Eu estava procurando as fotos antigas da mamãe comigo bebê, para mostrar ao meu neto, e achei uma foto minha com a Isadora bebê. Eu ainda nem namorava o Ismael, tinha acabado de sair da escola normal e começado meu primeiro ano de magistério. A Bibi largou a escola antes, porque ia casar e casou. Um ano depois, a Isadora já tinha nascido. Parece que teve um certo mal estar com a irmã dela, que queria ser a madrinha. Mas a Bibi teimou que queria me dar a menina pra batizar. Eu aceitei, claro. Em parte porque era assim mesmo, as pessoas teimavam e eu aceitava. Mas foi principalmente por causa dos olhos da Isadora, que olhava pra tudo como quem já sabia o que ia acontecer.
Fui fazer uma visita logo após o nascimento, levei um sapatinho de lã que a mamãe cozeu. O marido da Bibi ainda não tinha sido promovido a gerente da gráfica, era só funcionário. O berço era um cesto de pão que ganharam do padeiro da rua. A Bibi reforçou o convite, mas eu disse que ainda não sabia. Aí fui espiar o cesto de pão e vi aquele pãozinho rechonchudo, meio moreninho, já me espiando. A Isadora tascou aquele par de olhos sérios em mim, como quem diz: “você vai ser minha madrinha”.
Sete meses depois, o batizado na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Na saída da igreja, fizeram a foto. Nela, dá pra ver o olhar de Isadora, o olhar de quem sabe exatamente o que vai acontecer. E eu, a segurando em cima de um toco de árvore, olhava pra ela como quem nunca sabe o que vai acontecer.
Não sabia ainda que o Almir ia nascer sete anos depois, que a Isadora iria morar conosco quando eles já fossem adultos. Soube que eles começaram um namorico, mas eu disse não e os dois teimaram em continuar, tenho certeza que a Isadora foi quem teimou mais. Dessa vez não aceitei a teima. Eu não sabia que a Isadora faria macumba pra namorar com ele, nem que a macumba dela era tão forte a ponto de fazer a mamãe cair do ônibus e quebrar a bacia quando foi num pai de santo em Cascavel pra fazer outra macumba pra separar eles. A mamãe curou a bacia, viveu muitos anos mais, conheceu os filhos do Almir com a Isadora. Mas nunca mais a viu, nenhuma de nós a viu. O olhar dela nunca mais transbordou no meu.
A mamãe morreu, depois a Isadora morreu também, o Almir casou de novo e meus netos nunca me perguntam sobre a minha relação com a mãe deles. Já sabem o que aconteceu, claro, mas eu preferia que não soubessem, tem coisas que é melhor não saber. Quando fui procurar as fotos da mamãe comigo bebê no colo, para mostrar ao meu neto, não sabia que ia encontrar a foto minha com a Isadora bebê no colo. Assim como não sei se ela está no purgatório ou no inferno, nem se vamos nos encontrar quando eu morrer. Mas de uma coisa eu sei: eu sei o porquê de não ter jogado fora a foto minha com a Isadora bebê no colo.
Meu neto não sabia que a foto que eu segurava nas mão era a a mãe dele, bebê, no meu colo. A mãe dele, agora morta, enquanto eu sigo ainda viva. Eu não respondi nada, porque ele não perguntou nada. Apenas cravou aqueles olhos em mim, como que já sabe o que aconteceu. Meus próprios olhos, então, se desbravaram de mim. Escureci, segurando na mão a minha foto segurando a Isadora bebê no colo.

