Orientário familiar – Yan

Perder a linha
Minha tia Magaly costurava uniforme escolar e todo começo de ano era aquele aperto. Vinha mãe rainha com filho reizinho pra tirar medida, vinha cobrador carrasco passar descompostura com fatura, vinha até tendinite que afrouxava logo a mão da agulha.
Um dia, bem na véspera da entrega, veio um rato e roeu os uniformes.
Minha tia mandou as mães, as crianças, os cobradores e a tendinite à merda, arrancou a própria roupa e correu pelada pela rua.

Perder a hora
Meu avô Manoel acordou um dia e disse: vou morrer hoje, às dez da noite. Morreu dois anos depois, às seis da manhã. Moral da história: não tem — mas o enterro aconteceu pontualmente.

Perder a cabeça
Três vezes em que minha vó Bel ficou um pouco descontrolada:

  1. Quando Texaco, o cachorro do meu tio, decapitou Pavarotti, a calopsita de voz grossa da minha tia; Vó Bel tinha acabado de ensinar Pavarotti a cantar a música da Ave Maria.
  2. Quando meu primo Romário vendeu a medalha de prata de São Lourenço na boca de fumo; vó Bel ficou ainda mais revoltada porque São Lourenço morreu queimado numa grelha. 
  3. Quando o marido da minha tia Fátima, um mês depois de prometer amá-la e respeitá-la no altar, deu na cara dela.

Única vez em que minha vó Bel ficou totalmente descontrolada:

  1. Quando minha mãe contou que me batizou na umbanda e que meu ori era de Ogum.

Perder o rumo
Na infância, meu tio-avô Vitor queria ser padre, pra salvar muita gente. Cresceu, virou sambista. A bisa diz que ele se perdeu aí, que passou a esquecer do próximo. Passava a noite na roda de samba e o dia na praia, tocando pandeiro por uns trocados. Morreu afogado tentando salvar um desconhecido que encontrou no mar.

Perder o chão
Atlas segurava o céu. O céu inteiro, meu filho, tá entendendo? Não deixava cair nenhuma estrelinha na nossa cabeça, firmava bem o pé na pedra e a espinhela no eixo. Nunca deixou cair nada, nadinha. E fazia tudo sem reclamar, viu.  Tu não consegue segurar nem a porra de um balde de tinta. Olha aí, cagou o porcelanato todo”.
“É que eu jurava que tinha mais um degrau, pai”.

Perder a perda
Diz que quando meu tio Milton morreu de bala perdida, vó Bel ficou chorando por um mês inteiro. Não queria comer, não queria banhar, chorou até amufinhar. A bisa Alide, que morava no interior, soube e veio visitar.
Não entendia de andar em cidade grande: pegou o ônibus errado, sentou na poltrona errada, levou a carteirinha da paróquia no lugar da identidade. Mesmo assim, chegou na nossa casa.
Bisa Alide enterrou dois maridos, o pai e a mãe, sete filhos e dois netos. Quem acha ela entendia de morte, achou errado.
A bisa chegou na nossa casa.. Deu um tapa na cara da vó Bel, enfiou ela de baixo do chuveiro, enfiou comida na boca, enfiou juízo na cabeça. Enquanto fazia tudo isso, repetia:
“Tu te orienta, minha filha”.

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