A gaveta se abriu e seus olhos me encontraram. Me pegou com cuidado e, de frente para o espelho, me vestiu como se eu fosse um par de óculos. Li sua mente e enxerguei uma franja curta para seus cabelos longos. Encostou a porta do banheiro devagar e com algum cuidado, posicionou meus anéis nos seus dedos finos. A outra mão trouxe a mecha de cabelo cobrindo olhos e nariz. Firmou o indicador esquerdo perto das sobrancelhas, apontou o queixo pra cima e foi levando minhas lâminas da direita para a esquerda. Ajudei dando um peso um pouco mais pra baixo, uma tentativa de avisar que não ficaria bom. Mas o desejo da menina de ter uma franja acima do meio da testa era mais forte que eu. Os cabelos caíram na pia, a linha de cabelos ficou bem torta. Ela tentou arrumar. O lado esquerdo estava picando o canto do olho. Resultado: uma coisa que ficou entre o encaracolado e o espetado. Tombo e ruído frio. Ela me derrubou dentro na pia e saiu correndo. Voltou com um boné e me deixou de boca aberta dentro da pia. Tentei me mover, escorregava tanto no eixo, como na curva da cuba oval. Me contentei em ser encontrada pela Dedé. Se a caçula tiver sorte, a outra menina me acha e avisa que fiquei esquecida. O fato é que fui tirada da pia ouvindo xingos. Fui limpa com raiva, a pia também. Quase espirrei com os cabelos finos que sobraram nas lâminas. Os passos fortes da Dedé chacoalhavam minha estrutura. Me largou na mesinha do telefone e arrancou o boné da menina. Viu a franja mastigada, juro que não fui eu, falei, mas ela não ouviu. Ninguém acreditaria que a franja estaria bem pior sem a minha ajuda. Fui para a gaveta e mesmo assim continuei ouvindo a outra menina rir e fazendo musiquinha para irritar a irmã com a franja torta. A pequena chorou e não ouvi mais nada além do choro. A gaveta se abriu e a Dedé tentou emendar. Não tinha muito o que fazer, era preciso esperar a franja crescer.
Na véspera do feriado, saí da gaveta direto para a necessaire. Dois carreteis começados, agulhas espetadas nos fios. Estava saindo de casa, mas não era todo feriado que saia da sacola. A menina nunca mais tirava o boné. Era dia de sacodir dentro do dentro das coisas. E era um tal de uma agulhinha furar meu olho vazio. Tesoura vê melhor quando está entre os dedos de alguém. Apesar de velha, de ser comprada junto com a máquina de costura, nunca fui uma tesoura de costureira. Sou uma tesoura de uso de casa, de certa maneira, sou de todo mundo, mesmo que uma pessoa diga que sou dela. É que a avó da casa manda mais que todo mundo, mesmo assim, deixa fazer de tudo.
A mais velha me catou e resolveu cortar uma embalagem de pipoca. Achei que ficaria um pouco pela cozinha, o que não aconteceu. A viagem serviu só para sacodir, cortar um pacote de milho e voltar para São Paulo. Nem ouvi o mar. Voltei rápido para a gaveta. Poderia ter sido melhor? Poderia. Foi nesse tempo, entre a euforia e a depressão, que passei a fantasiar uma vida mais minha, quem sabe fora da família. Nunca soube contar os dias. Só percebia que o tempo passou demais quando a Dedé me levava para amolar feira. Era o dia de amolar, dia de me cansar. O som é pior que som de dentista. Era isso que ouvi uma outra tesoura dizer na fila. Nos dias após, eu era mais solicitada. Teve uma época que ainda eu tinha alguma cor, mas logo fui ficando escura. Cuidavam para tirar a ferrugem quando as minhas lâminas empacavam.
Quando a caçula completou 15 anos, fizeram festa. Ouvi as meninas e as primas falando que queriam a tesoura. Uma delas disse que por ser a mais velha, tinha direitos. Ia pedir para a Dedé deixar escrito no testamento. Uma delas disse que me esconderia, a outra riu e saíram. Foi desse dia em diante que resolvi que traçaria uma nova vida. Passei a treinar movimentos dentro da gaveta. Aproveitava o mover da gaveta para afastar e aproximar as lâminas. Aprendi a cortar coisas que estavam por perto. Treinei com a velha almofadinha de alfinetes, que deus a tenha.
