano, o marinheiro não tem memória do ocorrido e duvida da acusação. Enquanto o navio retorna ao porto de Salem, McGlue vai gradativamente relembrando a história da amizade com Johnson e os eventos da noite em que supostamente teria matado o amigo. Obscuro e atormentado, este livro se vale de uma prosa econômica e ritmada, que une a urgência da ficção curta à grandiosidade dos épicos.


Ottessa Moshfegh estreou em 2014 com McGlue, lançado no Brasil como Ressaca pela Todavia (trad. Fernanda Abreu). A narrativa avança por meio de lembranças fragmentadas, trauma craniano e vício, apresentando os degustadores de memória como “cortes negros na mente”, nas palavras de James Ley da Sydney Review of Books (acritica.net). Jim Ruland, do Los Angeles Times, destaca a capacidade de Moshfegh de reproduzir “com precisão exata o cheiro e a confusão” da mente embriagada . No Brasil, o Estadão observa que Moshfegh constrói uma obra “nada convencional”, sempre com humor ácido — traço que cruza toda sua produção literária (estadao.com.br).

Críticos internacionais também notam a ousadia da autora. O Los Angeles Review of Books qualificou o livro como “imediato, franco, implacável, violento e grotescamente belo” (publico.pt), enquanto Rivka Galchen, vencedora do Fence Modern Prize, o definiu como “um sextante da psique” . A Sydney Review of Books ressalta a ausência de explicações psicológicas convencionais, revelando uma “atmosfera rançosa e imagética” . Para a The Independent, a obra flerta com Edgar Allan Poe, Herman Melville e Cormac McCarthy, descrita como “curioso artefato barroco” . No Brasil, o Estadão acrescenta que a mistura de humor e sociopatia, recorrente em sua obra, volta em Ressaca, ampliando a percepção de Moshfegh como autora singular no panorama literário nacional (estadao.com.br).

Os outros livros de Moshfegh também são protagonizados por narradores não confiáveis, instáveis emocionalmente, com histórico de abuso de substâncias e à beira de um ataque de nervos. Em Meu Nome Era Eileen, lançado no Brasil pela Todavia, a narrativa acompanha Eileen, uma jovem que trabalha em um reformatório juvenil nos anos 60 e vive com um pai alcoólatra e paranoico. A descrição periodicidade da protagonista e os traços de sociopatia foram analisados pelo jornal Público, que destacou sua passagem de “monólogo íntimo a retrato de uma personagem neurótica e marcante”, com influências de Jim Thompson, Raymond Carver e Flannery O’Connor reddit.com+7publico.pt+7estadao.com.br+7. O Estadão, em entrevista com a autora, ressaltou o humor ácido como elemento central, resultante do contraste entre a estrutura de romance noir e uma protagonista que revela abertamente seus impulsos e aversões estadao.com.br.

Em Meu Ano de Descanso e Relaxamento, a narradora anônima — uma ex-gallerista rica de Manhattan — decide passar um ano dormindo sob prescrição de psicofármacos. O site Gama Revista observou que o romance discute alienação e autopreservação através da combinação de Valium, temazepam e drogas inventadas . Na revista Veja, Raquel Carneiro apontou a mistura de drama e humor ácido, afirmando que a obra “fala sobre o drama da saúde mental e o desejo da alienação em tempos de excesso de informação” veja.abril.com.br+1homolog.todavialivros.com.br+1. Já Morte em Suas Mãos, terceiro romance de Moshfegh, foi abordado pelo O Globo como uma inversão do policial tradicional, acompanhando Vesta, viúva que encontra um bilhete enigmático e inicia uma investigação cuja culpa é ambígua e sobrevida permeada por desespero e alívio pt.wikipedia.org+4oglobo.globo.com+4www1.folha.uol.com.br+4.

PROPOSTA

O seu narrador está com uma ressaca homérica, praticamente uma dengue existencial.

Mas não é por isso que você vai usar lugares comuns como estes acima (ou os que Moshfegh usa, como “minha cabeça gira e vejo estrelas”: fuja desses clichês.

Bem, mas a ressaca não é o motor de sua história. Esta é a condição de seu protagonista. Ele está de ressaca, talvez ainda sob efeito de alguma substância, e com a memória bem avariada.

Seu personagem sabe que aconteceu alguma coisa chocante, mas não se lembra o que foi. Enquanto isso, precisa lidar com a ressaca – e com sua rotina.

Para começar: de que exatamente seu personagem está de ressaca? Álcool, cocaína, sexo, antidepressivo, opioide, açúcar, café… alguma outra substância? Não necessariamente ele precisa ter bebido álcool antes de ficar com ressaca.

Ressaca é uma resposta do corpo à retirada de uma substância que alterou seu equilíbrio químico. Embora o álcool seja o exemplo mais conhecido, muitas outras substâncias, lícitas ou ilícitas, medicamentosas ou recreativas, podem induzir sintomas de abstinência ou de “pós-efeito” que são bastante semelhantes ao mal-estar de uma ressaca. Pesquise sobre o assunto.

Bem, mas e daí? Como ele reage a essa abstinência? Ele tenta cortar a ressaca usando de novo a substância? Ou usa algum outro tipo de remédio para se curar?

Descreva suas reações físicas sem usar lugares comuns enquanto conta como seu personagem tenta se lembrar do que fez ontem.

Mas de novo, a ressaca não deve ser o eixo da narrativa. Veja que acima o eixo é o narrador descobrir se matou ou não seu melhor amigo, Johnson, enquanto estava trabalhando num navio clandestino; suas memórias fragmentadas são interrompidas por novos acontecimentos que rolam durante a viagem que ele faz rumo a Salem, onde será preso.

Do mesmo jeito, seu personagem se volta para o passado tentando lembrar o que aconteceu, mas precisa enfrentar sua rotina, e talvez o futuro lhe reserva uma nova surpresa. Não deixe seu personagem sozinho durante essa ressaca: para piorar as coisas, ele precisa lidar com outras pessoas, com outras demandas. Não dá pra ficar na cama em posição fetal. Bote seu personagem pra andar!

Ou seja, seu personagem está bambo entre o passado e o futuro, e com uma imensa vontade de morrer, e sendo obrigado a seguir em frente. Podemos confiar nele?

Escreva na primeira pessoa, por volta de uns 12 mil caracteres.

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