Grandes demais

Eram muito grandes para se esconder. Assim que atravessaram a primeira área urbana, ainda perto da Reserva Natural de Mengyangzi, quatro drones começaram a segui-los feito insetos gigantes. As imagens divulgadas na TV aberta aumentaram a audiência vespertina  tanto quanto impulsionaram likes nas redes sociais. Não havia um motivo claro para partirem. Os elefantes têm o hábito de caminhar, isto é verdade, mas dessa vez, a líder os fez seguir muito além do que costumavam e a jornada foi durando bem mais que o esperado.
             No meio do caminho, nasceu mais um filhote e já havia dois outros que ainda recebiam cuidados das mães. Com a tromba, elas protegem e guiam as crias até que possam seguir a caminhada como os adultos. Eram agora quinze elefantes. No bando, o mais jovem depois dos bebês, obedecia aos comandos da líder, seguia os mais velhos, mas, às vezes, por alguma curiosidade ou distração, se afastava do grupo e compensava o atraso com passadas rápidas.

Caminhavam sem fazer ideia de que pudessem ser sedados. Não se sabe se algum dia teriam essa noção, talvez tivessem algum instinto. No entanto, o trajeto sem rota fixa era tão inédito que, por interesse científico e  pela produção de conteúdo nas redes, os cientistas e responsáveis pela preservação dos elefantes os deixaram seguir. Nos gabinetes, se discutia a praticidade da sedação e ao mesmo tempo, a crueldade do ato. Uma hora teriam que retornar e deixar de destruir cercas e plantações.

Na antiga fábrica de conservas, onde fizeram uma parada para alimentação e descanso, aconteceu um evento inesperado. O lado de fora do prédio vazio estava forrado de grãos fermentados que os animais ingeriram com a voracidade própria dos paquidermes. Impossível avaliar se sabiam das condições do alimento, mas as sementes tiveram quase o mesmo efeito do álcool sobre os humanos. Muitos do bando demonstraram sonolência e a parada precisou ser estendida até a tonteira passar. O bando só partiu de novo no dia seguinte.  


            Pelas ruas e avenidas, recebiam milhos e abacaxis para que não desviassem o caminho e deixassem de invadir e destruir propriedades particulares e públicas. Os trabalhadores que os acompanhavam instalaram cercas elétricas e criaram estradas artificiais para seguirem rotas mais seguras e fáceis de monitorar.  Não era assim que desejavam seguir. Só precisavam caminhar e caminhar. Aos poucos, eram desviados e voltavam para as florestas onde os passos ficavam mais seguros.

           Há quem os chame de máquinas comedoras, escravos dos próprios estômagos porque passam grande parte de suas vidas procurando pelos 150 a 200 kg de alimentação diária para a sobrevivência. Ora, imaginem se, em vez de tanto trabalho, o alimento chegasse até eles sem esforço. Ao passearem pelas cidades, no entanto,  ignoravam os lugares de comida fácil para os humanos e as lojas repletas de objetos lustrosos e iluminados que não eram comida. Talvez a líder tivesse uma espécie de intenção didática: mostrar ao bando o mundo fora da reserva, uma estratégia perigosa uma vez que as armadilhas humanas são eficazes para encantar. Os elefantes se deslocavam por outras razões além de comida e carregavam o peso de seu próprio corpo como sempre fizeram. Absurdo pensá-los como bichos de estimação passeando dentro de automóveis.

Durante o trajeto, foram muitos os comportamentos inéditos e difíceis de interpretar. Depois de todo o percurso, na volta, evitaram a água de um rio e atravessaram o Yuanijang por uma ponte, como se fosse a continuação natural do caminho que seguiam. Elefantes cavam com as patas dianteiras, puxam plantas e derrubam árvores que modificam o ecossistema por onde passam. Elefantes podem construir passagens, mas não constroem pontes. Elefantes conhecem e abrem caminhos sem provocar desequilíbrio e suas modificações no ambiente servem também a outras espécies. As ruas das cidades lhes foram estranhas, mas tinham obstáculos até que fáceis para continuar a seguir.


            À medida que a notícia se espalhava, outros drones foram deixando o céu coalhado de máquinas. As câmeras e os ruídos pareciam indiferentes ao bando e, numa noite, os animais tiveram a atitude inédita de se deitar para dormir. Elefantes são habituados a repousar em pé encostados a árvores ou rochas e o comportamento inesperado chegava aos homens como uma possível mensagem a ser decifrada. Nos noticiários, circulou que se deitaram pelo excesso de cansaço na dura jornada sem destino e especulou-se também que a vigilância dos drones os deixava seguros para relaxar sem precisarem se preocupar com surpresas. O que se conhece é que dormem em pé para que, caso surja algum perigo, possam fugir com facilidade.

 
           Depois de quinhentos quilômetros, a chefe foi tomando o caminho de volta como uma líder experiente, dona de absoluto controle sobre o trajeto e o grupo. O bando a seguia com obediência e aparente satisfação.  Os elefantes filhotes davam passos mais seguros , corriam sob a supervisão das mães e contavam com cuidados de outros.

  O passeio de quinze meses, que atravessou cidades com ruas e avenidas asfaltadas, soou como uma tentativa de a líder fazê-los percorrer um caminho que já lhes pertenceu e por onde outras gerações também seguiram ao longo de séculos. Tratava-se de uma espécie de reconhecimento e defesa contra as alterações num ambiente que sempre lhes pertenceu.  A jornada foi como um aviso, uma manifestação instintiva de que eles existem e querem continuar existindo e conservando o que já se conhece sobre seus hábitos: a alegria nos nascimentos, a tristeza na morte e a ansiedade em territórios desconhecidos. Depois do passeio, voltaram à reserva ainda mais elefantes do que  saíram.

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