o que Gaio sabe

Todas as coisas que Gaio sabe é porque a velha contou.

Uma coisa que ele sabe: seu nome. Ela entrava na cozinha todos os dias bem cedo, quase nem tinha amanhecido, vestindo um roupão por cima do pijama, vinha da sala arrastando as chinelinhas acolchoadas de usar em casa, xique-xique no assoalho de madeira, os cabelos azulados presos num coque, e quando chegava perto da gaiola dizia Gaio, Gaio, vamos tomar café, Gaio, cadê o açúcar, querido, e isso foi uma das primeiras coisas que ele aprendeu a repetir, Gaio, Gaio, cadê o açúcar, porque quando ele disse Gaio pela primeira vez, tentando imitar o som exato das palavras dela, percebeu como ela ficou tão feliz, como pulou e dançarolou em volta da grande gaiola, e os dois então diziam juntos Gaio, cadê, Gaio, o açúcar, ou melhor, ela dizia e Gaio repetia, essa ordem nunca se alterou, ela radiante de comprovar que afinal era verdade, os papagaios sabem mesmo falar, ele por sua vez alegre de ter alguém como ela bem ali, do lado de fora da sua gaiola, pra primeiro dizer as coisas que ele aprenderia a repetir. Mesmo que ela nunca tenha dado café pra ele beber, fosse com açúcar ou sem.

Uma coisa que ele não sabe: se o pano que atiraram por sobre sua gaiola e que deixou tudo escuro antes de o levarem pra um outro lugar, que ele não sabe qual é nem onde fica, percebe apenas que tiraram ele da casa onde ele viveu por muitos anos (quarenta, e isso ele sabe), se esse manto de escuridão é uma estopa, um lençol, um edredom ou um mata-febre. Não tem ninguém ali pra contar pra ele.

Gaio sabe que tem quarenta anos porque a velha, quando ainda era apenas uma mulher, o ensinou a cantar o parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos (quarenta até agora, se ele não tivesse se perdido nas contas) anos de vida. Ela sempre contava, com empolgação, quantos anos ele tinha, trinta e cinco a menos do que ela. E então eles comemoravam juntos, porque ele também foi um presente de aniversário que ela ganhou (junto com a gaiola modelo viveiro de três andares) numa época em que ainda havia quem se lembrasse dela, de seus aniversários, e quem sabe até fizesse uma visita e trouxesse um presente.

Ele não sabe quantos anos vive em média um papagaio. Embaixo do pano, ele sabe que ainda tem alpiste, mas almeirão já não tem. Alguém precisa limpar o chão da gaiola, trocar o jornal, abastecer o bebedouro com água limpa.

Quando ainda havia visitas, ela sempre pedia pra que ele cantasse o parabéns pra você, que cantasse uma música em japonês. Ele ficava bem quietinho, com os olhos esbugalhados, como quem dissesse que aquilo não adiantaria nada (mas isso ele não tinha aprendido a dizer), ele só ficava quieto e olhava pra ela até que ela começasse a cantar o parabéns pra você, ou a música em japonês, bem baixinho, só o começo, e aí ele continuava. Nem sempre a visita ficava impressionada, mas a mulher sim, sempre. Quando ainda era uma jovem e mesmo depois quando já era uma velha, sempre.

Gaio sabe a senha do cofre. Guardou os números na garganta, três, oito, zero, sete, de tanto ouvir ela dizer, sempre que ia mexer nos documentos, nas escrituras do antigo sítio e da casa, pra abrir a tranca ela dizia cada número em voz alta. Ela sabia que ele sabia, porque já tinha ouvido ele repetir, mas não parecia muito preocupada. O filho dela, um dia antes de tudo ficar escuro, perguntou a combinação, sacudiu a gaiola. Era a primeira vez que alguém além da velha falava com Gaio. Ele fez como quando havia visita, abriu bem os olhos e ficou quieto, alerta. Gaio não sabe se o cofre ainda existe, mas sabe que não deve dizer a senha, três, oito, zero, sete, não importa o que aconteça, não vai dizer.

Embaixo do pano, Gaio conhece a escuridão e o silêncio. Antes, a televisão sempre ligada no volume alto, o ronco do ar-condicionado, as chinelas. Agora, no lugar novo, quase não há barulho. Passos, às vezes, e uma colher que raspa num prato. Ninguém fala com ele. Ninguém diz Gaio, cadê o açúcar, Gaio, querido. Ninguém canta em japonês. Quando o silêncio toma conta, repete as palavras que sabe, uma por uma, como se fossem preces, sementes que pudessem brotar em resposta. A voz dele é estranha ali debaixo, no ar parado. Não há eco, nem riso, ninguém diz muito bem, querido, ninguém dançarola ao redor da gaiola.

Gaio não sabe o que é um hospício. Não sabe que a velha está num lugar de paredes brancas, remédios, ódio e desinfetante, onde talvez também repita palavras sem resposta. Mas sabe que ela sentiu medo do filho, naquele dia em que ele chegou furioso, porque o medo tem um cheiro doce e nauseabundo, que ele não conhecia e que fez com que ele, Gaio, batesse as asas contra as grades até sangrar.

Agora de vez em quando o filho ergue o pano. Espia Gaio com uma expressão séria, mas impenetrável. Não pergunta a senha nem nada mais. Às vezes fuma um cigarro antes de cobrir novamente a gaiola, passa a mão nos cabelos com goma. No canto em que Gaio está, quase não há nada pra ver, Gaio agora sabe. Um armário, uma máquina de lavar roupas. O filho joga alpiste no comedouro, enche o bebedouro com uma água terrível, com gosto forte que Gaio não sabe ser de cloro. O filho é um homem triste e feio. Espera que ele diga algo, qualquer coisa, mas, seja o que for, Gaio não vai repetir.

Gaio não sabe como estão agora suas penas – se ainda são bonitas, se estão caindo. Se ainda são verdes ou se mudaram de cor. Ele arranca uma com o bico pra conferir, da próxima vez que erguerem o pano.

Um dia o filho da mulher traz um objeto que Gaio não sabe o que é, um rádio. Coloca perto da gaiola, em cima da máquina de lavar, Gaio intui pela distância. Ouve então uma voz que não é a dela, cantando uma música que ele não conhece. Depois surgem outras vozes. E então, entre uma canção e outra, alguém canta parabéns pra você, nessa data querida.

Gaio eriça as penas. Abre o bico.

E repete.

O filho está logo ali, atrás do pano, olhando na direção da gaiola, mas Gaio não sabe. Canta sem saber se alguém escuta, se a velha em algum lugar pode ouvir a sua voz, se pode ouvir qualquer outra coisa. Mas a canção segue até o fim. No fim, há silêncio de novo.

O filho não vai embora. Uma voz rouca, que Gaio nunca tinha ouvido, diz cadê o açúcar, Gaio, querido. Ele primeiro não responde. A escuridão e o silêncio tomam conta. Sabe que não é a velha. Que o café nunca virá.

Depois ele repete. Gaio, vamos tomar café, Gaio, cadê o açúcar.

E, pela primeira vez desde que o pano cobriu sua gaiola, alguém ri.

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