Úrsula é cega, mas não nascera assim. Em seus sonhos, podem haver imagens, vozes, presenças, certezas e sentimentos. Um pouco como todo sonho, incluindo o seu.
Sonha que é criança. Está na casa dos avós em Caraguá, um lugar recorrente em seus sonhos, embora cada vez mais opaco com o passar dos anos. A casa está deslocada, fora do lugar. Longe da rua de paralelepípedos hexagonais, está perto da praia, em meio a areia. O vento sacode as folhas das palmeiras e Úrsula escuta esse chiado sonolento e pacífico, mas não sabe onde estão as árvores.
-Seu vô mandou tirar, as castanheiras atraem morcegos.
E ela achou estranho porque seu avô gosta de mato, não gosta de jardins, canteiros, a natureza domada. O avô uma vez apontou para as telhas na varanda onde havia uma casa de marimbondos, “É só não mexer, eles não vão te fazer mal, eles têm tanto direito de estar aqui quanto vocês”.
Úrsula dá a mão para a Vó e se sabe que vão para beira-mar pegar para um bote para a praia da Figueira. Pergunta se não seria melhor irem de fusca, onde iria no buraco do fundo junto com sua irmã e iriam brincando com suas bonecas que piscavam olhos azuis de cílios longos.
-Sua irmã não pode pegar carro, senão pode ter acidente e ela morrer.
E era verdade, Úrsula sabia. Virou-se para trás e na varanda da casa viu a irmã, com a idade errada, uns vinte anos, ainda de uma jaqueta jeans surrada cheia de bottons de bandas, desde A de Anarquia até DK de Dead Kennedys, o cabelo curto Joãozinho que o resto da família detestava. Apesar da distância, ela pode ver tudo isso. A irmã e os avós ficaram na varanda e acenavam despedidas enquanto Úrsula ia em direção ao bote na beira-mar e havia crianças, meninos e meninas junto aos barcos e as velas e lençóis brancos sob o sol secando em varais na luz de meio-dia, os corpos nus um pouco líquidos como se tivessem tornado um pouco do que é a água. As imagens eram Joaquin Sorella.
De dentro do barco, Úrsula é mais adolescente que criança. Está com o tio e os primos, moleques mais velhos e canalhas, que se aproveitaram delas, você me bate uma e eu bato uma para você. Mas isso a envergonha tanto que não se menciona, era só a lembrança dessa coisa ruim que lhe provoca ojeriza. Úrsula tem que engolir, como todos precisamos engolir um parente que não se gosta. Estão os adultos lá, a família endinheirada do tio. Os primos que iam sempre para Disneylândia como se fosse apenas descer a Serra. Contavam muitas histórias de lá e eram sempre histórias de objetos e artefatos e os Estados Unidos se fazia uma quase Bagdá das mil e uma noites, onde tudo era possível e sempre havia maravilhas vindas de lá, todo tipo de muamba, brinquedos, naves Star Wars, videocassetes, filmadoras e uma câmera Polaroid.
Úrsula não se lembrava bem o que era uma Polaroid. O primo mostra o objeto, uma espécie de cubo plástico com cantos arredondados com pequenas janelas e uma abertura vertical, feito boca, por onde deveria escorrer a fotografia. Uma voz masculina explica:
-Você tira a foto e a imagem sai daqui direto para sua cabeça.
Apesar de terem saído sob o sol a pino, agora um nevoeiro descia sobre o mar. Úrsula voltou-se para a faixa litorânea de Caraguá, não conseguia enxergar. O primo então tira uma foto do continente e ela consegue enxergar a praia, as castanheiras, os poucos prédios e a serra, tudo em cores imprecisas, feito rabisco de giz ou de lápis, um pouco como as Venezas de Monet sob diferentes crepúsculos. Ela sabia que as cores não eram as mesmas, sabia que era tudo bonito, mas não sabia mais nomeá-las.

A neblina cobriu tudo e Úrsula tinha dúvidas se estavam indo mesmo a Praia da Figueira, ela pergunta aos demais passageiros se alguém consegue ver. A voz masculina dizia que sim, era só apontar a máquina para o vazio e realmente uma imagem foi para sua cabeça. Enquanto ela ouvia o motor do barco pipocando atrás de si, viu figuras simples, desequilibradas. Úrsula supôs ser o plâncton do mar capturado pelas lentes, pois ela nunca entendeu de arte, a curiosidade surgiu depois de sua cegueira, como algo que estaria para sempre perdido. Pois se ela soubesse, compararia as imagens com Miró, Klee, Calder: algo esquisito, colorido, bobo e meio frágil.

Úrsula pediu que tirassem outra foto (Era mesmo a voz do primo? Continuavam no barco?) e dessa vez escutou um raspar, como o de uma vassoura de piaçava contra um chão molhado de cimento, uma escova que mais machuca que limpa e ficou óbvio que a Polaroid já não funcionava muito bem, afinal era muito antiga, esses barulhos eram seus mecanismos rangendo.
-Melhor desistir, essa câmera já não funciona direito, melhor arrumar outra coisa para fazer.
Úrsula reparou com bastante atraso, que essa voz que entrecortava seu sonho havia sido desde sempre a voz de Garcia, seu marido. Ela o conheceu depois da cegueira e por isso, sua presença se dava apenas dessa forma, por voz e pela sensação nos dedos de sobrancelhas espessas.
Por que ele estava ali? Úrsula fica incomodada, percebe que ele tenta reconduzi-la, desviá-la. Talvez tenha sido ele que deslocou a casa dos avós para a praia. Não tinha nada melhor para fazer? Garcia tinha que estar procurando um emprego de verdade, usar o diploma que tem, e não ficar no seu pé, manipulá-la para que fizesse concurso, usar a cota da cegueira.

Dessa vez a Polaroid mandou uma imagem sem figuras claras, sem plânctons equilibristas, um quadro ainda mais abstrato que o anterior e Úrsula compreendeu que cada fotografia faria que a máquina se deteriorasse mais e mais e a tela diante de si poderia ser Turner ou Klein, uma névoa ou uma parede, mas no meio de sua superfície havia cortes retilíneos, três cortes como reticências.
-E não adianta você mencionar Lucio Fontana, não tem como saber quem ele é, nem os demais, você teria que googlear, mas não é assim que se sonha, uma colagem de nomes e de referências. Você tem que ir de A para B, isso não passa de um conto ruim.

Úrsula ignora a sugestão do marido pois ele não quer que siga adiante. Tateia a superfície grosseira da tela até as fendas e tenta não escutar o esmeril e o ronco da serra, nem sentir o cheiro de cal, amônia, queimado e argamassa. Sente cheiro de ferro, mas não sabe se é sangue ou se é uma corrente. Suspeita que ele também está por trás do defeito na Polaroid e desses ruídos e cheiros e da trilha sonora de The Exploited. Prende a respiração como se estivesse mergulhando e seus dedos se vestem no interior da reentrância. A mão dela entra em um buraco de formigas bravas que estavam ali desde sempre para impedi-la. Úrsula tenta não esmagar, são como os marimbondos, tem todo direito de estarem vivos. Continua se enfiando ali, se arrastando naquele poço, naquela obra até pressentir os caroços em braile no interior dos cortes. Embora seja impossível de se ler nos sonhos, Úrsula compreende perfeitamente o que está escrito: Garcia está te traindo.
E então ela acorda.

Esse conto se relaciona com: Ficamos com o Siamês e Ascensão e Queda das Tatuagens
