Não entendo mais o que leio. Foi o vinho, mas antes do vinho teve a dipirona e antes da dipirona, o antialérgico e o livro. O livro. Foi o livro. Estava na mesa dos lançamentos ao lado das edições para colorir. Não vi os ácaros porque ácaros não se veem a olho nu, nem vivem em publicações recém-saídas da gráfica. Não posso atribuir a culpa aos micro bichinhos. Quem sabe à tinta, mas a impressão era de boa qualidade em papel pólen bold. Isso eu li na última página e consegui entender.
Começou com um espirro seguido por outros. O nariz escorreu e os olhos lacrimejaram. A criança ao lado, acompanhada da mãe, se comoveu. Largou o livrinho que folheava e me estendeu um pacote de lencinhos que tirou da jaqueta com capuz. A mãe aprovou o gesto. Achei bonito, agradeci e expliquei sobre a minha rinite ao mesmo tempo em que aproveitava as lágrimas para chorar de verdade. Estava desapontada. Nada do que lia fazia sentido. Quando abri o pacote e assoei o nariz, a mãe e a criança seguiram para a banca à direita. Deve ter sido o ruído das narinas que provocou nos dois uma espécie de repulsa.
Achei bom que se afastassem. Precisava, a partir da capa, retomar a leitura sem interferências. Antes de receber os lenços, logo que as lágrimas alcançaram a coriza e se misturaram nas bochechas, tinha notado a curiosidade da mãe e do menino. Queria muito entender a leitura e parar de chorar. Fiz tudo com movimentos lentos. Um tanto pelo súbito mal estar e outro tanto pela necessidade absoluta de concentração. Queria muito entender a leitura.
O título era inteligível, mas a palavra única solta na capa provocou vertigem. Coisa de gosto, talvez. Substantivos abstratos com prefixos de negação já foram muito abusados nas poesias. Neste momento, além dos espirros, começou ali um esboço de náusea que cresceu na primeira página, uma espécie de prefácio não identificado como prefácio. Precisei reler três vezes, a tontura e o enjoo balançavam as frases.
No início da quarta tentativa, constatei que a indisposição decorria da total ou quase total incompreensão do texto. Ainda considerei que a burrice instantânea pudesse ser atribuída à alergia e busquei um remédio na bolsa. Antialérgicos costumam provocar sonolência, mas este não. A bula diz que este não. Mesmo assim, fui até o café dentro da loja para tomar o comprimido com um espresso curto e tentar prevenir uma possível letargia.
Levei o livro comigo. Ninguém me abordava. Acho mesmo que só a criança e a mãe tinham me notado dentro da loja. Foi bom me sentar para ler sem nenhum incômodo, sem um livreiro jovem me abordando e sem precisar disfarçar meu desentendimento do texto. A velhice nos torna invisíveis. Talvez pelo esforço, a cabeça doía um pouco. O livro seria assim tão surpreendente ou surpreendente era a minha inépcia?
O café começava a queimar o estômago e a dorzinha de cabeça crescia. Eram três da tarde e precisava de alguma coisa para comer. O almoço tinha sido com as sobras da pizza da noite. Não andava mesmo me alimentando direito. Saí da mesa para buscar um pão de queijo. Um não, dois e uma fatia de bolo de laranja. Tinha fome e tinha náuseas. Um buraco ácido no estômago. Na volta, na mesa ao lado, um homem, diante de um café coado, esticava os braços e apertava os olhos lendo o mesmo livro que eu.
Ao me sentar, ele sorriu e apontou a coincidência. Eu tinha deixado o livro ao lado da xícara vazia. Sorri de volta, mordi o pão e voltei à leitura. Só o gosto do meia cura fazia sentido. O lançamento tinha capítulos curtos, fragmentados e palavrosos que escorregavam de um tema quase obscuro. Mastigava o pão de queijo e tentava evitar o choro. Era eu a mais burra das burras.
Parei de ler e curvada sobre a mesa, com o canto dos olhos passei a observar o homem interessado no mesmo lançamento literário. Agora, ele estava com uns óculos de armação de madeira e já não afastava o livro dos olhos. Tinha pintas nas mãos e ria a cada página que folheava pela canto superior, com o cuidado de quem vai devolver o produto intacto e sem comprar.
Também queria rir, mas meu choro vinha fácil e sem sinais de rinite. Não era alergia. A manifestação no corpo era só a mais pura tristeza de quem tinha se tornado burra.
Ele sim, o homem ao lado compreendia o texto e compreender o texto era rir como ele ria. O livro tinha graça e eu voltei a chorar. Além de desinteligente eu agora era também uma pessoa mal humorada. A dor na cabeça passou a vir em ondas que quebravam nos olhos. Mais lágrimas e mais coriza. Estava no último lencinho de papel do pacote e precisei apelar para os guardanapos. O homem ao lado continuava a rir. Não era de mim, nem do ruído dos assopros no papel. Era do livro, mas o vinho ajudava. Nos dias de inverno, o Café vendia vinhos em taça e antes de pedir a minha, pedi uma água com gás e tomei a dipirona. A dor ia passar e eu ia tomar o vinho e entender o livro como o homem da mesa ao lado.
Neste instante, ele parecia sério e ao me ver com a bebida levantou a taça e me perguntou se eu estava gostando da leitura. Respondi com o mesmo gesto e disse que sim antes de dar um gole que me queimou o estômago. “Não esqueça de ler o posfácio”, ele me disse.
As palavras foram bem-vindas eu menti que já estava lá. Nada como um posfácio para confirmar o já lido ou explicar o difícil. Era um livrinho breve e complicado. Pulei para o final e quando terminei a leitura, o homem já tinha devolvido seu exemplar à mesa dos lançamentos. Recostado na cadeira com as mãos cruzadas atrás da cabeça ele me aguardava para aquele momento. “E então? O posfácio ajudou? Entendeu alguma coisa?”
“Agora, menos ainda.” Não tive como mentir.
“Que bom saber disso”, ele já estava de pé ao meu lado e respondeu gargalhando.
Levantei da mesa e vomitei minha burrice sobre o pequeno livro. O jorro tinha a cor do vinho.
