Só se acha o que se perde

Acumuladora

Tropeça, cata, tropica, carrega. Tia Aninha das sacolas leva pra casa tudo aquilo em que encosta. Garrafa lascada, livro sem capa, garfo torto, gaveta quebrada jogada na calçada. Se ela tocar um treco com o peito de um dos pés, é dela. Ontem mesmo eu a encontrei. Ela carregava duas sacolas em uma das mãos e, debaixo do outro braço, um display mutilado. Era corpo de mulher, sem cabeça, sem parte da mão esquerda. Ela disse que colocaria perto do banheiro e que seria ótimo para pendurar as roupas antes do banho. Ela me perguntou se eu encontrei uma bolsinha de moedas. Achei curioso uma pessoa que encontra tanta coisa se lembrar do que perdeu.

Caderno de Anotações

Pamela encontrou uma caderneta sob a mesa. Tinha visto uma senhora se levantando dali quando chegou. Em tempo, correu para entregar. A senhora disse: fica para você, não preciso mais. Hesitou em ler naquele momento. Carregou na bolsa, guardou. Eu ficaria cheia de curiosidade. Pamela queria mais tempo. Imaginou quem seria aquela senhora, idade, seu nome. O fato é que Teresa perdeu seu caderno pois queria perder. Pamela encontrou o que não queria encontrar. Tomou seu banho, rolou os dedos no celular por quase uma hora. Assistiu vídeos de cachorrinhos fofos e dormiu. 

Anotações

A sessão acabava sempre que o assunto esquentava. Catava o caderno e continuava escrevendo. Eram anotações meio que perguntas e respostas, como se a analista respondesse algo objetivamente. Era uma brincadeira, quase infantil, quase revoltada. Tirando três vezes nos últimos sete anos, não recebia orientações diretas. Na verdade, nem sabe dizer se as três eram mesmo respostas, ou novas perguntas. Assim anotações passaram a brotar nos cadernos. Resolveu que largaria as anotações pela cidade. Cada caderno em um café, num bairro diferente. Quem sabe alguém utiliza, faz um filme ou série de tv? Alguém se interessa?

Achados e Perdidos

Foi ao setor de achados e perdidos. A senhorita Helena respondeu que ninguém encontrou uma capa de chuvas nos últimos dias. Tânia não se recordava da última vez que choveu. Guardava a capa de chuvas na última gaveta da escrivaninha por precaução. Abriu a gaveta hoje, precisou de uma Novalgina.  A capa não estava lá. Era daquele tipo de saco transparente, com um corte-capuz, dobrada e guardada dentro de um saquinho. Não existia previsão de chuva. A capa não foi perdida, sumiu. Abriu novamente a gaveta, meteu a mão até o fundo. Nada. Só pensou que para se achar alguma coisa, é preciso que a coisa seja perdida. Como um setor pode ter esse nome? A senhorita Helena continua lá, mas o setor se encontra vazio.

Livro sem capa

O livro sem capa questionava a própria identidade. Tinha páginas faltando, o que colocava sua vida exposta já pela quadragésima terceira página. Estar sem nome era desconfortável, mas ter sempre que avançar para contar todo o acontecido, angustiava. Ainda na praça, escapou de ser jogado no saco de lixo das folhas de árvores caídas. Sonhava em ser jogado lá. Vexame maior foi quando reparou que faltavam as últimas nove páginas. A obra terminava assim

Só se acha o que se perde

Olhou-se no espelho e não encontrou o viço. Não era possível dormir nova e acordar tão velha. O que perdeu enquanto dormia? Virgínia tomou seu banho, se besuntou de um creme amanteigado. Aroma: lavanda. Reparou ao redor dos olhos, enrugadinhos. O buço, um conjunto de risquinhos semelhante ao código de barras do último boleto que pagou. Massageou com raiva, não alisou. Pensou alto: só se acha o que se perde! No dia seguinte, parcelou a harmonização em 6 vezes sem juros. 

Manequim sem cabeça

Estava expondo um vestido transparente, algo que se veste sobre um biquini. Um corpinho de manequim, nada a mais, nada a menos. A roupa devia ser M, estava com alfinetes pregados nas ancas. Sabia, pois pinicava. Não tinha como se coçar. Se tiver sorte alguém despiria aquele vestido para alguma cliente provar. Como não tinha cabeça, sua parte pensante ficava entre a nuca e a garganta. A proximidade dos dois aparelhos, fonador e pensante, a impediam de falar. Conseguia ver com os joelhos e tinha uma articulação que permitia alguma mobilidade, desde que alguém a movesse. Não perdeu a face, na verdade, nunca teve. Uma vez passou o dia na frente da loja sem um dos braços. A vitrinista esqueceu de montar na hora que recebeu um emoji engraçado no whatsapp. A gerente só reparou quando chegou na loja no dia seguinte. Foi a partir desse dia que começou a sonhar com o dia que iriam reparar que ela estava sem cabeça. 

Dia de faxina 

Dia de limpar a mesa, abrir computador, pagar contas, deletar e-mails. Tudo pronto. Em menos de um minuto tudo foi apagado. O corpo espicha na cadeira junto com um frio que correu a coluna. Na sequência se encolhe. Antes de chorar, Carol inspira, expira, entra novamente na caixa de e-mail, agora no navegador, abre lixeira, vasculha todas as pastas. Nada. Não sobrou nenhum enviado, não sobrou recebidos. Abriu um arquivo em branco e tentou se lembrar do que precisava se lembrar. Não sobrou nem isso na memória.

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