O último passo

Acordo, o zumbido é tão alto que tenho medo de abrir os olhos. Quando abro, as pálpebras estalam de secura e vejo algo no chão. Fecho os olhos de novo, quero afundar no escuro. Durmo talvez uns cinco minutos e acordo com duas pontadas dentro da cabeça. Uma neblina se interpõe diante do objeto metálico rente à mesa. Deve ser uma garrafa que rolou no meio da noite, todo mundo que toma uma cerveja sabe do poder das coisas sem vida. Pelo tamanho pode ser um cantil. Embora eu não tenha um cantil desde que me mudei pra pensão. A curiosidade me anima um pouco a levantar, mas meu corpo é um fardo. Estou paralítico, cego, surdo, sou um saco de bosta. Não vou abrir os olhos.
Acordo e tento vomitar ali mesmo, rolando o corpo de lado pra não acertar a cama. Enfio o dedo na garganta, mas é como se eu fosse puro éter, dormência total. A luz entra através da cortina puída e ilumina o chão. Um gravador, como os de anos atrás. Viviam botando na minha cara na beira do campo, na porta do ônibus, no hotel. Agora me perseguem até aqui, entram no meu quarto no meio do sono. Veio do além? Minha cabeça é um coágulo que pulsa. Não está tudo certo com esse gravador, parece machucado, é o que penso, e posso ter cochilado durante esse pensamento, porque agora estou caído no chão ao lado dele, o objeto metálico, que sangra.

Persiste uma imagem solta, sem nexo: ele tirando o gravador do bolso, como alguém que finalmente conta uma notícia ruim depois de uma longa introdução. Chegou no meio da tarde, enquanto eu cochilava na recepção e me ofereceu um café. Eu já tinha tomado café, é justamente por isso que fico na recepção à tarde, bem do lado da garrafa de café. Mas aceitei, ele tinha dois copos, comprou na rua mas não conseguiu tomar os dois. Era um fã.
– Vi o time de 95. Aquilo era futebol.
– Devia ser. Não me lembro de nada.
Claro que me lembro. Mas aprendi a me fazer de esquecido porque sei onde essa conversa chega.
– O que importa é que o povo lembra…
Platitudes. Tomei o café e me levantei pra voltar pro quarto. Pelos meus cálculos eu ainda tinha metade ou no mínimo um terço de uma garrafa debaixo da cama, onde eu sabia que eles nunca limpavam. Enquanto entrava no quarto, vi de relance sua cabeça lá embaixo, do lado do balcão da recepção, olhando para o andar de cima. Entrei rápido e busquei a garrafa, mas o estrago estava feito.

Antes de sentar na cama e dar o primeiro gole, as imagens surgiram na minha frente, projetadas na parede. O placar ainda está zero a zero. Tento me concentrar no primeiro arco, quando subo pela ponta direita e acerto um cruzamento na medida pro Manga. Cinco minutos depois desço novamente por ali, mas agora driblo três até chegar na área e bater na saída do goleiro. Há o delírio, sou o causador disso, da histeria. Falta mais um pro o título e temos todo o segundo tempo. Já na volta do intervalo nosso ponta esquerda sofre um pênalti. Vou bater. Depois é só administrar. Sei que o goleiro vai cair se eu ameaçar, ele nunca espera até o último passo. Por isso vou bater no meio do gol. Não, não, não vou só bater, vou cavar. E a bola vai entrar devagar, quicando antes da linha, e na foto que amanhã estampará os jornais eu estou correndo na direção da arquibancada, talvez eu beijando o escudo, talvez pondo as mãos nas orelhas, vou decidir na hora o que mais me apetecer, e enquanto isso a bola, ainda entrando, vai olhar de soslaio pro goleiro – uma jaca madura caindo pra um dos lados. Então começo a trotar. Cinco passos depois, falta mais um, o último, aquele que vai enganá-lo, porque é mais curto que os outros, não deveria existir num movimento natural. Ele não cai, não vai cair, vai esperar. Percebo isso só no final, quando é possível perceber tudo que vai acontecer, mas não impedir, a ordem para o corpo já foi dada. Cavo, o peito do pé cortando a bola como uma faca amolada. Ela sai girando, uma órbita perfeita, a melhor cavada que já existiu. Debaixo da trave, os dois pés fincados no campo, o goleiro encaixa a bola no peito, esmagando por longos segundos no tórax, inofensiva. Depois é como se tivessem roubado o tempo, esvaziado de uma vez. O placar não mexe mais. Termina o jogo e o campeonato. Pra eles. Aqui estou, trotando até a marca da cal, certo de que agora vou descer o pé no meio dela e ela vai parar na bochecha da rede.


Na manhã seguinte, ou no início da tarde, ele me parou no corredor com uma réplica da camisa daquele ano e uma caneta já destampada. A camisa não tinha meu nome, mas tinha o número 7, meu número, ele tinha mandado grafar o número por minha causa.

– Veja bem, já faz muito tempo. Eu nem acompanho mais futebol.

– Se você puder só assinar o nome. Meu pai também era seu fã. Me deu a camisa por causa do time de 95. Queria botar seu nome no meu irmão, mas minha mãe não deixou.

– Esperta, a sua mãe.

– Vou dar a camisa pro meu pai, de você ele ainda se lembra, com certeza.

– O velho é bem velho, hein?

– Nem tanto, só não lembra de coisa recente. A escalação daquele ano ele sabe até hoje, do um ao onze.

Paulo Victor, Bosco, Julinho, Osvaldir e Alípio; Lobo, Luis Carlos e Naldo; Eu, Manga e Isaías. Foda-se. O rosto era magro e oleoso, com uma barba rala, o que lhe dava um aspecto de mais velho, mas não devia passar dos vinte e cinco. Não fossem as tatuagens cobrindo os braços, lembraria o Caio. Se bem que agora ele pode ter tatuagens também, pode ser um papel de parede ambulante.

– E está fazendo o que aqui, que não está com ele?

– Estou de passagem. Vim para ficar com uma mulher, e funcionou por dois dias. Ainda tenho uma semana até a volta.

Decidi que era melhor resumir. Peguei a caneta e fiz um garrancho perto do escudo, algo que lembrava meu nome, que já não uso. Desci pra recepção e fiquei lá o resto da tarde, entre cochilos e goles de café. Fiz o mesmo no dia seguinte, do quarto à recepção, mas fui interrompido por um barulho no elevador. Era ele. Da poltrona eu conseguia vê-lo forçando a grade, que emperrava todo dia. Pensei: não vou levantar. Deu uns três solavancos, depois desistiu e olhou de lado, talvez procurando algum botão de emergência. Mais uns puxões na grade e a recepcionista apareceu e o ajudou a sair. Vestia a camisa que eu tinha autografado no dia anterior.

– Não era pro seu pai?, perguntei, antes que ele pudesse me cumprimentar.

– Ainda é. Mas ele não vai ligar se eu vestir só por um dia.

– Acho que ele não vai lembrar se você disser, né?

Ele riu, um pouco exagerado, e parou antes de sair pela porta da pensão. Olhou ao redor, olhou pra mim. A luz branca que vinha da tarde nublada o fazia apertar os olhos, como se refletisse sobre algum tema importante.

– Me indicaram um bar a dois quarteirões daqui, em frente à praça da catedral. Conhece? Estou indo lá comer alguma coisa.

Estava falando do Kaianas. Claro que conheço. Só não frequento mais, há anos não subo até a Cidade Alta nem sento em bar. A última vez que sentei lá nem morava aqui. Ou talvez morasse e dissesse que estava de passagem como ele.

– Quer tomar uma cerveja?, ele perguntou, meio se desculpando.

– Já que você está pagando, eu disse, apoiando nos braços da poltrona pra levantar sem ficar tonto. Caminhamos sem conversar, o que achei bom, pois precisava me concentrar em não trombar no monte de gente que transitava ali. Tinha me esquecido que naquele horário a população da cidade dobrava. Efeito da caminhada ou da concentração forçada, cheguei no bar com sede.

– Eu sempre quis saber daquela história. É verdade que você recusou a seleção por que era obrigado a ficar no hotel o fim de semana inteiro?

Não era, mas na época eu costumava alimentar isso, fazia parte do folclore. Não cheguei a passar da pré-lista. Não fosse o ocorrido, tinha jogado pelo menos uma Copa.

– Teve isso. Nunca deixei ninguém me regular, essa é a verdade. Não abro mão da minha liberdade, entendeu?

– A gente tinha levado aquela Copa se fosse você na ponta direita, ou mesmo na esquerda.

As melhores coisas nunca chegam a acontecer. Como aquele quase gol do Pelé do meio de campo. Devia ter dito isso, mas só pensei depois. A conversa tinha acendido as lembranças e a cerveja começava a provocar uns estalidos na pele e uns furos na mente. Eu devia estar umas três garrafas na frente dele, se fosse calcular, e a umas cinco da embriaguez total, seis se comesse alguma coisa.

– É isso aí, a carreira de vocês é muito curta. Se for parar a vida, nunca aproveita no auge.

Comemos duas porções de calabresa e fumei meio maço de cigarros vendo o céu escurecer, as torres da catedral chupadas por fiapos de nuvens roxas. Agora eu gostava do silêncio, da dormência que preenchia o corpo.

– Não pensou em ter família?

– Não pensei, mas tive.

– E onde eles estão?

O Kaianas não costumava ter televisão, mas agora tem. Não demora muito pra alguém gritar pro garçom: não vai passar o jogo? Preciso de mais uma ou duas pra arrematar e voltar pro quarto. Poderia resumir com uma cachaça, mas uma só não ia servir, porque aí se inauguraria uma dormência diferente, o tempo da cachaça é outro. Olhei pra camisa dele e meu garrancho do lado do escudo me encarou. Uma das tatuagens cobria o interior do antebraço, eram como raízes ao mesmo tempo que eram veias, espraiando-se desde a divisa com o braço até formar o contorno de uma árvore, onde o tronco tentava imitar uma forma humana, ou quase isso. Minha família está onde sempre esteve, pensei, na casa dela.

– E seu pai, não vai dar a camisa pra ele?

Começou o jogo. Me despedi rapidamente e o deixei pagando a conta. Olhou pra mim enquanto entregava o cartão pro o garçom, como se me dissesse pra esperar.

O gravador me lança seu olhar metálico e eu sinto meu esôfago queimar de novo. Não lembrava muito das últimas doze horas. Até lá, um dia comum e então o breu total e acordo com um apito dentro da cabeça. E este objeto estranho e respingado de sangue dentro do meu quarto, que me faz crer num outro tipo de ressaca, que se agrava com o tempo. O pior estava lá fora, eu sabia há anos e sei ainda hoje. Talvez o mal estivesse feito e eu precisasse apenas ver a sua cara.

Abro a porta e ainda dentro do quarto vejo certa movimentação lá embaixo. Ponho a mão na frente da boca como se o gesto algum dia tivesse impedido alguém de vomitar. Mas seguro. Dois homens apoiam os cotovelos no balcão da recepção e um deles mexe a boca, deve fazer perguntas, pois fala e depois espera, balançando a cabeça para o que deve ser a resposta, e em seguida mexe a boca de novo. O outro observa o pátio, do outro lado dos elevadores, e olha para o andar de cima, onde estão os quartos. Encosto a porta sem que me veja. Olho pro gravador e penso que preciso me livrar dele. Recolho-o do chão e ponho no bolso da calça, me certifico de que não sujei minha mão de sangue e volto pra porta, tentando ver pela fresta. A luz que vem de fora reanima meu esôfago em brasa, minha cabeça volta a sofrer com as pontadas bem acima dos olhos. Estou tonto, preciso sair daqui, preciso morrer.

O balcão da recepção parece vazio. Abro o mínimo possível da porta pra passar meu corpo por ela, de lado. O quarto do garoto fica no caminho pro banheiro. Ando naquela direção, um andar entre a rapidez e a cautela, deslizando a mão direita na parede pra me apoiar.

A porta do quarto dele está entreaberta, encostada. Empurro com os dedos e sinto um cheiro denso e ferroso. Seu corpo está caído de bruços, o celular do lado de pedaços de uma garrafa de cerveja, o braço direito esticado como quem tentou alcançar algo. Ainda veste a camisa autografada, agora grudada numa mancha escura tomando todo o número 7. Corro pro banheiro, vomito na pia, agarrando o gravador dentro do bolso como se assim fosse lembrar. Lavo o rosto, enxugo com as mangas da camisa e abro uma greta da porta. Dali consigo ver os dois homens saindo do elevador e caminhando na direção do quarto dele. Aproximam-se da porta com cautela, mas depois que abrem a porta sacam os revólveres das cinturas. Dividem-se. Um deles desce pelo elevador, o outro caminha no sentido do meu quarto. O que está no pátio fala alto no celular, não consigo decifrar o que diz, mas certamente chama reforços, vão me prender, vão vasculhar mais uma vez o meu passado, o ex-jogador que matou alguém. Mas eu não matei ninguém.

O homem bate à minha porta, sinto o gravador no bolso como um pedaço de osso. Desço as escadas sem que ele me veja e vou direto pra porta dos fundos, evitando o pátio. A sede fere minha garganta, a saliva empedra quando tento engolir. O ar da rua é úmido e alcoólico, os bares já estão abertos, esperando que pessoas como eu entrem neles. Hoje é um bom dia pra entrar, embora eu não os frequente mais.

Entro no primeiro, virando a esquina na direção da Cidade Alta. Peço uma cerveja e uma cachaça, cochilo por uns segundos no balcão e acordo com uma mão no meu ombro. É só um bêbado e seus perdigotos no meu rosto balbuciando qualquer coisa. Na tarde passada era uma mulher velha e loira arrastando um cachorro meio morto pela coleira, sentou-se na poltrona da recepção enquanto eu tentava cochilar com meu copo de café frio na mão. Por que insistem em me acordar? O cachorro tentava andar, mas era atrapalhado pela barriga imensa e dura, que pendia do corpo cadavérico. A mulher falava com ele e ele a cada segundo morria mais um pouco. Chamava-se Sheik. Ela e Sheik tinham tirado várias fotos com o celular e ela me mostrava essas fotografias, Sheik e ela com toalhas enroladas na cabeça, como turbantes. Tomei o café, o líquido frio e rançoso desceu como óleo. Deixei a mulher e o cão moribundo falando sozinhos e entrei no elevador. O bêbado me toca novamente. Você é famoso? Cheguei no meu quarto e fui seco colocando a mão debaixo da cama, mas não encontrei garrafa nenhuma. Sou famoso, sim, matei um cara. Ele chispa a língua no lábio num gesto de desdém. Não é famoso porra nenhuma, diz, eu respondo que joguei bola, joguei bola pra caralho. Ele toma o resto do copo de cachaça e olha pro garçom: Tá mais é parecendo um mendigo. Meu quarto é muito pequeno, eu parecia me dar conta, minúsculo, um quarto de dar dó. Saí e fui até o quarto dele, com certeza ele teria algo pra beber. O bêbado cospe no chão, quase no próprio pé. Diz: vamos pra outro bar, aqui é caro e a cerveja é quente. Engancha seu braço no meu e tenta me arrastar, um bêbado nunca quer ver o dia morrer sozinho. Me seguro no balcão e pego meu copo vazio pra acertar sua cara. Digo que não frequento bares, e ponho o copo de volta no balcão. Bati à porta dele e ele parecia esperar, estava de tênis e vestido de novo com aquela camisa, um jornal aberto em cima da mesa. Bebia uma lata. Mais uma rodada?, perguntou ele, o que você tem aí, perguntei eu. Estava indo comprar, disse ele, então vamos, disse eu, e fomos à mercearia talvez, ou ao bar da esquina, este mesmo de agora, e então aconteceu o breu, o primeiro da noite, e perguntei a ele algo como Que caralhos você quer comigo, pois ele disse essa frase estranha, desconjuntada, disse Isto tudo para te perguntar o tamanho da culpa, ele disse, abrindo a gaveta da cômoda, onde eu costumo guardar cuecas, mas ele guardava um objeto metálico, retangular, como um controle remoto, não sei se na hora me dei conta de que era um gravador, porque o Caio usava um controle de remoto para encenar as entrevistas na beira do campo, sentávamos na sala de TV pra assistir aos programas da tarde, eu com uma lata na mão, ou uma garrafa, quebrada anos depois no quarto dele deste homem, e pode ser que ele tenha repetido a pergunta e isso desencadeara tudo, a minha raiva, É possível medir a culpa, você pensa todos os dias, Não, eu diria, há dias de silêncio total, não escuto voz alguma. E o bêbado no entanto grita no meu ouvido, Estou pagando, ele diz, Vamos no Kaianas, eu digo, e ele me olha com fingida sobriedade: Essa porra fechou tem é tempo. Fui lá ontem, eu digo, você está bêbado. Ele vai ao banheiro e aproveito pra ir pro Kaianas, aperto o gravador dentro do bolso da calça, ele disse que pareço um mendigo mas mendigo não usa calças, usa trapos, subo a ladeira pelo lado mais escuro da calçada, onde ninguém passa e ninguém vai me reconhecer nem me cobrar por algo que fiz há vinte anos ou mais, talvez trinta, uma viatura desce a ladeira, graças a Deus uma cavada não dá cadeia, chego no topo da ladeira e vejo as torres da Catedral perfurando o céu escuro, os flanelinhas vagam entre os carros estacionados esperando o fim da missa, o pipoqueiro se senta no banco da praça e olha pro nada, na direção do nada que se impõe do outro lado da praça, onde ainda ontem havia o Kaianas, uma televisão passando um jogo qualquer e um garçom servindo os bêbados de estimação da cidade, onde hoje, por algum motivo que me foge à compreensão, talvez por estar desidratado de toda essa caminhada, erguem-se tapumes na porta de correr.

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