Nº31 –  O ovo no escuro

@brontopsbaruq

Preâmbulo: Variações (um pouco à maneira de Queneau) de uma mesma história: Maria desce as escadas rolantes do metrô e rola uma troca de olhares com João, subindo.

Reconhecemos nossa cidade apenas por certos marcos arquitetônicos: a Catedral, o Arranha-Céu, a Estátua, o Museu, a Ponte, o Obelisco. Mas diferente daquela em que vivemos, a natureza assumiu o espaço deixado pela nossa desaparição. Para quem vê de um instante para outro, só consegue supor uma espécie de violência.

Onde antes havia um parquinho e uma quadra de futebol, as figueiras e jatobás arrastaram consigo os balanços e a rede de gol como estandartes roubados. Os automóveis sempre tão onipresentes, agora paralisados e engolidos pelo capim, as goiabeiras e manacás fazendo seu caminho pelo interior de suas cavidades. Os postes e fios que antes dobravam os ipês e quaresmeiras, agora finalmente cediam ao solo que se movia, às intempéries, a erosão sobre o concreto. Pelas fissuras no asfalto rebentam flores do mato que nunca soubemos o nome; mas agora elas estão aqui e nós, não.

Nos edifícios vazios, as janelas abertas e ocas como olhos cegos se deixam ocupar por pterossauros retornados sabe-se lá como de qual Era geológica. As torres de escritório, os apartamentos caros e os quitinetes se deixaram ocupar por ninhais. De suas varandas, as criaturas voam e planam sobre as avenidas desertas.

Nem tão desertas, pois lá debaixo, em um trote manco, Maria caminha lentamente. A câmera se aproxima e vemos que dessa vez Maria tem três chifres e uma boca que nos remete talvez a um jabuti. Ela tem o maxilar aberto e respira ruidosamente, podemos escutar seu resfolegar. A expressão de Maria é a expressão de um animal e um animal que nos é estranho, a nós só cabe deduzir o filme sem trilha sonora para manipular emoção.

Os pterossauros nos edifícios grasnam agudo e mexem e remexem suas cabeças ornamentadas, como torcedores sacodem bandeiras. Talvez seja um alerta para o restante do ninhal mas para nós parecem estar rindo e achincalhando Maria. Ela baixa a cabeça e a balança como um boi espantando as moscas dos olhos. Se este fosse um documentário, ouviríamos o locutor (Sérgio Chapelin? Sir David Attenborough? John Hurt?) explicando aquilo que não se apreende pelas imagens apenas. Talvez fizesse alguma consideração sobre o motivo dela estar solitária, afinal Maria é herbívora e parte de um rebanho, onde estaria o restante da manada? Mas isso não é um documentário, então só se sabe que Maria está ferida e procura um lugar seguro para botar seus ovos.

Maria percorre a avenida, entre as ruínas de um supermercado e o as paredes de uma lanchonete que se tornou uma estufa para um jardim de cactos. Não pretende fazer sua ninhada ali, deixar seus ovos expostos ao ataque dos tapejaras e anhangueras. Precisamos supor isso, alguns asas-de-couro descem raspando sobre seu couro.

Maria se dirige para a Catedral. Podemos notar que o domo não está completo, uma parte desabou. Seu corpanzil caminha com dificuldade sobre a praça, ela ignora o general feito estátua de bronze, a imagem um tanto gasta, efeito de cagadas ácidas e do tempo. Cambaleou diante das ruínas com a reverência de vira-lata igreja adentro. Num corte seco, a câmera focaliza num close a cabeça do animal, o percurso seco de lágrima e de muco. A cena nos é aflitiva muito embora saibamos que há muitos milhões de anos dinossauros não caminhem sobre a terra e que nada disso faz sentido, muito embora possamos pressentir a natureza rebentando a casquinha de civilização que julgamos fundamentar tudo.

No meio das flores e de pés de nêsperas, Maria chega a uma escadaria. Ela tem o porte de um elefante e não sabemos porque ela quer fazer isso, mas ela simplesmente rola, capota sobre os degraus, um gemido doído e grave e ela desaparece sob uma cortina de trepadeiras e samambaias dependuradas na entrada da velha estação; a câmera escurece e entendemos que ali não pode haver luz. Fica tudo de um breu denso e a luminosidade verde nos faz entender que é uma câmera para a escuridão, pequenos pontos surgem e entendemos que devem ser insetos saltando e voando para o alcance da lente.  O corpo de Maria é grande o suficiente para desaparecer no escuro, tal como um mergulhador tentando vislumbrar o todo de uma baleia. A câmera passeia pelos corredores e vemos os esqueletos humanos amontoados pelos cantos, entulhando passagens. Não há uma trilha sonora para nos orientar, escutamos apenas o ronco doente de Maria que se espreme pelas passagens. Ficamos hesitantes com a informação de que ela pretende botar seus ovos. Seria mais lógico que ela buscasse a morte e não um ninho do qual não se sabe se suas crias conseguirão escapar.

Mais abaixo, onde eram as linhas metroviárias, um rio lento e raso corre entre os túneis escuros. De onde vemos João Velociraptor. É um animal menor e velho, talvez cego de catarata ou de ter ficado preso na escuridão. Sabemos de sua idade por sua mandíbula onde estão ausentes vários dentes e pelo couro repleto de caroços e tumores infeccionados. Ele captura e traz na boca um mamífero roedor primitivo, uma criatura talvez aparentada dos gambás. João sai do riacho no túnel e sobe na plataforma com alguma dificuldade e acaba soltando o bicho. João ruge de frustração e passa a farejar o chão da plataforma, que de alguma forma preservou os sapatos da antiga humanidade. João abocanha novamente, mas é um dos velhos sapatos e o engole dessa vez para não deixar escapar.

Nesse instante, escutamos os rugidos vindos de cima. João interrompe-se. Seu corpo sob a iluminação verde do visor torna-se mais tridimensional, como se a tecnologia ressaltasse os volumes de seu corpo. Para além da doença que o acomete, é possível identificar suas costelas e pressupor sua fome. Ele se ergue e caminha junto a parede da plataforma, encostando-se, talvez para localizar a escadaria para a saída da Estação.

Vemos como ele usa uma de suas garras, a garra de orvalho, para tatear o piso. Pela ressonância do eco, João Veloceraptor se orienta. Isso parece uma especulação um tanto forçada, o animal na escuridão desenvolver o esporão como uma bengala para cegueira. Não há pisos tão regulares no mundo natural que ajudassem na aquisição dessa técnica. Ainda que o cenário retratado esteja violado pela ruína, ainda é distante de um cenário plenamente natural. Talvez queiram provocar a audiência, indicar sua esperteza, sugerir que os animais também podem parecer gente.

E então escutamos outra queda. Novamente, Maria desaba pelas antigas escadas rolantes, agora definitivamente paradas, o maquinário exposto como os esqueletos humanos que se acumulam em cantos pelo mezanino. Dessa vez há um resto de luz que penetra pelo teto, um trecho de concreto que cedeu com a infiltração. Onde o dia penetra, formou-se um pequeno jardim de plantas rasteiras resistindo. A fêmea ignora esse pequeno ponto de luz e segue mais para baixo, para a antiga plataforma.

O comportamento de Maria é impenetrável. Talvez esteja adoentada, delirando. Animais de chifres e cornos tendem a viver em rebanhos, essas extensões servem tanto para defesa como ornamento sexual. Mas nem todos, existem criaturas de todo tipo, o que parece sugerir que a evolução e a tal lei do mais forte é só um salve-se quem puder: como o camaleão, a água-viva e libélula podem conviver no mesmo planeta? Mas essa boca do triceratops, meio bico retorcido, nos remete a uma maritaca; então por que não imaginar Maria em meio a seus irmãos e irmãs numa campina feito uma manada de búfalos em vez desse bicho solitário se escondendo numa estação abandonada de metrô feito um suicida jurássico?

Há uma última escadaria. O corpo de Maria não consegue se afunilar no espaço da velha escada rolante, então ela usa as laterais e escorrega por ali. A imagem escurece e a câmera muda para a tecnologia de visão noturna. Maria adquire uma tonalidade esmeralda e a densidade das criaturas submarinas. Ela bufa e rumina e abre a boca num último esforço.

Lá debaixo, contra todas as expectativas, se aproxima o envelhecido João Velociraptor. Ele tateia o piso da plataforma e levanta sua cabeça, farejando e escutando os ruídos vindos de cima. Será que pressente a fragilidade de Maria? Talvez sim, algo no movimento sinuoso de sua cauda, na baba que brota e percorre sua queixada, na maneira silenciosa que se comporta, tudo remete a um bote. Mas João parece estar cego e fraco, seria capaz de um ataque?

Maria monta sobre a escada e se deixa deslizar, o ruído do couro derrapando contra o metal, feito coxa de criança contra o ferro do escorregador. João passa a subir de forma mais decisiva e veloz, já indiferente em se ocultar. Ele encolhe o corpo antes de se lançar contra Maria que desce e se esfrega contra a estrutura da escada rolante. O corpo voa e não saberemos se Maria se defendeu ou se moveu por acaso, mas João cai contra os chifres do triceratops.

Maria continua deslizando para baixo rumo a última plataforma, diante dos trilhos agora submersos numa corrente de água subterrânea. João usa suas garras e unhas contra Maria, tentando se desacoplar do corpo dela, mas não consegue, não tem forças. Maria curiosamente não reage, aparentemente desfaleceu ou morreu no esforço final de se jogar pela escadaria. Ela e não reage nem mesmo contra as investidas de João que sacode seu corpo em estertores finais.

Toda essa cena acontece no escuro, no breu da estação e só podemos assistir graças à câmera de visão noturna. Ela se aproxima por trás de Maria. Vemos sua cloaca – sim sua cloaca, pois todo dinossauro que resta hoje é um pássaro – sua cloaca se abre, e de lá expulsa um ovo. O ovo não se afasta muito do corpanzil inerte de Maria.

Apesar de ser um ovo, a treva não nos inspira lá muita esperança.

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