Margareth e família

A vida não é fácil no galpão. Se fecho a porta de correr, o calor e a umidade são difíceis de suportar. Se deixo aberta, o vento perturba, fazendo os papéis voarem, aquele barulho repetitivo de folhas balançando. E a voz dele vem lá do fundo: não deixa voar, não ponho números nas páginas. Faço a vontade dele e coloco uma lata de mistura pronta em cima da pilha de folhas. Vou ter que abri-la quando bater a fome, então vai voar tudo de novo.

Aqui a vida é difícil, aos poucos ele vai se acostumando. Vivo neste galpão há anos e posso dizer que me sinto em casa. Não foi assim desde o início. Cheguei aqui só pra trabalhar, ia morar no povoado vizinho, mas logo que cheguei os preços dos aluguéis dispararam. Disseram que havia uma recessão no mundo todo, eu não acreditei, porque quem tinha dito era o dono da imobiliária, mas depois o resto todo subiu, comida, água, energia, e acabei morando aqui, convivendo com todo tipo de coisa que precisa de um espaço como esse. Por exemplo: por umas semanas moraram aqui duas vacas, eu tinha que dar ração, capim e água e ainda limpar a bosta, que até tinha um cheiro agradável de menta. Eram vacas silenciosas, quase nunca mugiam, mesmo assim atraíram a curiosidade de umas pessoas que começaram a vagar pelos arredores, olhando pelas frestas da porta de correr. Quando me aproximava elas saíam correndo, deviam ser crianças fuçando. Um dia o patrão veio com o dono das vacas e levou elas embora. Confesso que já tinha me acostumado com a presença delas e sua partida foi sentida. Limpei o galpão inteiro, descartei uns entulhos e pedaços de móveis jogados pelos cantos, e acabei encontrando uma coisa que no começo não entendi. Estava coberta por uma lona encardida nos fundos do galpão, parecendo uma caixa grande. Tirei a lona com cuidado e fui me dando conta, sentindo uns calafrios, porque aquilo que era uma caixa grande se revelou uma jaula com grades enferrujadas. Passei um pano molhado nas grades e apliquei um pouco de óleo no cadeado pra abrir. Limpei lá dentro também, porque nunca se sabe quando uma coisa vai ser útil.

Agora ninguém deixa mais nada aqui e o patrão parece ter esquecido de mim e do lugar. Sorte é que no povoado não tem nada com o que gastar, então acabei juntando boa parte dos salários, o que dá para me manter, mesmo sem nada aqui dentro. Quer dizer, nada que esteja pagando para ficar aqui, e nisso acredito que eu deveria receber algum reconhecimento, da parte dele, deste homem que só faz gritar do fundo do galpão. Mas consigo entender seu ponto de vista, ainda que eu também me considere uma pessoa sensível.

A verdade é que viver dentro de uma jaula como aquela não é fácil. Digo isso porque eu mesmo já passei um bom tempo nessas condições. Peguei cinco anos, paguei três e os outros dois não sei direito o que aconteceu, porque uma bela manhã bateram o cassetete nas grades e me chamaram pelo nome. Achei que fosse mais uma daquelas revistas que terminam comigo na enfermaria. Mas só me deram uma muda de roupas e me desejaram sorte, rindo. Só não fiquei doido nesses três anos porque um desses professores que batem lá de tempos em tempos me emprestou um livro: A Vida Inventada de Margareth Oliveira. Gostei muito, li numa noite agachado na cela, mas não entendi o final. O professor então me disse que eu precisava ler os outros, eram mais de dez, todos sobre a família Oliveira, sempre com Margareth protagonista. Foi me emprestando à medida que eu ia lendo, e em menos de um mês já tinha lido tudo. No resto do tempo tive que reler, até porque eram muitos detalhes. A primeira coisa que fiz quando recebi o primeiro salário aqui no galpão foi comprar todos os livros pela internet. Reli tudo umas dez vezes até ter base pra discutir nos fóruns, e fiz isso dia e noite, já que o trabalho aqui era só esperar. Até que a internet parou de funcionar e, depois, a energia também ficou mais fraca e o computador não ligava mais. Não fosse isso, eu tinha colocado o computador dentro da jaula pra ele ter mais conforto.

A fome chega, tiro a lata de mistura de cima da pilha e as folhas voam. Fecho toda a porta de correr, mesmo contrariado. Lá do fundo vem a voz dele pedindo o balde pras suas necessidades. Levo pra ele e vejo que está com os olhos marejados, sempre se emociona quando tem que pedir o balde. Ponho um biombo na frente da jaula e saio pra fumar, mas ainda assim ouço os choramingos. Naturalmente, quem buscou essa situação foi ele. Não admite, parece que não aprendeu nada com os seus próprios livros. Inclusive havia consenso em fóruns do mundo todo a respeito das ações de Margareth. Agora certamente suas histórias deixaram de importar e só falam do seu sumiço, é o que faz a mídia. Aposto que muitos dos meus críticos fariam o que fiz, se tivessem a competência.

O trabalho aqui já tinha rareado quando ele disse que tinha perdido a vontade de escrever. Fez uma transmissão ao vivo e anunciou que não poderia mais escrever histórias de fantasias sobre famílias interespécies, enquanto o mundo acabava em guerra. Dois dias depois ele me encontrava na garagem da sua casa, os dedos em volta da sua garganta. Veio amarrado e discutimos logo no início. Bom, com o mundo acabando é que precisamos de histórias bonitas, de personagens heroicos, eu disse a ele quando chegamos. Mostrei a jaula e empurrei ele lá pra dentro, ele começou a chorar, e ficou assim nos primeiros dias, todo curvado, chorando, mesmo com espaço pra se esticar completamente e até ficar sentado sem bater a cabeça nas grades do teto, porque não é um homem alto.

Toda vez que saio preciso dar um sonífero para ele, ou começa a gritar. E já disse que às vezes vejo pessoas rondando a região, os pontos de luz das lanternas acendendo nas minhas paredes. Cada vez que vou ao povoado as pessoas estão mais magras, pelo menos as que andam pelas ruas, que estão quase desertas. Um dia desses vi um grupo na beira da estrada assando um cachorro em uma churrasqueira improvisada com tijolos e vergalhões, a carcaça de pelos esfarrapados acendendo o fogo. Certamente olhavam aqueles fiapos de carne pensando se seria suficiente roer os ossos até a próxima coisa viva atravessar seu caminho. Estava armado, mas dei a volta.

Quando volto, é sempre a mesma coisa. Ele demora umas horas para acordar e, ainda hoje, passa pela decepção de lembrar que está dentro de uma jaula. Embora fosse bom ele lembrar primeiro de seu dom e de sua responsabilidade com esse dom. Afinal, foi o que o trouxe até aqui. Quando lhe disse isso, ele levantou a voz pra mim.

Você entende a gravidade dos seus atos?, esbravejou.

Que atos?, perguntei, porque podem ser muitos.

Filho da puta! Filho da puta sem coração!

Bem, há discussão aí, mas resolvi guardar pra mim. Ele precisava começar a escrever, pois minhas reservas não eram infinitas e eu logo precisaria sair dali e procurar outro trabalho. Uns dias depois ele pareceu se conformar e parou de rasgar as folhas. Começou a escrever. No início não quis mostrar, devia ter medo de críticas, já li no fórum que escritores são inseguros. Num dia que ele adormeceu, tirei as páginas da jaula e comecei a ler. Uma letra horrível. Do que consegui decifrar, Margareth tinha voltado a ser criança, ou se lembrava de sua infância na escola interespécie, e estava sendo perseguida por um professor que não a deixava ir para o recreio. O professor cheirava mal e ninguém podia discutir com ele, pois tinha um apito pendurado no pescoço, que recorria com violência quando era desafiado. Uns dias depois, Margareth ainda estava lá, mas uma revolução acontecia na escola, os alunos batiam nos professores e tentavam arrombar a porta em que ela estava trancada. Essa parte ele não terminou, já pulou pra outra, acredito que é o que chamam de várias tramas, então não consegui ter uma opinião formada. De qualquer modo, vou lendo a história enquanto ela é escrita, isso posso dizer que é um privilégio. E, apesar das circunstâncias, o desgraçado escreve bem!

Talvez influenciado pela história, ouvi uns barulhos lá fora. Peguei o revólver e andei na ponta dos pés até a janela do lado da porta, mas não vi ninguém. Acendi todas as luzes e fui até os fundos. Ele encarava o teto, as páginas amontoadas num canto da jaula. No outro dia servi o café da manhã e ele apenas olhou pra lata. Ok, hoje está mudo, deixei pra lá. Abri a minha e comi a mistura olhando para a jaula, era meu sabor preferido, o de peixe defumado, pra ver se ele se animava a comer também. Pedi pra ver as páginas que tinha escrito à noite e ele empurrou a pilha de papéis pra fora da jaula, com raiva. Tinha começado uma nova narrativa, agora Margareth era uma idosa vivendo numa cabana no meio da floresta. Certo dia – muito no início, na minha opinião – uma chuva alaga toda a floresta, isolando a região. Sem comida, ela precisa se alimentar de nacos da coxa e da bunda, mesmo com poucos dentes. Enquanto eu lia, percebi ele sorrindo, olhando pra cima entre as grades do teto.

À noite os ruídos vieram de cima, como uma chuva de granizo. Lá fora a noite era limpa e total. Se tivessem árvores por aqui, como na história da velha Margareth, poderiam ser os frutos caindo nas telhas. Como não há, só podem ser pedras. Peguei o revólver e saí do galpão. Vi uma imagem borrada em cima do telhado, um vulto de alguma pessoa ou um bicho, mas quando peguei a escada já não havia nada. Voltei pra dentro e o barulho persistiu, como passos nas telhas. Uma hora vai desabar, pensei. O que quer que estivesse lá, porém, deve ter ido embora, porque peguei no sono e só acordei com a voz pedindo o balde no fundo do galpão. Voltei com as páginas recém-escritas e me sentei à mesa.

A nova história de Margareth mostrava sua adolescência, uma parte esquecida pela saga, nisso havia originalidade. A jovem simplesmente não conseguia acordar, ficava caindo de um pesadelo em outro, até começar a se afogar dentro de uma lata cheia de pedaços de peixes pré-históricos. Larguei na metade e me preparei para ir ao povoado. Pela primeira vez senti tédio lendo a saga dos Oliveira, sinal de que o trabalho não estava indo bem e a conclusão ia se alongar.

Estranhei que as luzes estavam acesas quando cheguei com as compras. Abri a porta de correr e coloquei o cano do revólver na fresta, fui abrindo aos poucos e meu dedo já ansioso pra puxar o gatilho. Entrei uns passos e não vi nada de diferente. O susto veio quando cheguei nos fundos do galpão e a jaula estava vazia, o garfo espetado no buraco do cadeado. O desgraçado estava demorando tanto pra comer que acabei esquecendo os talheres com ele. Mas ele não foi longe. Com a ajuda de uma pá, caída rente à janela dos fundos, tinha conseguido envergar o gradil, mas nem sua perna tinha passado. Estava pendurado num dos dentes da grade e chorava baixo, quase desmaiado.

Por favor, acabe logo com isso, ele gemeu.

Eu digo o mesmo. Pare de inventar novas histórias e comece a terminá-las.

Puxei seu corpo franzino com força e ele gritou quando caiu no chão. A perna esquerda tinha um talho do joelho ao tornozelo. O sangue escuro pingava no chão, criando pequenas poças. Estava em silêncio agora, devia ter finalmente desmaiado. Meu estômago roncou, eu precisava me apressar. Enfiei um comprimido na sua garganta e costurei a perna com um fio dental que encontrei no armário do banheiro. Depois enchi de Rifocina e o devolvi para a jaula, acorrentando as grades da porta. Abri uma lata da mistura e a imagem do cachorro assado veio na cabeça. Não tinha encontrado mais ninguém assando animais no povoado, só os olhares fundos de gente morta de fome, caveiras que andavam. As prateleiras dos mercados também começavam a esvaziar, pois a demanda era baixa. Eu tinha comprado latas suficientes para uns três dias, no máximo. Na mesa, completamente ordenadas, as páginas que eu tinha deixado pela metade.

Cochilo na mesa lendo a aventura de Margareth pelos mares enlatados e acordo com um estrondo de vidro quebrado. Levanto e vejo a janela espatifada no chão e, no meio dos cacos, uma pedra do tamanho de uma cabeça. Atrás da porta de correr, uma sombra escura espera segurando algo na mão. Dou uns cinco tiros na sua direção e, quando ando até a porta, não há ninguém ali. Um novo estrondo vem de cima, outra pedra gigante vaza o telhado, acertando minha mesa de leitura. Bom, penso, foda-se. Abro a caixa de ferramentas e vou com um alicate até a jaula, corto a corrente e digo, desta vez pra ele, que continua dormindo: foda-se. Recarrego o revólver e volto para a porta de correr. Algo se agita lá fora. Decido não atirar. Pego a pá que o escritor tentou usar para fugir e meto na fresta da porta, abrindo bem devagar, deixando que a sombra se revele aos poucos. Com um pedaço de fêmur pendendo da mão, ela entra sorrindo pra mim.

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