Meus semelhantes

Três vezes por semana, ao longo de uma hora, a academia é um cativeiro onde encontro oportunidade de conviver com espécies semelhantes à minha. Ali estamos agrupados por idade, quase como os passageiros sentados nos bancos amarelos da porção do ônibus que antecede a catraca. Repito movimentos de braços e pernas enquanto observo os congêneres, os professores, os auxiliares e os funcionários. Quase sempre são os mesmos, o que torna o exercício diferente daquele que faço quando me sento no banco de um parque e vejo passar gente das mais variadas categorias.

11/03

 Hoje notei cinco pessoas novas. Três visitantes se reciclando,  o professor que orientava o grupo e o homem alto e calvo com mais de sessenta anos. Neste último,  o contraste entre a  bermuda de flores azuis e a polo vermelha pesavam mais que o seu corpo obeso. O novo frequentador não parecia à vontade na roupa.

Imaginar é um exercício que ameniza o tédio dos movimentos.

13/03

Revi o novo aluno. Ele usava a mesma bermuda, mas substituiu a camiseta por uma polo azul-claro tão larga quanto a vermelha da terça-feira. O grupo de visitantes estava lá mais uma vez acompanhando as explicações do professor baixinho que compensa a falta de tamanho com um topete de quatro centímetros. A presença deste grupo faz atrasar o uso de alguns equipamentos.

Uma moça com um Popeye tatuado na coxa direita e um coração hiper-realista na panturrilha esquerda fazia sua primeira aula orientada pelo mesmo professor que me apresentou aos aparelhos. Perto da maioria ali presente ela é jovem, talvez uns 40 ou 42. A idade ajuda a baixar, mesmo que infimamente, a faixa etária dos alunos. Não sei se ficou claro, mas se trata de uma academia voltada principalmente para “pessoas mais cinquenta”. Do mesmo time e ainda mais jovem, está o rapaz tímido, alto de barba quase ruiva que vai acompanhado da mãe. Deve ter perto dos 30 anos e aparenta algum tipo de fobia social. A mãe é simpática e um pouco atrapalhada nos exercícios.

18/03

Hoje os visitantes não estavam, o que deixou o ambiente um pouco mais vazio e tranquilo. Mesmo assim, demorei para conseguir minha vez nas cadeiras extensoras e nos gêmeos.

Dona Ondina dos cabelos brancos e fofos estava com seu terceiro modelo de fivela. Há duas semanas, foi uma  de estrasse no corte Chanel sem franja que me chamou a atenção para a sua presença. O acessório brilhava com a luz do sol pelas janelas. Soube que tem 94 anos. Semana passada ela usava um tic tac vermelho e hoje uma pequena piranha preta que,  de longe, sugeria uma  mosca mergulhando num mar de cabelos.

A maioria das mulheres usa o corte Chanel, em segundo lugar, temos os cabelos curtos , que variam entre os comportados e os rebeldes. As demais preservam os modelos compridos e suponho tenham o mesmo corte desde a adolescência. Entre os homens, uma variação de carecas, calvos e raspadinhos . Raramente se vê um boné e as bermudas são constantes, principalmente as de estampa florida que talvez lhes façam sentir uns vários anos mais jovens. No entanto, a frequente combinação com camisas polo os traz de volta ao que o RG não nega. Entre todos eles, há um único que prefere a regata, outra comprometedora forma de vestir.

Para todos os gêneros, temos também as camisetas de viagem, que podem ser presente dos filhos ou uma aquisição própria dentro ou fora do país. As estrangeiras dão conta dos cinco continentes. As do Brasil, abrangem quase todas as capitais e cidades de turismo.  Mais raras são as camisetas com frases ou personagens. Um das que as usa é certamente um  fã do Tin Tin.

 Nos aparelhos, entre uma série e outra, no pequeno intervalo de descanso, alguns expressam um olhar catatônico que às vezes me incomoda. Olho para eles e incorporo uma mesma sensação de vazio. Procuro me vigiar para não parecer tão ausente. Prefiro concluir que este olhar acrescenta um relaxamento ao exercício. Alguns ultrapassam um tempo admissível.  Nestas ocasiões, não é o vazio que se apresenta e , num crescente de impressões, penso em folga, preguiça ou depressão. A gente quer fazer o exercício e está lá um semelhante encantado olhando para o nada e atrasando todo mundo. Nem o plim das anilhas os desperta.

Voltando aos cabelos, nenhum homem usa tinta enquanto, entre as mulheres, 85% tinge a cabeleira e 10% erra na cor.

21/03/2025

Faltei na quinta e compensei na sexta. Ir num dia diferente traz também personagens novos. Os frequentadores são outros. Dos conhecidos, só os professores e a aluna que costuma fazer as aulas com um top de ombro só e, só de olhar, já acho o modelo incômodo. Fico com a sensação de que apenas um dos ombros recebe a carga de exercícios. Parece que há um desequilíbrio que, no caso, se apresenta ainda maior, pelos seios fartos da moça, cuja idade deve ser próxima à da aluna com o Popeye e o coração tatuados.

Os demais frequentadores se dividiam quase igualmente entre homens e mulheres. Talvez mais mulheres que homens. Duas delas tinham postura de ratas de academia, qualquer coisa no modo de andar e segurar os pesos lhes dava um ar de superioridade e enfado. Tirando as duas, os outros pareciam conformados com suas séries de repetições e satisfeitos por almejarem músculos fortes mesmo que nem tanto. De músculos fortes de verdade, só os professores, os tantos acima dos cinquenta têm pouca massa para exibir.

01/04/2025

Cheguei quase cinco minutos atrasada e isso fez diferença. Não pude começar pelo Press Peitoral, que é o primeiro da minha ficha. Não só da minha, mas de todos os que fazem as aulas. Olhei para os aparelhos ocupados e comecei pela alternativa daquele que se chama Desenvolvimento e te faz sentir um super herói levantando com os dois braços uma pedra, um corpo, um carro ou um avião. No meu caso são dois quilos e meio

 Existem alternativas por onde começar, mas gosto de seguir a ordem como se fosse alguém que sofre de algum transtorno obsessivo. Como até onde sei não tenho o problema, uso da desordem como um treino para tolerância e ansiedade.

O Desenvolvimento fica num lugar que permite uma visão bem ampla de toda a academia e, por isso, pude entender por que hoje o acesso aos aparelhos estava mais lento. Não é justo colocar a culpa numa aluna nova, mas a mulher com blusa listrada amarela e preta, que me lembrava uma abelha, levava o dobro de tempo em cada aparelho. Um tanto porque conversava muito com o instrutor e outro tanto pelos movimentos lentos.

A caminho da Remada Sentada, cumprimentei a moça com rosto de boneca de louça, uma outra que ainda não chegou aos cinquenta.  Esta moça com rosto de boneca de louça  tem também cabelos de boneca de louça. Dia desses a encontrei na rua e ela usava um vestido branco de laise  que a tornava ainda mais parecida com uma boneca de louça. Deve ser estranho ter rosto e delicadeza de um tipo de boneca tão fora de moda.

08/04/2025

De longe, vi que a fivelinha no cabelo de Dona Ondina era diferente das três outras que já contei, mas hoje não tive a chance de vê-la de perto para comprovar.

 Às vezes acontece de algumas cores de camiseta coincidirem. Quatro pessoas usavam roxo em tons que iam do mais escuro ao mais claro criando um efeito “composé” curioso.

 O semelhante que usa óculos com armação de madeira, deve ter saído de casa às pressas. No lugar dos tênis, usava uma papete com meias esportivas pretas que surpreendentemente combinavam com o contorno da estampa de flor na sua bermuda.

10/04/2025

Dona Ondina estava com duas fivelas brancas como os seu cabelos. Cada uma prendia um lado das mechas repartidas ao meio. Dona Ondina mudou o penteado. O homem fã do Tintim estava com outra camiseta do personagem. Já conheci três diferentes. Esta era branca com ilustrações em preto que não observei o suficiente para descrever com detalhes. Ia ficar feio ficar olhando. Era o Tintim e o Milu, seu fiel cachorro. Isso eu consegui ver e me passou pela cabeça que mais do que fã do personagem ele é quase uma versão real do Capitão Haddock com barba e cabelos brancos. São mesmo parecidos e pode ser a semelhança que faça com que a cada aniversário, dia dos pais ou Natal ele ganhe mais uma camiseta para a coleção.

Não me lembro de ter observado algum novo frequentador. O mais recente, o homem de bermuda florida e camisa polo vermelha já está familiarizado com os aparelhos, mais até que a mulher do paninho e álcool, que deve gastar mais calorias esfregando assentos e manoplas que propriamente se exercitando.

15/04/2025

Ir sem óculos à academia é um exercício para os olhos, um treino daqueles em que se faz cara feia, aquela que se faz por apertar os olhos. Só pedi ajuda uma vez e consegui cumprir a sequência de treino. Ao contrário das letras, vi as pessoas mais nitidamente.  Dona Ondina usava o cabelo repartido do lado e um único tic tac azul prendendo a franja. Dona Ondina mudou o corte.  Elisete é o nome da mãe do jovem que treina por lá, aquele dos cabelos e barba quase ruivos. Nem todas as pessoas que treinam às terças treinam também às quintas.

Há umas pessoas tão sérias que mal consigo falar delas. Como a mulher que nitidamente fez uma harmonização facial e tem os lábios inchados se destacando no rosto de maçãs altas e olhos quase oblíquos sob sobrancelhas desenhadas. Tem os cabelos curtos num tom avermelhado. Nunca a vi interagindo com ninguém, nem sorrindo. Ela caminha com passos curtos e certamente já passou dos setenta. Ninguém deixa de ter a idade que tem por que fez procedimentos no rosto.

O fã do Tintim usava uma camiseta básica de mangas pretas sem estampas, sem personagens. Não era a sua roupa o que eu olhava , era a de todos e o suor em todas. Cada  qual com seu desenho nas costas, axilas e barriga. Rodelas sob as mangas, manchas abstratas nas costas e riscos verticais na frente. Uns parecem que não suam e as camisetas estampadas disfarçam as marcas. O ar condicionado ameniza o calor.

Há duas mulheres altas que suponho serem primas ou irmãs, mas que podem nem ser primas, nem irmãs. Elas se abraçam quando chegam e conversam bastante entre os aparelhos. Uma delas, a mais alta, que tinge os cabelos de um louro escuro meio avermelhado, sem maldade, me lembra uma galinha. Levei dias observando até chegar a esta conclusão. É engraçado quando associamos a aparência das pessoas à aparência dos animais. Como já disse, não é por mal, mas agora não consigo vê-la de outra forma. Vez ou outra, a procuro entre os equipamentos para confirmar a minha impressão e ela continua valendo. Depois dela, busquei outras pessoas com aparência de bicho e quando envelhecemos isso se torna mais fácil. Aula passada, na recepção reparei numa mulher que me lembrava um pequeno urso.  Que bicho eu serei neste cativeiro?

O mesmo esforço que faço para ir à academia, faço aqui para escrever.

Deixe um comentário