@brontops
Para quem trabalha na Seção de Achados e Perdidos da Rodoviária do Tietê, existe um catálogo taxonômico que classifica todo tipo de objeto para facilitar ao Seu Esaú e ao seu substituto, Seu Seixas, a localizar os itens em um infinito de estantes e prateleiras. Pois o esquecimento não possui preconceitos e as pessoas perderiam elefantes, se eles não incomodassem muita gente.
Por exemplo, o passageiro Wesleyson, 33, vindo de Pipoca Doce (Goiás) perdeu um elefante. Mas era um raro elefante anão maltês que escapulira de sua caixa de transporte. Segundo explicou ao Seu Esaú, sua ideia era de criar elefantes anões em cativeiro para a produção de palitos de marfim para uso nas festas de cantores sertanejos de sua região. Não havia dado certo, pois Wesleyson se afeiçoara ao bicho e porque os chineses quebraram o mercado de marfim com o desenvolvimento de marfim artificial.
Mas havia quem não pensasse em dinheiro. Dona Vitorina, 61, nascida em Ziquizira (Bahia), procurava sua mãe. Era uma manequim de vitrine, peruca loira, de plástico fosco, sem uma das pernas. Seu Seixas se comoveu com o reencontro de dona Vitorina com a mãe reborn até o instante em que ela lhe confidenciou que pretendia deixá-la numa casa de repouso, pois a velha não cuidava da diabetes e já andava meio demente.
Nem todos se deixavam abraçar pela demência. A viajante de nome social Paquita Sorvetão, 43, batizada em Hermética (Rio Grande do Sul) buscava uns óculos. Seu Esaú e seu Seixas carregaram juntos uma pesada caixa de papelão onde centenas de óculos repousavam feito clipes para que Paquita procurasse até pescar um de lentes azuis que tornavam tudo azul. “Cansei de ver o mundo como é”, explicou e saiu rebolante com a confiança dos predadores.
Uns saem cheios de certezas, outros só trazem mistérios. Como Gisleine, 25, registrada em Morro Cabeço no Tempo (Piauí). Chegou vestida de personagem de anime, com um laço enorme e rosa na cabeça. Procurava um caderno com Pikachu na capa. Encontrou um, folheou, leu uma página, arrancou, escreveu 23 linhas e devolveu, dizendo que não era aquele. Onze dias depois, apareceu Rutger, 19 (Winden, Alemanha). Tinha fedor de turista: camisa colorida manga curta de botão, bermudas, mochila, sandália e meias cinzas. Procurava um caderno com Pikachu na capa. Leu aquela página, arrancou, escreveu 23 linhas e devolveu, dizendo que não era aquele. Nunca mais apareceu alguém buscando caderno com capa de Pikachu.
Seu Esaú, 60, e seu Seixas, 55, também tinham esperanças. Mas preferiam ver São Paulo como ela é: bruta, imunda, com obelisco, maritacas e bem-te-vis. Desejavam voltar para a sua terra natal, cada um para a sua, Esaú para a cidade de Sôco (Rio de Janeiro), Seixas para Moleton (Paraná). Lá imaginavam-se sentados em cadeiras brancas de plástico na calçada diante de casa. Ficariam lá até passar o calor do começo da noite e veriam os esconde-escondes e pega-pegas das crianças pela pracinha.
Mas queriam fazer isso de mãos dadas. E eles não sabiam quais lugares eram os melhores para isso: numa cidade pequena ou numa grande. Em qual delas haveria o menor risco de marteladas? Ali, na muvuca do rebanho, sempre pode aparecer uma vítima melhor.
E Esaú nunca quis conhecer Moleton e nem Seixas pretendeu comprar passagem até Sôco. Se fosse para partir dali e também partir a amizade de um pelo outro, melhor seguir naquela vida rasa. E esperar Gislaine voltar atrás de um caderno de Pikachu.
Portanto, se algum dia você parar no balcão da Seção de Achados e Perdidos na Rodoviária do Tietê e testemunhar as estantes sacudindo em um ritmo ondulatório constante e suado, seria conveniente voltar em alguns minutos. Pois no balanço dos corpos um barômetro náutico pode trocar de lugar com uma perna de manequim. A verdade é que de pouco adianta um catálogo taxonômico se os objetos podem se achar perdidos em prateleiras erradas graças às paixões humanas.
