macumba pra turista
Catarina encontrou seu livro a venda num sebo do Centro. Fez o que faria qualquer autor estreante: quis saber quanto custava. Depois o abriu e, na primeira página, procurou uma dedicatória. Nada. Apenas uma mancha escura, o nome do antigo dono, coberto meticulosamente com tinta de caneta preta. Na segunda folha um carimbo ex libris, sem qualquer tipo de disfarce ou pretexto, revelava o apelido que a página anterior tinha ocultado. Catarina olhou ao redor, se certificou de que estava sozinha. Leu e releu o nome, até ter certeza de que o tinha memorizado, depois devolveu o livro à estante do sebo.
ouvir clarins (no hay banda)
Catarina sonha com um aviso pregado com fita adesiva no corrimão da escada de cinco degraus em frente à igreja do seu bairro, a Paróquia Nossa Senhora da Liberdade, uma folha de sulfite tamanho A4 cuja cor originalmente branca o tempo manchou primeiro de amarelo depois de ocre. O aviso diria “cuidado: tinta fresca”, caso houvesse alguém pra ler.
how do you like your coffee
Enquanto beberica seu chá de cidreira, Catarina sonha com o dia exato em que, ainda jovenzinha, abandonaria de vez o hábito de botar açúcar no café.
A escola de inglês mantinha duas garrafas térmicas na recepção durante todo o período de funcionamento, uma com café e outra com chá mate. As bebidas eram pros funcionários mais do que pros alunos, mas alguns destes eram mais atrevidos e aqueles faziam vista grossa. Catarina já estava no último semestre e tinha acabado de encher apressada um copo descartável com café preto até a boca, quando a professora nova, uma loira que tinha quase a sua idade, brotou do seu lado, apertando o botão da garrafa de chá:
– Credo, Catarina, nadinha de açúcar? Sabe – disse a professora, quebrando o protocolo da escola a respeito de se falar em português com os alunos (nunca falar em português com os alunos) – eu tive um namorado uma vez, ele era assim igual a você, quer dizer, ele tinha umas manias estranhas, e só bebia café puro, sem açúcar. Credo. Ele não batia muito bem não, acho que era meio maluco – e mordeu a beiradinha do copo de plástico.
reprocissão
No sonho, Catarina caminha por um corredor com infinitas portas idênticas. Em cada uma delas, Catarina sabe sem que precise abri-las, existe uma versão mais jovem de si mesma. As adolescentes falam sozinhas, mas ficam em silêncio tão logo ela se aproxima, de modo que, quando Catarina cola o ouvido na porta, já não há mais nada pra ouvir. Por serem infinitas as portas, ela pode seguir até a próxima e tentar de novo, até o final dos tempos.
na ponta dos pés pelo jardim dos querubins
Catarina tem o olho esquerdo meio caído, levemente estrábico, mas não o tempo todo. Quando ela se olha no espelho, por exemplo, ou quando está posando pra um retrato, o olho sempre volta ao normal e se apresenta tal e qual o direito, mui adequadamente, de modo que Catarina nunca viu nada de estranho no seu rosto, não entende as piadas cruéis que algumas pessoas fazem sobre isso, não sabe que seu olho é como é, ou seja, não é como ela vê sempre que se olha no espelho.
catecismo breve
Catarina sonha que não sabe como se limpar depois de ir ao banheiro. Ela puxa o papel higiênico do suporte na parede e o desenrola até que ele atinja um tamanho que lhe parece adequado, nem muito grande nem muito pequeno, depois o dobra na metade, e na metade de novo e de novo, e, por fim, ela está segurando um chumaço de papel dobrado cujo comprimento e a grossura dão mostras de ser suficientes pra que ela se limpe sem que aquilo configure um desperdício de papel. Catarina esfrega o papel na bunda e analisa o resultado, depois dobra o papel sujo de merda ao meio e se limpa com ele mais uma vez e ainda outra. Repete o procedimento todo mais duas vezes, até que o papel volte imaculado de dentro do buraco da privada, por entre suas pernas. Ela então se levanta e dá a descarga, sem saber se tudo aquilo que acaba de fazer está correto e sem ter ninguém pra quem perguntar.
princesa
Em certa altura de sua vida, Catarina trabalhou como frentista num posto de combustíveis que ficava na Avenida São Paulo, na parte velha do Novo Centro. Ela costumava comprar minúsculos patinhos de borracha pela internet e enfiá-los discretamente nos tanques que abastecia. Mais tarde, em casa, ela chutava pra longe suas botinas de segurança, se sentava no sofá e, enquanto esperava ferver a água que seria um chá de cidreira, imaginava seus patinhos de borracha rodando pela cidade, dentro dos carros, das motos e das caminhonetes, formando um desenho clandestino e absurdo num mapa que não existia. Gostava de imaginar quão longe os patinhos poderiam ter chegado. Ninguém nunca desconfiou da sua conduta. Ocorre que o posto ficava num terreno gigantesco, numa região muito nobre da cidade, e, como não podia deixar de ser, não demorou pra que alguém resolvesse demoli-lo pra dar lugar a um imenso edifício, que viria a ser um dos maiores do estado e de cuja cobertura ainda se poderia observar, por sobre os outros prédios e se o tempo não estivesse nublado, a estrada por onde chegavam e partiam os carros e até mesmo a vegetação do entorno e além.
