por Américo Paim
FLEX
Daniel estava certo de que agora estava com a mulher da sua vida. Poderíamos descrever aqui todas as características que o encantaram, nunca o que o rapaz sentiu. Comparou-a repetidas vezes com as outras que vieram antes e, creiam, foram muitas. Então, com menos de uma semana de amor total, escreveu a canção. O título pouco importa, nem vamos trazer aqui. A melodia era ótima, grudenta, sem ser papel pega-moscas. A levada era contagiante, bolerão, sua especialidade. Mas o destaque mesmo era a letra. O nome da moça era citado logo no início e daí até o fim, rimas com as tantas qualidades da eleita. Um feito. O original, escrito em mesa de bar, lógico, em papel de embrulhar pão, conseguido pelo Bezerra, garçom parceiro de muito tempo. Deve ter custado quatro a cinco doses de uísque pelo menos, a julgar pelas manchas na tinta e a qualidade da caligrafia do trecho final. Escrita com espaço generoso entre as linhas, porque queria escrever sem agonia, mas com firmeza de amor para a vida toda. Antes de mostrar aos amigos da banda, passou o papel a ferro e tudo. Nunca fez uma cópia, nem digitou em computador. Fato é que a relação, que deveria ser infinita, durou umas poucas semanas. Ela não entendeu seu temperamento flex ao vê-lo com os beiços ocupados em outra, no Santo Antônio Além do Carmo, vendo o pôr do sol, perto de onde eles mesmos performaram tal cena, poucos dias antes. Ele tomou uma garrafa inteira em casa, sozinho, diante da letra da canção. Após amassar o papel, o jogou no cesto de lixo do quarto. O estado de coisas não durou muito. Logo conheceu uma nova mulher de sua vida. E quis fazer outra canção. Seria perfeita, sua obra-prima. Por dias, porém, nada aconteceu, até que teve uma ideia. E foi boa. Buscou o papel de pão esquecido no cesto. Reescreveu a letra com novas rimas, atualizadas com o nome e as qualidades da nova da vez. Sempre gostou daquela música. Seria um desperdício perdê-la. Sua criatividade superou todas as barreiras. De Georgia a Zulmira, de Virna a Caetana, tirou todas de letra. Até que conheceu Agnes. Virou Guinha.
PORNÔ
Alves escreveu o poema porque não mais cabia o silêncio e sua memória era ruim para decorar, desde os tempos da escola. Se sentiu seguro e guardou o papel onde seria inalcançável, esquecido. Ela, morena linda, com lábios que ele sempre encarava pidão, não o correspondia, era sabido, mas ele lutava. Ela era um ponto final para a sua descrença no amor, “sentimento para os fracos”. Ele lhe era um amigo e, alheia ao que se passava por trás dos imensos olhos negros do rapaz, confidenciava suas histórias de amor, realizados e desiludidos. Ele ia encolhendo de tristeza, virando um ponto, quase do tamanho da pinta que ela tinha logo abaixo do nariz, no centro do rosto, algo que povoava seus sonhos e sexo solitário. Ele tentava de todas as formas ser visto por ela do jeito certo. Em um dia já quase improvável, após tantos esforços, ele achou que ela parecia enfim enxergá-lo. Confiante, marcou encontro para o dia seguinte. Queria que fosse especial. Lembrou-se do poema. Economizaria gaguejos e vacilos, pois estava tudo ali no papel. Ela saberia do tamanho de tudo. Ele o leria para ela, que, assim, se entregaria. Em casa, foi direto ao esconderijo. Seus negros olhos não podiam acreditar. Não estava lá. Foi até a mãe, sem chão. Ela esclareceu. Jogou fora toda aquela “pouca vergonha” de revistas pornô que ele escondia em um fundo falso da gaveta do armário. Foi durante uma faxina forte. Entre as páginas sofridas de uma revista, em algum lugar por aí, perto ou longe, jaz um poema, talvez mais que isto.
SUBMERSO
Tarde da noite, colocando a camisa no cesto de roupas sujas, Verbeno percebeu a falta do botão. Precisava achar. Procurou por todo o apartamento. Nada no quarto ou no banheiro. No escritório não. Ele nem foi lá. Teria andado o dia inteiro sem o botão, com essa lacuna na camisa preta? Não cria nisso. Era um botão lustroso como madrepérola. Perdeu na padaria logo pela manhã? Improvável. O vento estava frio, ele teria notado pela corrente de ar. Não foi no trabalho, claro que não. Seu chefe era bem chato com a imagem de sua equipe. Jamais passaria em branco. Então foi no cinema. Ele estava tão nervoso lá, repassando o que faria dali a minutos. Talvez tivesse mexido nos botões da camisa, com sua mania de futucar coisas por ansiedade, mas descartou, pois ficou pouco tempo na sessão. Dali, por ter sentido falta de ar, foi ao parque. Melhorou. Sentia os braços pesados, então não os teria movido tanto a ponto de tocar os botões da camisa, ou qualquer outra coisa. Precisava descansar para o momento certo em que seu corpo seria demandado no limite. Esperou pela noite chegar, ali mesmo, no banco do parque. Seguiu para o tal endereço, a pé, sem interferências. Não, não foi ali que se perdeu. Descartou a possibilidade. E a volta para casa? Não, claro que não. Estava tudo livre, caminhada tranquila e sem contato com ninguém, pelos atalhos escuros e desertos que havia planejado. Então, só restava lá. Revisou tudo de novo, com calma e cabeça de análise. Nada. Foi lá, concluiu. Rememorou. Tocou a campainha. Alertino abriu a porta sem desconfiança. Entrou. Conversa cordial, a princípio, até anunciar o que o levou lá. Houve olhar de surpresa, desconforto e reação ao estrangulamento, de breve duração. E se foi nesse momento? Aí se lembrou de vez. Houve mesmo um instante em que ele se agarrou à sua camisa, em desespero. É verdade. Ele a mordeu, lembrou. Foi isso. Então está lá no fundo do rio, dentro daquela boca morta. O que fazer? Ele pensou, curioso: peixes comem botões?
PESCOÇO
Ele a amava. Concluiu após os breves e elucidativos encontros, provocados por ela, diga-se. Ele pensava que não deveria se envolver. Ela era linda e desejada por meia escola. Por que logo ele? Não fazia sentido. Sua cabeça lhe gritava que aquilo não acabaria bem. Tudo começou no enterro de seu avô, um ano antes. Os amigos foram, claro, e ela também apareceu, gentil e discreta. Naquele dia, perdeu o velho, mas não o medo da interrogação que lhe era a misteriosa criatura. A bela moça não desistia, cercando-o com olhares e gestos, porém sua timidez, âncora de transatlântico, travava tudo. Ela lhe compartilhava textos, segredos, desfilava sorrisos. Ele resistia firme. Um dia, antes do treino de basquete dele, que ela assistia mais uma vez, criou coragem e se aproximou. Sem jeito, pediu que ela segurasse sua grossa corrente com crucifixo colado a uma meia cana de prata. Nunca usava no jogo. Presente do avô, algo que muito prezava. Ela ficou ali na arquibancada. Ele se concentrou no jogo. Uns bons minutos depois, olhou e ela não estava lá. Não mais a encontrou na escola naquele dia ou nos outros que se seguiram. Descobriu que os pais a retiraram da escola e saíram da cidade. Tudo rápido, sem muita explicação. Ele a perdeu sem nunca ter sido. Esperou que ela fizesse contato, mas não aconteceu. Eram tempos sem redes sociais. Os anos se passaram. Em outra época, aliás, outra vida, de tanto tempo passado, tomava café em uma praça de Berlim e ouviu seu idioma em uma mesa bem próxima. A princípio deu de ombros. Mudou quando reconheceu um tom de risada. Parecia impossível, porém, era ela. Só ela ria assim. Olhou bem e confirmou. Outra cor de cabelos, uns poucos quilos a mais, óculos discretos, mas não havia dúvida. Ela demorou a reconhecer o seu rosto marcado pelos últimos anos de recuperação do vício, cabelos e rosto maltratados, o olhar melancólico. Talvez tenha sido pelo gesto, desde a escola, de sentar-se com cotovelos sobre a mesa e as mãos envolvendo o rosto. Ele quis ir a ela. Nada daquilo fazia sentido, de novo. O grupo com que ela estava se levantou e ela veio em sua direção. Um cumprimento protocolar. Lhe apresentou o marido. Falou pouco e se despediu com o sorriso de sempre. Ele notou que ela seguia bonita, até mais encantadora. Notou também uma grossa corrente com crucifixo no pescoço do homem.
ESTAMPAS
Percival não havia tomado mais que três latinhas. Tinha ido ao sanitário do bar, pouco antes de sair. Lembrou bem que encontrou Chupimbigo na saída, já chamando Jesus de Genésio. Resolveu que andaria até em casa, cinco quarteirões dali. Trajeto tranquilo, apesar de já ser madrugada. Depois que passou a morar sozinho, não tinha preocupações com horário ou prestar contas aos pais. Era chegar, meter a chave e entrar para o seu mundinho caótico, semi-limpo, com cheiro permanente de fast food delivery. Estava no apê há apenas seis meses, tempo suficiente para ingressar no time de quem era contra o síndico (“aquele velho safado”), desejar todos os dias pegar a Roseli, sua vizinha de porta lateral, gostosa infinita, fã de heavy metal e dona de um perfume matador e odiar o Samuel, vizinho de porta da frente, obcecado por organização, colecionador de desafetos, desagradável a olhos vistos. O ódio agravou ao percebê-lo rival na luta por Roseli, e não foi de graça. O cara debochou em público de suas roupas e de seu jeito. Quase saíram na mão, mas não queria causar má impressão em Roseli. Na metade do terceiro quarteirão, sentiu a primeira pontada. Ela veio assim como o torquear de um parafuso, lento e forte. Colocou a mão na barriga e nada mais aconteceu. Depois de alguns passos, liberou os gases com vontade. Se fosse à luz do dia, seria preso, no mínimo. Acordou até um mendigo, que lhe elogiou de forma impublicável. Aliviado, retomou a marcha. Mal entrou no quarto quarteirão e a pontada veio bem mais forte, em camadas, com intervalos de segundos. Ele se acocorou em dores. Ao levantar-se soltou mais gases violentos. Tudo bem. Veio nova vontade e ele não perdoou, mas, ao mesmo tempo gritou: “não, não!”. Era tarde. Aquele lote saiu bifásico. Enojado, passou a andar como caubói, de pernas arqueadas e naquela dúvida se acelerava e corria o risco de deixar um rastro de horror pela calçada ou reduzia, arriscando-se a eventos ainda piores. Assim, claudicando, atravessou o quarto quarteirão. No início do quinto, a cólica foi tão violenta que aconteceram bifásicos involuntários. Em desespero de dor e constrangimento, contraiu o de lá ele como pôde e seguiu viagem com passo miudinho para não vazar nada. Só pensava no elevador e na porta de casa. Suores medonhos e gelados, mãos molhadas e olhos esbugalhados foram seus companheiros na reta final. O elevador estava no térreo, ainda bem. Pensou: “será que o porteiro percebeu o azedume?”. Uma eternidade até o décimo andar. E ele fingindo naturalidade, para que não transparecesse na câmera. Até sorriu, devagar, para não mexer no tênue equilíbrio muscular, que poderia colocar tudo a perder, ainda mais. Chegou voando à porta do seu 1001. Meteu aflito a mão no bolso e… nada. Procurou no outro e nos traseiros. Nada. Perdeu a chave! Como assim? Tentou se acalmar. Talvez tivesse caído ainda no hall do prédio. Ele poderia ter tirado do bolso sem perceber, na agonia de chegar logo em casa. Pensou em voltar de imediato ao térreo e usar o sanitário de visitantes. O elevador, ali, convidativo, ainda no seu andar. Ensaiou os primeiros passos e as cólicas inacreditáveis anunciaram: “perdeu, playboy”. Em um gesto de incrível habilidade, em conjunto com a velocidade de raciocínio, tirou sapatos e calça, mas não deu tempo para a cueca, que recebeu todo aquele estrume. Aquela poderia ser a primeira de mais levas. Ele não poderia ficar ali. Pensou rápido. Largou a cueca recheada ali, bem em frente à porta de Samuel e desceu as escadas, agradecendo o condomínio não ter aprovado as câmeras nos corredores e concluindo que não deveria ter comido o terceiro ovo cor de rosa do boteco. O cheiro medonho demorou dias para desaparecer do corredor e ele teve certeza de que foi ali que Samuel perdeu a corrida por Roseli. Por precaução, trocou seu estoque de cuecas estampada com bichos. No fundo, no fundo, claro que ninguém acreditou que Samuel usasse daquele tipo.
