
Li e reli e tresli e continuo achando “O olho na garganta”, de O Bom Mal, da Samanta Schweblin (trad. Livia Deorsola, Fósforo), um dos melhores contos que já li na minha vidinha de ledor de contos. É um texto perfeito. Imortal. Ele é tão rico que pode ser usado para estudar criação de clima, realismo fantástico, foco narrativo, arco de personagens, relações parentais, paternidade, masculinidade tóxica – e culpa. E perdão. É um milagre.
É bom lembrar a epígrafe do livro, de Silvina Ocampo: “O estranho é sempre verdadeiro“.
Se quiser piratear o livro, este é o link.

O olho na garganta
O meu pai atende o telefone. Ele tem vinte e sete anos e, como faz todo
mundo nos anos 90, pega o fone sem saber quem está ligando. As
pessoas telefonam e dizem sou eu, Carmen, ou sou da agência dos
correios, ou dizem bom dia, queria confirmar seu horário. Mas, à
noite, se o telefone toca e o meu pai atende, ninguém responde. Ele
espera com o fone na orelha até que cansa de ficar assim sem fazer
nada ou de fazer perguntas em vão, ou até mesmo, às vezes, de soltar
uns palavrões. Baixa o fone sobre o aparelho e, embora o clique
mecânico dê por encerrado o assunto, pressente que há algo mais. O
silêncio que lhe telefona todas as noites fica grudado nele ao longo do
dia, e ele não consegue parar de pensar em Morris. Nele e nas três ilhas
de bomba de gasolina do posto de serviços de General Acha, as
mangueiras penduradas nas argolas, as luzes noturnas dessa YPF[1] da
interminável estrada do pampa argentino. Para o meu pai, o silêncio é
um aborrecimento traiçoeiro, e os telefonemas, um longo enigma que
lhe acompanharia por quase vinte anos.
É uma época em que poucos artefatos domésticos são capazes de
funcionar sem cabos. Oculto dentro da bateria, e a bateria, por sua
vez, oculta em pequenos compartimentos plásticos, o lítio é um
elemento imperceptível e encapsulado, pulsando em silêncio em
centenas de milhares de corações metálicos aos quais ninguém está
prestando a atenção que deveria. As pessoas se esquecem deles, e, sem
bateria à vista, neste bairro de El Bolsón e em todas as cidades do
mundo, essa nova forma de energia parece um milagre singelo.
Para que o telefone não toque, antes de ir dormir o meu pai
desconecta o aparelho e volta a conectá-lo no dia seguinte. A família
inteira vela pelo meu sono, assim como os médicos e a mulher que vem
fazer a faxina. Como o menino passou a noite? Dormir é perigoso.
Relaxa a minha laringe aberta, os músculos ainda fracos, tendões que
nunca mais se curaram. Se me sufoco, acordo. Mas o que é, na verdade,
que me sufoca?
Às vezes a minha mãe atende e a chamada se interrompe
imediatamente. Quando por algum motivo o meu pai se esquece de
desconectar o telefone e ele toca, sabemos que toca só para ele. E o
meu pai, que é representante de vendas e cujo trabalho consiste
sobretudo em ler na cara das pessoas coisas que as pessoas não sabiam
que tinham escritas, fica escutando esse silêncio sem cara com o fone
um bom tempo na orelha, aterrorizado pelo próprio desconcerto.
Quase seis meses antes de começarem os telefonemas, tenho dois anos
e estou sentado diante da tela de uma Grundig na sala da minha avó
paterna. Enquanto me distraio, engatinho e ando cambaleando,
investigo cada objeto com que me deparo, toco tudo o que esteja ao
alcance das minhas mãos. A qualquer pessoa que esteja cuidando de
mim, a minha mãe diz “por favor, preste atenção”. Inclusive diz isso ao
meu pai nesta tarde, duas vezes, antes de nos deixar na casa da vovó.
Os desenhos animados ecoam na sala e me entretêm só de vez em
quando. Da sala de jantar, o meu pai conversa com a vovó sem deixar
de controlar o que estou fazendo, sempre atento aos meus
movimentos, à minha constante conversa com as coisas que me
rodeiam.
Quando não entendo com clareza a função dos objetos, eu os
chupo, mordo, bato uns contra os outros. Os chinelos contra o
controle remoto da televisão, o controle remoto contra a calculadora
da estante, o relógio da vovó na boca e, antes de largá-lo no chão, eu o
bato algumas vezes no tapete. Os objetos para os quais consigo
encontrar uma função, esses, sim, me acalmam. As bonecas russas da
prateleira inferior se desmontam, vão uma dentro da outra, voltam a
se fechar. É complexo encaixar as peças, mas há um desejo de
plenitude nessas formas capazes de se separar em dois, e em seguida
outra vez se unir, que me fascina ainda mais que os números digitais
da calculadora ou a tela da Grundig.
Basta um longo silêncio para que o meu pai vire para trás. Sentado
em frente à televisão, rodeado de objetos espalhados pelo chão,
descubro que ele está assustado. Levanta, vem na minha direção num
pulo, afinal o que acontece não é uma birra, isso é o que ele
compreende num piscar de olhos. Não é aquele silêncio que antecede o
choro. Ele vê a minha cara, vê como in9o as bochechas até ficarem
vermelhas, alguma coisa está acontecendo. Ele demora alguns
segundos para entender que estou me sufocando, que não consigo
respirar. Fecho uma de minhas mãozinhas em punho e bato na boca
desajeitadamente.
“O que você fez?”, me pergunta.
Tenta abrir o meu punho, a minha boca. Eu escapo, ele me pega.
Força os meus dedos para me fazer abrir a mão. De repente engulo,
engulo alguma coisa, e o meu pai me olha com terror.
“O que é isso? O que você engoliu?!”
Meus olhos se enchem de lágrimas.
“O que você engoliu?”
“Nada”, digo.
A minha voz é tão doce que parece sincera, a recordação dela
interrompe tudo cada vez que volta. Um som que me pertence, mas
está quebrado. Ação e consequência, cena após cena, a partir de agora
o meu pai e eu nos lembramos de tudo com a nitidez de um alarme que
ninguém mais poderá desligar. Digo “nada” e me comove o milagre da
minha língua tocando o céu da boca, o ar descendo pela traqueia até os
pulmões e a vibração das minhas cordas vocais.
O meu pai me segura e eu deixo, ainda confio nele. Abre a minha
boca porque quer olhar dentro, quer acreditar que não tem nada ali,
nem agora, nem um momento antes, mas ele precisa ter certeza.
“Diga a verdade, é importante”, ele fala. “Você engoliu alguma
coisa?”
Digo que não.
“Não engoliu nada?”
Parece uma pergunta diferente, mas intuo a armadilha e dou a
mesma resposta.
Em El Bolsón, e em todas as cidades do mundo, nesta época em que
quase tudo o que funciona está unido por cabos às paredes, não existe
um lugar para o qual possamos telefonar para a mamãe. Se queremos
saber a opinião dela, é preciso esperar que ela chegue. O meu pai pensa
“o garoto está bem”, “o garoto está bem”, é um mantra silencioso
batendo por dentro das têmporas. Sentado, mas destruído, exausto de
tanto imaginar o pior, ele se acalma registrando como volto a me
distrair, brincar, rir, pegar o gomo de mexerica que ele deixa na minha
frente, eu o levo à boca e o engulo sem nenhum problema.
Apenas à noite, já em casa e depois de jantar, começo a tossir. Mais
tarde, deitado na cama, acordo com ânsia de vômito, e então, por
precaução, “vai que”, diz mamãe, e “melhor prevenir”, pensa o meu pai,
me levam ao pronto-socorro. Um médico me ausculta. “Parece que
está tudo bem”, ele diz, sorrindo para mim com simpatia, “voltem se
houver sintomas.” Ele me aperta uma bochecha. “Ou amanhã, se ele
não eliminar nada por via fecal e os vômitos continuarem”, ele diz já na
porta do consultório, procurando com o olhar o próximo paciente.
Com um garfo, mamãe amassa minuciosamente cada uma das
fezes. Ela me ausculta como viu o médico fazer, mas com os ouvidos.
Grito de prazer por causa das cosquinhas desta orelha gelada na
barriga, no peito e nas costas, e, entre uma risada e outra, continuo
tossindo. Mamãe, que aprendeu que cuidar é entender o que fazer e
por que é preciso fazê-lo, me ausculta várias vezes com a angústia de
não saber o que é que está procurando. Fica a9ita. Precisa de uma
segunda opinião. Para ir ao clínico geral esperamos até o dia seguinte,
e no dia seguinte mamãe obtém o mesmo diagnóstico.
Na manhã do terceiro dia, amanheço a7ônico e com um pouco de
febre, à tarde começam as dificuldades respiratórias. Mamãe liga para
o hospital, desta vez os médicos se preocupam. Vomito na sala de
espera, me atendem diretamente na sala de raios X. Um médico
pendura a radiografia na frente da minha mãe, sobre uma caixa
luminosa. A placa é de um preto denso que mal revela os ossos
torácicos e as sombras de alguns órgãos. No centro, suspensa entre as
clavículas, há uma circunferência branca e perfeita, tão cheia de luz
que as lâmpadas da caixa vibram através dela. É uma centelha que o
médico aponta com preocupação, bem abaixo da minha garganta:
pequena, chata e redonda. O meu pai não para de pensar nela quando,
depois de nos levar para casa, vai à casa da vovó e revisa todos os
objetos com os quais estive brincando. Ele abre e fecha o relógio
digital da bancada; abre e fecha o compartimento das pilhas do
controle remoto da Grundig; abre, mas não fecha, a tampinha traseira
da calculadora. “Como você sabia que não estava funcionando?”,
pergunta a minha avó, que liga os pontos com rapidez e entende por
que o filho fica ali parado sem dizer nada.
A cento e vinte e dois quilômetros de El Bolsón, em Bariloche, uma
cirurgia é agendada por telefone para o dia seguinte. Viajamos de
madrugada para estar no hospital na primeira hora. Já na internação,
há alguns minutos em que fico sozinho. Talvez seja a primeira vez que
fico sozinho em um lugar que não é o meu quarto ou o da vovó. Estou
deitado em uma maca, no corredor que leva à sala de cirurgia. A
enfermeira responsável notou que não está com as planilhas médicas e
volta por um momento para buscá-las. Não estou assustado. Olho o
tubo de luz do teto, tão espetacularmente longo e cintilante. Estou
consciente de que faz alguns dias que quase não falo, mas sei lá eu o
que é normal e o que não é. Um menino na televisão disse ontem que há
dentes falsos que caem para que saiam os verdadeiros, talvez a gente
também pare de falar antes que as primeiras palavras verdadeiramente
adultas cheguem. Talvez todas as crianças da minha idade passem,
cedo ou tarde, por um corredor assim, e esse tubo alto e longo tenha
uma função específica sobre o meu corpo. Talvez, como dizem os
médicos, a questão seja esperar.
Uma anestesia me põe para dormir, um cirurgião e dois assistentes
realizam uma perfuração traqueoesofágica e retiram a bateria. A
umidade interna do corpo pôs em andamento a corrente da pilha, que
perfurou o esôfago com uma queimadura escura e profunda. O lítio,
oculto em seu coração metálico, foi liberado. As cordas vocais estão
danificadas e há lesões na laringe, por causa do re9uxo. Consertam o
possível, fazem minuciosas anotações, prescrevem medicamentos.
Depois de uma segunda intervenção, fico entubado. Passo três dias na
UTI. É preciso baixar com urgência os níveis de toxicidade irradiada
aos órgãos conectados ao esôfago. Mamãe anda de um lado para o
outro da minha cama. Não consegue sentar, não consegue pensar.
Como as sequelas na laringe foram graves, e os problemas
respiratórios continuam, decidem fazer uma traqueostomia em mim.
Acordo seis horas depois e as minhas mãos vão direto para a
garganta, embora o que coce tanto esteja um pouco mais abaixo. Eu
procuro, apalpo, toco e descubro o plástico. Uma protuberância aberta
que agora é parte do meu corpo. Pedem-nos paciência, nos liberam.
Para a transferência a Buenos Aires, as coisas terão de ser resolvidas
com antecedência, de casa.
Tudo foi feito tarde demais, ninguém diz isso, mas todos sabem.
Enquanto crianças da minha idade começam a brincar com palavras
mais complexas, descobrem a força do tom e o luxo dos silêncios
intencionais, eu perco para sempre as poucas palavras que havia
aprendido. Não choro, não estou assustado, não entendo as
consequências e ainda há muitas coisas deste mundo que me
maravilham de curiosidade.
Gosto que me deem banho. Gosto que meu pai sente nesse banco
diminuto que lhe foi designado por mamãe e que dali me segure sobre
a água para me ensinar a 9utuar. Apesar do esforço de ambos, ainda
não conseguimos, embora isso seja algo que nós três ainda
acreditamos ser possível. De modo que eu, sustentado pelas palmas de
suas mãos, continuo tentando in9ar a barriga de ar. Tudo o que ele
teria que fazer é me soltar, e mesmo assim não consegue, não se
acostuma ao seu tormento: o meu pai mudou. Esquiva-se dos meus
olhos, com o cenho franzido se concentra na protuberância plástica da
traqueostomia. “Não pode entrar água”, ele pensa durante o banho, e
no escritório pelas manhãs, e no supermercado antes de voltar para
casa, e no carro quando está para sair, “não pode entrar água”. Ele
segura o meu corpo, que boia sobre suas palmas, evita o meu olhar, que
diz: “Por favor!”, “Por favor!”, “Por favor!”. Eu quero que me solte, e ele
não sabe como. Perdeu certa capacidade cujo circuito está conectado
também ao abraço. Não consegue me soltar nem me segurar. Tenho o
mesmo tamanho de uma semana atrás, mas há algo em seus abraços
que já não me reconhece, algo que está desajustado. “O que foi,
papai?”, “O que foi?”, “O que foi?”. Quero saber, sempre pergunto, é a
minha garganta a que não pode executar os sons. É como se o espaço
da casa toda entrasse por esse buraco. É preciso ser capaz de
comprimir o ar para que o silêncio soe como alguma coisa, mas estou
tão aberto que às vezes me confundo, estou dentro ou estou fora? Um
corpo assim, furado, continua sendo um corpo? Na verdade, dá no
mesmo, o problema não é que não consigo falar, o problema é que se
não falo, ele não me olha.
Mamãe percebe o que está acontecendo, ou o que não está
acontecendo mais, entre mim e meu pai. Mas o que ela pode fazer?
Desde o começo, desde o dia em que larguei as paredes e tive coragem
de andar sem me segurar em nada, corro para o meu pai. Busco a
loucura desse prazer intenso que começa com ele me segurando de
barriga para baixo com um pé só, com toda a energia de sua mão
agarrada ao meu tornozelo; ou atacando as minhas costelas com os
dedos; ou grunhindo com seus lábios apertados contra a minha
barriga, tão forte que a vibração de suas cordas vocais me faz tremer
todo por dentro. E um momento antes desse prazer intenso, a
dramatização conjunta: meu pai, que me descobre no colo de mamãe
ou abraçado às pernas dela e me olha com rancor, ofendido. Eu, que
grito de prazer e penso “começou!”, “vai acontecer!”. E então ele solta
seja lá o que tiver nas mãos, deixa cair tudo no chão, se agacha e
escancara os braços para mim. Ele me treinou nesse desespero de
correr para ele. Fiz uma anotação 7ísica e mental que diz: “Qualquer
coisa que aconteça, ele vai me salvar”, “Qualquer coisa que aconteça,
ele virá seja lá onde eu estiver e vai me salvar”. E guardei a anotação
entre o coração e a coluna vertebral, bem ali, onde está tudo
comprimido.
Dói em mamãe a minha preferência, embora tudo que me faz feliz a
faça feliz também, como tudo o que me faz sofrer a endurece. Agora
que não existe mais nenhuma dramatização, que os abraços do meu
pai estão desajustados e já não podem me soltar nem me segurar,
mamãe tenta falar com ele. À noite, ela senta na cama e diz “o que você
tem?”, “onde está com a cabeça?”. Ela pergunta com dureza, com a mão
segurando uma contratura que desce da nuca e se espalha em direção
aos ombros. Anda desse jeito também de manhã, quando prepara o
ca7é. Com os dedos no pescoço e o cotovelo apontando para o céu,
mamãe parece um boneco pendendo de sua própria mão. Andará assim
todo o verão, somente no fim do outono aprenderá a ignorar a dor, e
no inverno deixará ambos os braços caírem para os lados, as mãos
soltas mas dispostas, ocupadas o suficiente para não revelar nunca sua
resignação.
Meio ano depois cabeceio de sono na minha cadeirinha do banco
traseiro do carro. Meus catorze quilos e duzentos cruzam o deserto até
Buenos Aires a toda velocidade. O meu pai dirige. Está cansado, e a
viagem acaba de começar. Mamãe se distrai com a fotografia muda e
sépia da paisagem, sente-se tranquila dentro do carro. Qualquer
espaço fechado, meticulosamente inspecionado por ela, é zona livre de
ameaças.
No Hospital Italiano de Buenos Aires é feita a terceira cirurgia. De
todas as vezes que estarei exposto ao centro cirúrgico, quatro no total
ao longo dos meus primeiros seis anos de vida, esta será a única em
que realmente terão esperança. São pais aos quais ainda falta
informação para entender o que está acontecendo. Acreditam que um
corpo jovem será capaz, com o tempo, de se restabelecer, e é essa única
ilusão, e nada mais, o que os mantém juntos.
Instalam-se em um quarto de hotel a alguns quarteirões do hospital
e descansam por turnos para que sempre tenha alguém comigo.
Continuo tranquilo, porque qualquer novidade me alegra, e
desconheço as consequências desse desastre compartilhado que só
cresce. Produzo ruídos em vez de pronunciar palavras, presto atenção
em cada detalhe 7ísico quando as pessoas falam, copio tudo com
devota precisão.
“Está entendendo?”, o meu pai me pergunta algumas vezes,
sentado ao lado da minha cama. Ele não olha para mim nem espera
respostas. Em voz alta, lê livros infantis, o jornal, artigos de revistas.
Às vezes fica em silêncio, ou dorme. Quando me olha, eu rio. Quando
fala comigo, eu rio. “Me ame”, “Me ame”, “Me ame”, penso. Não pode
me escutar. O estado de alarme do meu pai ficou aceso e abafa
qualquer outro som. Eu teria que poder perguntar “o que você tem?”.
“Onde você está?” “Estou bem.” Como não consigo falar, contorço o
meu corpo, a minha cara, os meus gestos. Ele desconhece minha
linguagem corporal aprimorada, e meus ruídos pela traqueostomia o
deixam consternado. Acorda e levanta a cabeça de repente, não parece
que acabou de voltar de algum lugar, mas sim que não consegue
acreditar que ainda está no mesmo lugar. Sorrio, rio, mas o meu bom
humor também o martiriza.
Assim que nos dão alta, entramos no carro de novo para voltar a El
Bolsón. É um longo trecho de mil e setecentos quilômetros a que
fomos nos acostumando, atravessamos La Pampa todo verão para
visitar os meus avós maternos, que vivem em La Plata. No posto de
serviços de General Acha é preciso encher o tanque de qualquer jeito.
Porque nos anos 90, além de todos os cabos estarem conectados às
paredes, a gasolina rende pouco, os carros consomem muito, e esse é o
último posto até Neuquén.
Pouco antes de pararmos para abastecer, começo a bocejar. Para os
meus pais isso não é um evento qualquer, é um milagre. Porque embora
eu consiga adormecer no carro, e de fato, uma vez que me renda, possa
dormir por horas, tem alguma coisa no ronronar do motor que, em vez
de me relaxar, me agita e me impede de me entregar ao sono. Então
mamãe faz uma coisa que ela adora: inclina o encosto do banco e se
arrasta até o banco traseiro, me tira da minha cadeirinha, senta em um
lado e me deita em suas pernas. O meu pai costumava advertir, “é
perigoso”. Ele dizia isso uma vez, depois outra, até que ela me prendia
de novo na cadeirinha e voltava ao banco do passageiro. Mas parece
que o meu pai não sabe mais distinguir o que é perigoso do que não é. E
como ninguém reclama de nada, ela cobre nós dois com a minha manta
amarela e ficamos juntos no banco traseiro. Eu me mexo para um lado
e para o outro, parece que vou acordar. O cansaço da minha mãe é um
fardo tão pesado que compete com seu instinto de proteção. Ainda me
segura, mas quase parece que poderia me soltar, mergulhar em seu
sono e me deixar cair. Não é o que ela faz, aguenta, me abraça, e em
algum momento desta interminável linha reta da rodovia 152, “oh,
milagre, até que enfim”, pensa a minha mãe, adormeço
profundamente.
Quando chegamos ao posto de serviço já é noite e há fila para as
bombas de gasolina. É uma sexta-feira na alta temporada e entre os
barulhos de portas abrindo e fechando, gente falando e telefonando,
os meus pais fazem todo o possível para eu não acordar. Bem devagar,
mamãe se afasta, me põe deitado no banco e me cobre com a manta
amarela: dos meus pés, que estão sempre frios, até a cabeça, para que
as luzes da estrada não batam nos meus olhos.
Ela se debruça para a frente e sussurra:
“Quer um ca7é?”
O meu pai vira e fica olhando para o cabelo dela, que cai solto e
comprido sobre o peito. Depois desta viagem, ela o terá sempre curto,
deixará de dividir com ele a cama para dormir em um colchão no chão,
ao meu lado, e o pressionará com demandas impossíveis até que a ele
não reste alternativa a não ser aceitar a separação.
O meu pai está tão exausto que demora a responder.
“Sim, um ca7é então”, sussurra mamãe, o que significa que já
escolheu alguma coisa para ela.
Ele a observa descer do carro com cuidado e afastar-se, até que
buzinam para avisar que é a nossa vez. Ele pensa: “Você só precisa
voltar e ligar o motor e mover o carro até as bombas de gasolina”. O
cansaço 7ísico que sente é escuro e ameaçador.
Um homem alto anda entre os carros, cobrando. Um tempo depois,
procurando informações sobre ele, o meu pai ficará sabendo pelo
jornal local que tem quarenta e seis anos e que seu sobrenome é
Morris, que herdou este posto da YPF inesperadamente, de um tio que
não sabia que tinha, e que desde então tudo o que tem feito é andar
entre as bombas de gasolina. No fim, declara Morris no jornal local,
tudo se resume ao mesmo impulso: intuir qual o ciclo da roleta e focar
nisso. Se nas horas de pico ele se ocupa das bombas, à noite, em
compensação, deixa o posto nas mãos da esposa e se dedica a marcar
seus cartões de loteria. Não importa se são bombas de gasolina ou
fichas coloridas, é preciso estar preparado e prestar atenção. Duas
coisas que as pessoas confundem, esclarece Morris, e que não são o
mesmo.
O meu pai acha que esse é o homem que sempre telefona, porque
tudo começa no dia seguinte a esta primeira vez que conversam.
“São vinte e sete pesos”, diz Morris.
Tira a mangueira do tanque do carro, pendura-a na bomba e fica
olhando para o meu pai. Papai é dos que se abaixavam para abrir eles
mesmos a portinha do combustível, está a apenas alguns metros de
Morris e vasculha os bolsos buscando o dinheiro, mas não encontra.
Pressente a impaciência do outro, pensa que tem que estar em sua
calça ou no casaco ou no bolso da camisa. Monitora o próprio cansaço
e pensa: “Calma, você só precisa encontrar o dinheiro”. No fim tem que
voltar a entrar no carro. Procura a carteira na porta do motorista, no
porta-luvas, na sua mala. Encontra-a entre os bancos da frente.
Quando volta, Morris o está esperando com os braços cruzados. Olha
para os lados como que controlando as outras bombas, a voz mudada:
“Acha bom que tenha gasolina, né?”
O meu pai não entende o comentário.
“Pois eu acho bom que tenha o dinheiro à mão”, diz Morris, e o meu
pai vê que ele masca algo que não parece ser chiclete. “Por que sou
sempre eu quem tem que ficar te esperando?”
O meu pai fica desconcertado. Então isso já aconteceu outras
vezes? E por que esse homem se lembraria dele? Será que foi na ida
para Buenos Aires? Será que se lembra do menino da traqueostomia?
O meu pai avança alguns passos para lhe dar o dinheiro e em seguida
volta para o carro sem se despedir.
Mamãe ainda não retornou, de modo que papai estaciona ao lado
da fileira de álamos e desce para fumar, enquanto, com o olhar,
acompanha Morris, que se move rápido entre os carros. Há
funcionários responsáveis pelas bombas, mas é só chegar a vez de
alguém pagar para que Morris grude na pessoa com o cenho franzido e
sem dizer uma palavra. São os clientes que têm que dizer boa noite,
muito obrigado e tchau. Morris apenas pega o dinheiro e assente.
O meu pai se apoia no carro e procura mamãe em volta. Durmo do
outro lado do vidro, esticado no banco com os pés quase encostando
na cadeirinha, e ele me encontra assim, todo embrulhado, coberto
quase por inteiro. Embora a minha cabeça continue coberta, a minha
mãe afastou cuidadosamente a manta na altura da traqueostomia:
nada deve bloquear a minha respiração. O que comove meu pai é o meu
nariz, que mal aparece. Ele repara em mim, e depois de muito tempo
soletra o meu nome com a mesma intensidade do dia em que o
escolheram: Elías. Eli. El. Acha que meu nariz é idêntico ao de sua
mãe, e se lembra de como eu o franzo, quanto o franzo, o tempo todo,
a todo momento; franzo o meu nariz e ele sabe que estou quase rindo.
Pensa nisso, e pensa em seu cansaço galopante e no esforço enorme
que tem que fazer para não começar a chorar.
Quando mamãe retorna com dois copos de plástico, ele decide ir
um instante ao banheiro.
“Mas o ca7é vai esfriar…”
O meu pai cruza com Morris, que sai da cafeteria contando
dinheiro. Entra no banheiro e tenta demorar o menos possível, porque
agora faz tudo assim: distraído, mas sem demora. Mija e lê nos
azulejos do mictório uma mensagem que alguém escreveu em
vermelho: POR FAVOR, TELEFONEM. Lê o número uma, duas, três vezes, e
quando por fim decide voltar, quando passa pelas pias e fica um
segundo se olhando no espelho, ouve uma voz que o desconcerta.
“Estou louco?”, pensa, porque a voz da mamãe ressoa no banheiro e
diz: “Com licença, tem papel?”. Mas é só a cabeça dele funcionando
devagar demais. A voz na verdade chega do outro lado do espelho, e
outra mulher responde em seguida: “Tem papel, sim, sim, dê uma
olhada na mesinha da entrada”. Agora que sabe que ela não está
esperando por ele, o meu pai abre a torneira, põe as mãos debaixo da
água e se entrega à corrente. Fecha os olhos por alguns segundos, lava
o rosto, fica um pouco mais com as mãos embaixo do jato. Tem que
tirá-las da água para conseguir abrir os olhos, voltar a si e sair.
Esperam um ao outro na porta dos banheiros, talvez seja a última
vez que se esperam. Na verdade, é o meu pai quem espera. Está ao lado
da saída do banheiro feminino, de olho no carro reluzente entre os
álamos. Por um momento fica na dúvida, será que a minha mãe me
deixou sozinho no carro? Mas ela sai do banheiro em seguida e eles
voltam em silêncio. O meu pai abre a porta evitando qualquer barulho
que possa me acordar. Vê que a minha mãe tenta entrar outra vez
atrás, e não no banco do passageiro. Solta um psiu. Sussurra:
“Deixa ele quieto.” Quer prolongar o milagre do meu sono. “Passa
para a frente.”
Mamãe sabe que ele tem razão, hesita, mas aceita, muda de porta,
abre a da frente, senta e a fecha devagar, me vigiando pelo espelho
retrovisor. Será que essa manta amarela é quentinha o suficiente? Será
que é seguro me deixar dormir assim? E se o tecido pressionar bem
onde está a traqueostomia? Mas ela ouviria eu me mexer, conhece a
minha respiração em todas as suas sutilezas, e o silêncio é o melhor
sinal, sobretudo durante a noite. Quando fecha a porta, a luz do teto se
apaga e a manta amarela se escurece, me afastando
momentaneamente de suas preocupações. O meu pai liga o motor e já
estamos outra vez em marcha. Eles tomam o ca7é, ouvem as notícias
bem baixinho, sussurram indignados alguns comentários. Então
desligam o rádio e depois de um longo, longuíssimo silêncio, e pela
primeira vez na viagem, a minha mãe, por fim, se rende: adormece. É
um alívio para ela e um grande alívio para o meu pai. Na estrada,
quando o silêncio se estende por tanto tempo, ele lamenta ser o único
que não pode dormir, mas agradece ao menos este longo descanso em
que pode estar sozinho.
Algum funcionário da província de Buenos Aires, em poucos anos,
mandará tirar as imensas esculturas instaladas a cada cem
quilômetros em ambos os lados da rodovia. Há sete delas ao longo do
primeiro trecho reto e interminável. À noite, iluminadas pelas luzes de
um tráfego esporádico, é di7ícil reconhecer nessas grandes latasvelhas
retorcidas os carros que alguma vez foram. O sobrenome das
famílias que os conduziam figura embaixo, em branco sobre uma
chapa azul, com o número de vítimas fatais em vermelho e uma
advertência: NÃO DURMA. Nos anos 90 a campanha de prevenção ainda
é eficaz, e embora o meu pai não diminua a velocidade, certamente
volta a ligar o rádio o mais baixo possível para se manter acordado. Às
vezes me vigia pelo retrovisor. De onde está, não consegue ver a ponta
do meu nariz, mas recordá-la lhe basta. Segura o volante com uma só
mão, que de vez em quando muda pela outra, um gesto que se alterna
sem cessar. Às vezes suspira, profundamente.
Mamãe acorda no cruzamento com a rodovia 24, quase uma hora
depois. Leva alguns segundos para despertar, pergunta ao meu pai se
está cansado. Para jogar conversa fora, ele conta o que o homem da
YPF lhe disse.
“Esquisito, né? Que se lembre de mim.”
Mamãe não responde, está olhando o espelho retrovisor. Entre um
milésimo de segundo e o seguinte, mamãe para de respirar. Dá um
pulo, se lança para o banco de trás. O meu pai tenta entender o que
está acontecendo, mas um caminhão vem na direção contrária, e ele
não pode tirar o olho da estrada. Ouve os gritos dela e de soslaio vê a
minha manta amarela voar com violência de um lado para o outro.
Entre gritos reprimidos, mamãe tenta dizer alguma coisa.
Desembucha de repente:
“Não está aqui!”
O meu pai mete o pé no freio, sai para o acostamento o mais rápido
que pode. Um carro os ultrapassa a toda velocidade buzinando.
“Não está aqui!”, grita mamãe. “Não está!”
O que não está?, ele pergunta, porque o que ela diz não tem
sentido, ou é impossível de imaginar. E agora ela está lhe batendo no
ombro com os punhos. O meu pai consegue parar o carro e virar para
trás. Não estou. Não estou mais. Desapareci.
A manta está, e mamãe desce do carro, mas eu, onde estou? O meu
pai desce também, volta a entrar pela porta de trás. Do lado de fora
mamãe olha para um lado e para o outro da estrada, puxa os cabelos
com os punhos como se algo imenso estivesse se in9ando em sua
cabeça e fosse rompê-la. Mas o que é essa dor toda? Tem a ver com o
buraco na minha garganta? Tudo que tem buraco é uma ferida? Um
excesso de energia em um lugar equivocado?
“Mas você fechou o carro”, o meu pai grita, “quando foi ao
banheiro, certo?”
Mamãe não parece estar em condições de responder. “De quem é a
culpa agora?”, pensa o meu pai. Sem esperar que ela entre no carro, ele
liga o motor, dá uma volta em U e de alguma maneira ela já está dentro
outra vez. Tudo o que acontece agora ocorre de forma confusa e aos
trancos, e mesmo assim com uma lentidão exasperante. Eles retornam
ao YPF em um automóvel que parece se arrastar, embora o velocímetro
marque a velocidade máxima.
É estranho não estar. Não sou nada do que resta: nem o banco de
trás, nem a manta amarela, nem a minha cadeirinha vazia. Mas há
algo de mim em tudo o que era meu. “Olhe para mim”, “Olhe para mim”,
“Olhe para mim”, digo ao meu pai. Ele se aferra ao volante com força,
está pensando em suas mãos debaixo da água fria do banheiro, no meu
nariz que se parece tanto com o de sua mãe, em sua própria voz
quando me pergunta “Engoliu alguma coisa?”, e na minha voz
respondendo, tão suave e muda como esta camada de névoa sobre todo
o vale da rodovia pampiana: “Nada”, “Nada”, “Nada”.
Um carro passa na direção contrária com o motorista falando por
um desses celulares pretos enormes que começariam a ser vistos nas
mãos de executivos. Mamãe ainda leva vários segundos para
raciocinar que poderia ter lhe feito um sinal, que poderia ter tentado
parar o carro e telefonar para o YPF, ou para a polícia, embora a polícia
esteja ainda mais distante desse posto da YPF do que eles. E como
conseguiriam o número do posto? E o da polícia? Tudo lhe parece
desproporcionalmente impossível, apesar de nunca ter estado tão
desperta.
Mas eu, onde estou, se não estou aqui? O plástico pelo qual respiro
é um ori7ício, não um nariz. Eu me acostumei a que as coisas e as
pessoas não tenham cheiro nenhum. Mas algo aconteceu, porque não
há como saber que cheiro têm as coisas se o ar que entra no corpo não
passa pela cabeça, e mesmo assim sinto o cheiro. Pela primeira vez
depois de quase cinco meses: a lavanda do pinheirinho de felpo que
pende do retrovisor, o revestimento novo dos bancos do carro, o
desodorante da mamãe. Se estou aqui, se é aqui onde sinto cheiros e
não sei onde ficou o meu corpo, onde estou exatamente?
“Merda.” Mamãe começa a chorar. “Merda. Pode estar na estrada.”
E fica olhando para o meu pai.
Ele não parece escutá-la, e não mexe nem um milímetro as mãos do
volante. Está assustado demais.
“Não consegue falar”, diz mamãe, “o meu filho. Está sozinho e não
consegue falar.”
E eu, de onde os vejo? Seja lá o que tenha acontecido comigo me
transformou em uma coisa diferente. Me desmontou e expandiu, me
ampliou. É uma dor que fica do lado de fora do meu corpo. Sou uma
válvula plástica aberta, tudo o que acontece dentro de mim sai e toca
os outros.
Quando por fim eles veem o posto da YPF, mamãe tem um ataque
tão intenso que geme agarrada à maçaneta da porta. Ela abre a porta
na frente da cafeteria, sai antes de o carro parar. Ele desliga o motor,
desce e fica olhando para todos os lados: o estacionamento, a área dos
álamos e o recuo, as imediações da rodovia. As pessoas param de fazer
o que estavam fazendo para observá-lo. Morris está entre as bombas
de gasolina, anda até ele, talvez para repreendê-lo outra vez, mas o
meu pai não tem tempo para isso e também entra na cafeteria.
Há clientes comendo nas mesas e alguns mais entre as gôndolas, e
meu pai não vê mamãe em canto algum. Uma senhora sentada com os
filhos lhe aponta uma porta atrás do balcão que diz RESTRITO. Ele se
lança à porta, empurra-a, atravessa um longo corredor repleto de
caixas e mercadorias. O choro da mamãe chega como se saísse do
fundo de uma caverna e o meu pai se dá conta de que é capaz de
desmaiar, de que existe a possibilidade, inaceitável, de não conseguir
chegar ao outro lado.
E então mamãe grita: “Quem o encontrou?”. E ele respira. “Onde
estava?”, ela continua, e ele se solta da parede e já está quase ali, quase
a alcançando. Ele me vê, estou no colo da mamãe, abraço-a, escondo o
rosto debaixo do braço dela. A mulher que recebe os gritos assente em
silêncio. É mais alta e grandalhona que mamãe, parece cansada com
seus ombros caídos para a frente, como se já houvesse tentado
responder várias vezes e por fim tivesse se rendido. O meu pai chega,
respira agitado. Estamos na entrada de uma casa conectada ao fundo
do posto de serviços. No chão ficou o monte de blocos de madeira com
os quais a mulher tentou me entreter.
“Quem ficou com o meu filho todo esse tempo?” Mamãe quer parar,
voltar a respirar, mas não consegue. Ela me agarra com tanta força
como se estivesse perdendo o equilíbrio e realmente pensasse que sou
capaz de segurá-la.
O meu pai sabe que ao agachar e esticar os braços para mim, vou
soltar mamãe e correr na direção dele. Sabe o dano que um gesto assim
produzirá em mamãe em um momento como este. Eu sei disso, ele
sabe disso, ela sabe disso. E mesmo assim. Depois de muito tempo, ele
9exiona os joelhos, se aproxima do chão. Me olha, me chama,
pronuncia o meu nome. A vibração de suas cordas vocais estremece a
minha coluna vertebral. Falo comigo para não o escutar, digo a mim
mesmo “não se mexa”, digo “não”, “não”, “não”. Não quero não posso
chega, mas o que está acontecendo comigo, por que estou tão furioso?
Há um buraco debaixo da minha garganta, um buraco no meu corpo
que dói no deles. Se ponho um dedo ali, toco em qual dos dois? No meu
pai ou na minha mãe? “Toco no meu pai”, penso, afinal mamãe está
comigo aqui fora, deste outro lado, porque aperto minhas pálpebras
contra sua blusa e isso significa que a ela ainda posso alcançar. Então,
se ponho um dedo neste buraco que é meu, mas que dói no corpo do
outro, e cutuco, e pressiono, o que estou tocando por dentro é o meu
pai?
O meu pai estende os braços, estão estendidos, apesar de todo o
preço que terá que pagar. Não largo a minha mãe. Faço que não, aperto
as pálpebras contra a blusa dela. A voz do meu pai volta a me chamar,
mas não posso mais, não quero mais. “Não”, “não porque não”, “não
porque não é mais a mesma coisa”. Mamãe me abraça. Tudo o que me
machuca endurece a minha mãe, e há algo na minha rejeição que une
os meus pais em um mesmo temor. Como é possível? O menino nunca
tinha rejeitado o pai antes. Alguma coisa aconteceu. O que aconteceu?
Quando aconteceu? Alguém fez alguma coisa a ele?
“Eu já disse à sua esposa”, a mulher está falando com o meu pai.
“Foi o meu marido que o encontrou e o trouxe para mim.”
“Mas onde ele estava?”, minha mãe pergunta.
A mulher não sabe, ela não perguntou, deveria ter perguntado?
“Ficamos esperando um tempinho, não é, lindinho?” A mulher se
aproxima, se inclina na minha direção, me procurando, mamãe me
afasta. “E como o menino tem esse probleminha”, ela diz esticando a
pele do pescoço no lugar em que tenho o buraco, “a gente não estava se
entendendo, não é, lindinho? Então chamamos a polícia, por via das
dúvidas. E devo dizer que os policiais foram muito gentis, não é
mesmo?”
A mulher me olha como se eu realmente acompanhasse o que
estava dizendo. Em seguida, olha para a minha mãe.
“Falaram que iam passar aqui assim que terminassem a ronda, mas
isso ainda demora um pouco. Querem tomar alguma coisinha?”
Então Morris entra na sala, o meu pai levanta imediatamente. Tem
um bolo de dinheiro na mão e atravessa o cômodo até a prateleira da
televisão. Pega um pequeno cofre, abre-o e põe as notas dentro.
“Mais calmo?”, faz a pergunta virado de costas.
Fecha o cofre e o recoloca no lugar, só então olha para o meu pai.
Masca algo, o que é?
“Viu como sempre lhe entrego rápido tudo o que me pede?”
O que acontece em seguida é algo no qual, em todos esses anos, o
meu pai já pensou repetidas vezes, muitas vezes.
“Me acompanhe”, diz Morris.
O meu pai olha um instante para mamãe e se afasta atrás do
homem. Atravessam o longo corredor até a cafeteria e voltam ao
balcão. Do outro lado, junto às primeiras mesas, há um telefone
público preso à parede. Morris pega uma ficha do bolso e aperta um
número de cabeça. As mãos grandes e encardidas seguram o fone
plástico contra a orelha, Morris espera.
“Aqui é do YPF”, ele diz, e fica olhando para o meu pai.
Ao telefone, diz seu nome e depois de um silêncio solta uma
gargalhada, como se do outro lado tivessem acabado de lhe contar
uma piada. Conversa distraidamente enquanto estuda o meu pai com
descaramento, conferindo-lhe a cara, a roupa, as mãos.
“É, sei lá eu”, diz ao telefone. “Sabe como é esse pessoal de hoje em
dia”, assente. “Sim, delegado, claro.”
Mal levanta o queixo para chamar o meu pai. Morris cheira a
gasolina e a cigarro; lhe passa o telefone e se afasta uns passos. O meu
pai responde a algumas perguntas, dá o meu nome completo e o
próprio, seus dados pessoais e de contato, inclusive o número da casa
de El Bolsón. Quando desliga, Morris não está mais na cafeteria.
Depois de uma parada em Neuquén para dormir um pouco e outras
sete horas de viagem no dia seguinte, chegamos em casa. E nesta
mesma noite, por fim deitado em sua cama, prestes a dormir, o meu pai
se sobressalta quando toca o telefone da sala, ele levanta para atender
e ouve pela primeira vez esse silêncio frio e escuro que tanto o
perturbará por anos. E ainda seguem várias noites nas quais continua
levantando para atender. Porque poderiam ligar de Buenos Aires com
um último laudo urgente, porque no Hospital Italiano as notícias
críticas sempre tinham chegado de madrugada. E ele atende, ele
sempre atende. “Alô”, diz, “alô!” E leva um tempo para se resignar e
desligar.
Antes do banho, o meu pai confere o meu corpo minuciosamente,
inclusive debaixo das axilas, a virilha, e até me faz abrir a boca. Não é
a primeira vez que faz isso desde a volta de Buenos Aires. Ele não sabe
o que procura, talvez marcas na pele, um arranhão, mas não acha
nadica de nada. Me põe na banheira me segurando pelos braços,
prestando atenção para que nem uma só gota de água entre pela
traqueostomia. Molha o meu cabelo devagar, me ensaboa, está atento
à espuma, que só pode cair pela parte de trás da cabeça, e aproveita o
gesto para checar meu couro cabeludo.
“Era uma graça o brinquedo das madeirinhas, né? No posto…”
Faz o comentário como quem não quer nada, para ver o que
acontece. Eu me concentro nos meus joelhos. Mamãe acha que houve
alguma coisa comigo no posto de serviços quando eles não estavam,
que não sou o mesmo, que alguma coisa está acontecendo. O meu pai a
acalma dizendo que estou apenas mais cansado que o normal, mas isso
não é o que ele pensa. Ele me segura pelos ombros, me gira para ele,
acocora-se ao meu lado.
“E a mulher, que tal? Tratou você bem?”
Faço que sim. O meu pai gosta de me segurar assim, comprovar
que as minhas omoplatas ainda são pequenas o suficiente para caber
na palma de suas mãos.
“E o homem? O homem também tratou você bem?” Volto a fazer
que sim, olho a espuma crescendo ao redor dos meus joelhos.
“Aconteceu alguma coisa lá?”
Esperamos um instante
Esperamos um instante.
“Filho”, diz o meu pai. O meu pai diz filho, “alguém te fez mal?”
Fico furioso, assim, de repente. Sou uma mola de ferro que acaba
de escapar do colchão. Olho para ele porque não posso evitar. Torcida,
enrolada. O que está querendo saber?
“Não?”, pergunta o meu pai. “Nada?”
Ele mesmo responde? Responde por mim? É algo que está
querendo saber ou é algo que está concluindo?
“Se alguém te fizesse mal, você me contaria, né? Certo?”
Mas se estou contando, ora. Ele não percebe? Passei todo esse
tempo contando. Não era o trabalho do meu pai ler no rosto das
pessoas coisas que as pessoas não sabiam que tinham escritas? O que é
que ele não vê? O que é que não escuta?
Então me solto, me libero. Se ele não me vê, se não me escuta, não
quero que me toque. De que me servem suas mãos me segurando na
água? Ele me olha surpreso. Eu me agarro nas bordas da banheira, me
apoio com uma força que não sabia que tinha, e percebo que tomei a
decisão de não voltar a entregar esse peso a ninguém, não estou
disposto a me deixar segurar nunca mais.
De madrugada, quando toca o telefone, o meu pai sussurra no fone
apertando os dentes. “Filho da puta”, diz, e “vou te matar”. Pensa em
Morris me reconhecendo na rodovia, me carregando até a cafeteria,
me entregando aos cuidados da mulher. Mas antes, pensa o meu pai,
entre o momento em que Morris me encontra e o momento em que me
deixa, o que acontece?
“Viu como sempre lhe entrego rápido tudo o que me pede?”
O meu pai recorda o modo como Morris faz a pergunta, o tom
abrupto e direto. Será por isso que no telefone nunca responde?
Porque acha que o meu pai seria capaz de reconhecer sua voz?
Depois de várias noites o meu pai começa a desconectar o telefone
antes de ir para a cama. Volta a conectá-lo de manhã. Durante o dia,
quando ele não está em casa, as pessoas telefonam e sempre falam. As
chamadas silenciosas são apenas para ele.
Depois dos resultados da última cirurgia, entregues a conta-gotas a
partir de diferentes consultórios do hospital de Buenos Aires, mamãe
arrasta um colchão velho até a minha cama e se muda definitivamente
para o meu quarto. Diz que assim é mais seguro. Uma semana depois
ela leva também a roupa, e o quarto do casal se torna o quarto do meu
pai.
Agora que está sozinho, a insônia o acorda feito uma bofetada,
com a adrenalina pinicando as extremidades do seu corpo como se ele
tivesse acabado de se atirar do terraço de um arranha-céu. Angustia-o
desperdiçar à noite a força de que ele precisa para cada dia. Levanta e
perambula pela casa. Acende as luzes da cozinha, olha os móveis e as
coisas, volta a apagar tudo e continua até o interruptor seguinte. Há
outros dois interruptores na sala de jantar, um na sala de estar, um em
cada banheiro. Às vezes ele vai até o meu quarto, mas mamãe já
conhece essa dança noturna e deixa a porta fechada. De modo que ele
vai direto ao telefone, apoia-se no respaldo da poltrona e ali fica
esperando que o sono o leve de volta à cama.
Uma noite imagina Morris na cafeteria, verificando seu relógio na
frente do telefone público, calculando com paciência para ter a certeza
de que, ao telefonar, despertará a família toda. O meu pai vai até o
telefone e liga o cabo na parede, está tão convencido de que vai tocar
que mantém a mão no tubo para atender ao menor indício. E o telefone
toca. Ele atende rápido, e ainda mais rápido nas noites seguintes.
Aprende a ouvir o clique que antecede o mecanismo da campainha e a
erguer o fone antes que a campainha chegue sequer a tremer. Aprende
a levar o fone à orelha devagar, sem dizer alô, impondo, ele também,
seu silêncio, agarrado com força ao cabo na espera, sentindo-se ele
próprio parte desse telefone mudo.
Acredita que está aprendendo a escutar, pela primeira vez na vida.
Um representante de vendas exposto a tais níveis de absurdo não pode
fazer outra coisa senão desenvolver uma escuta extraordinária.
Enquanto a minha mãe faz suas primeiras pesquisas para nos
mudarmos para perto de alguma escola especial que eu possa começar
a frequentar, o meu pai encontra em suas sessões tele7ônicas uma
calma imprevista. Seja lá o que for que chegue por esse fone, começa a
se revelar cada vez mais familiar. Ele já não desliga, mas espera que
desliguem. Só então desconecta outra vez o cabo da parede e se sente
preparado para voltar à cama e dormir.
O acordo a que chegam é, segundo mamãe, o melhor para mim: o
meu pai aceita sem escândalos ficar na casa, e nós nos mudamos para
La Plata, a cidade dos meus avós maternos. Em troca, os meus avós se
encarregam dos gastos médicos e da escola especial. O representante
de vendas com superpoderes de escuta consegue articular uma
promoção que lhe permite pagar a viagem a Buenos Aires uma vez por
mês, e assim passar duas tardes comigo antes de retornar à casa de El
Bolsón, onde o telefone, agora que ele vive sozinho, permanece sempre
conectado.
Entre mudos, surdos e disléxicos, faço novos amigos, me integro,
progrido. Por exigência da escola, mamãe aprimora a linguagem de
sinais para me acompanhar nas atividades pedagógicas. O meu pai
limita sua linguagem a instruções imprescindíveis, como “fique
quieto”, “não estou te entendendo”, “te amo” e “é ho ra de dormir”. Sei
que ele também sabe interpretar o sinal de “ajuda”, mesmo que eu
nunca o tenha visto fazer isso. Ele gostaria de aprender mais, mas
toda a sua energia está posta em fazer dinheiro suficiente para
financiar os voos a Buenos Aires.
Embora eu não pronuncie nem uma palavra, leio e ouço com
devoção. Me fascinam as histórias em quadrinhos inglesas e francesas
que o vovô lê e traduz para mim em voz alta. É um homem rígido e
estável que senta na beira da minha cama todas as noites. Seu corpo
enorme afunda tanto o colchão que nós dois nos acomodamos sem nos
importar às leis 7ísicas desse encontro, com o meu corpo acoplado ao
dele e toda a sua rigidez me sustentando com justa elegância. Ele lê um
quadrinho, traduz ao espanhol, passa ao quadrinho seguinte. Aponto
tudo o que não entendo. Quando estou pronto para seguir em frente,
faço que sim com a cabeça.
Na escola começo a escrever, e em casa já lemos juntos quase tudo
que o vovô tem à mão. Então ele compra para mim coleções mais
complexas e cadernos onde anotar nossas impressões sobre as leituras,
em francês e em inglês. Seu novo hobby é o meu exercício na prática
desses idiomas. Absorvo tudo o que me é oferecido, mas ele não
aprende uma só palavra na minha linguagem de sinais. Depois de cada
jornada de leitura, fecha o livro e eu agarro com as minhas mãos uma
das suas, pulo sobre ele, ataco-o em sua distração. Ele, por sua vez, me
caça com um só golpe, como se a fera que eu acabei de capturar contraatacasse,
agora vitoriosa. A coreografia é breve e precisa. Vovô me
pega pelos pulsos e me levanta assim no ar. Não sinto a força das mãos
do meu pai ao redor do meu tornozelo, nem fico pendurado de bruços,
como eu tanto gostava. Fico pendurado de barriga para cima, e ao
menos assim há algo nesta suspensão que me faz lembrar dele. Às
vezes vovô me segura mais do que posso aguentar. Quero gritar
“chega!” para que me solte, mas o meu corpo continua aberto ao vazio:
abro a boca, e a boca não funciona. Quero bater palmas duas vezes,
que é o meu jeito de dizer chega, mas fico pendurado por uma das
mãos do vovô e, mesmo batendo a outra no meu peito e no dele, ele só
obedece a ordens que possam ser escutadas, ordens em inglês ou em
francês. Então espero. Estou pendurado no ar, e espero.
O que se passa nos quinze anos que se seguem não surpreende nem a
mamãe, nem o vovô, nem o meu pai. Sou tudo o que esta família espera
de um menino maravilhoso: uma rápida adaptação a cada nova etapa
escolar, notas excelentes no ensino médio, uma bolsa de estudos em
Buenos Aires. Tenho fascínio pelas linguagens, a mais precisa de todas
é também a mais abstrata e a que contém todas as outras, de modo que
me especializo na matemática da 7ísica e, ainda antes de me formar,
aceito uma oferta de emprego em uma multinacional instalada em
Rosário.
O meu pai está orgulhoso. Em algum momento ao longo desses
anos se convenceu de que tudo o que tem que fazer para me ajudar é se
manter à margem, e acredita que o tempo só confirma a sua teoria. A
ele dói me ter longe, mas a única coisa que sabe fazer com sua dor é
aguentar.
Na casa de El Bolsón o telefone continua tocando à noite, embora
muito menos que antes. Uma vez por semana, uma vez por mês, duas
vezes por ano. E mesmo depois de os telefones ficarem livres dos cabos
e das paredes, o meu pai mantém, de todo modo, a linha de casa. Saber
que o telefone não está desconectado o ajuda a descansar melhor. Se
toca, ele atende, e depois é 7ácil voltar a dormir.
Em uma gôndola de supermercado, descobre que as novas pilhasbotão
trazem uma capa de segurança no caso de algum bebê a engolir,
e fica um tempo ali, olhando para elas, até que um funcionário se
aproxima e pergunta se precisa de ajuda, e ele não consegue nem
responder, nem comprar o produto. Volta dois dias depois, porque
agora há alguma coisa terrivelmente revoltante nessa pilha e ele
precisa levá-la para casa e estudá-la. Está na sala, rodeado por esses
sete interruptores que deixou de acender e apagar à noite porque,
como nada mudou de lugar desde que fomos embora da casa, ele
aprendeu a se mover na escuridão. Embora para isto que está por fazer
ele tenha acendido todas as luzes. Está com a pilha na mão, olha-a,
forceja contra o plástico até que consegue tirá-la da embalagem. E
agora segura-a diante de si. Parece tão pequena, que poderia pular de
seus dedos, e aí teria que se pôr a procurá-la outra vez, como
aconteceu anos atrás. Talvez para evitar o desastre, o meu pai leva a
pilha à boca. Fecha os lábios e a hóstia repousa por um segundo sobre
a sua língua, menos de um segundo: o sabor do benzoato explode na
boca, lhe queima as papilas. A substância mais amarga deste mundo
obriga o meu pai a cuspir. Ele cai de joelhos para inspecionar o chão.
Onde está a pilha-botão? Quer encontrá-la e pôr na boca de novo.
Quer entender definitivamente. Procura, procura outra vez. O fato de
a capa protetora funcionar lhe é tão doloroso como se não tivesse
funcionado.
Encontro o meu pai algumas vezes no ano, lhe aviso quando passo por
Buenos Aires a caminho de La Plata, para visitar a minha mãe e os
meus avós, e ele então voa para me ver. Sentamos em um ca7é perto do
aeroporto central, o meu pai diz que finalmente apareceu um
comprador para a casa de El Bolsón.
“Quem vai comprar?”, pergunto por meio de sinais.
“Puxa”, ele diz nervoso, “não estou te entendendo.”
“Deixa pra lá”, digo, usando outra vez as mãos, porque “deixa pra
lá” é um sinal que, de tanto eu usar, ele acabou aprendendo.
“Vou me mudar para Buenos Aires”, ele diz, “assim não estaremos
tão longe.”
Sorrio cordialmente. Sei que isso não fará com que nos vejamos
mais vezes, nem que nossa relação mude em nada. Moro em um
apartamento amplo, com três gatos silenciosos. Tenho um carro do
ano passado e um grupo de amigos com quem jogo bilhar. Estou
apaixonado por uma garota que me ama. Mas ele quase nunca
pergunta sobre isso. Ainda acha que me visitar é vir a Buenos Aires,
nunca passa por sua cabeça que poderiam estar me acontecendo tantas
coisas boas, que às vezes passo semanas sem pensar nele.
No dia em que ele entrega a casa de El Bolsón, desconecta pela
última vez o telefone da parede. Guarda o aparelho na bolsa, que põe
no carro junto com o que considera frágil. Uma empresa de mudanças
levará os móveis e as caixas, e tudo o que é valioso viajará com ele.
Então, quase vinte anos depois, o meu pai volta a percorrer de carro os
mil e setecentos quilômetros que separam El Bolsón de Buenos Aires.
Começa a viagem de tarde, faz uma parada para dormir em
Neuquén e continua de manhã cedinho. São onze e meia quando já está
perto do YPF de General Acha. Agora que existem postos de serviço
suficientes, que a gasolina rende o dobro e que não há nenhuma
necessidade de interromper o percurso, ele para mesmo assim. Há
apenas dois carros sendo abastecidos nas ilhas das bombas. Estaciona
sob os álamos, ainda mais altos e prateados que em sua recordação.
Atravessa rumo à cafeteria, respira o ar frio da manhã e pensa que,
entre a hora que saiu da casa ontem e sua chegada a Buenos Aires
nesta noite, viverá sem realmente pertencer a nenhum lugar. Expira
consciente, percebe o quanto este desaparecimento temporal o faz
sentir alívio. Pende as mãos de um jeito novo, enfiadas dentro do bolso
como tantas vezes viu fazer homens que lhe pareciam tranquilos e
confiantes. “É assim, era tão 7ácil”, quase ouve a própria voz na
cabeça, que é o modo como sua mãe lhe ensinou a fazer os desejos.
A velha cafeteria se transformou em um self-service envidraçado e
com portas automáticas. Apenas o comprido balcão de madeira
maciça ficou no mesmo lugar, e atrás, com o mesmo aviso de RESTRITO,
a porta-balcão pela qual entrou tantos anos antes, me procurando.
Fica surpreso ao ver que no canto do telefone público há um caixa
automático. Alguém diz “com licença”, tirando-o do caminho com
educação. O meu pai está perplexo, não sabe por que está ali, e a
ausência do telefone o deixa confuso. Veio falar com Morris? É porque
vendeu a casa? Veio tranquilo, sem nenhuma intenção, mas fica se
perguntando o que de fato está acontecendo; será que vai haver uma
briga? O meu pai nunca, em toda a vida, bateu em um homem. É isso
que veio fazer? “Vendi a casa”, ele lhe dirá, “vamos ver a vida de quem
você vai foder telefonando no meio da madrugada.”
Mesmo ela estando com os cabelos escorridos e brancos, ele
reconhece a mulher. Alta, grandalhona, procura alguma coisa em
pilhas de papéis, ao lado dos funcionários que atendem nos caixas.
Encontra uma folha específica e se afasta lendo-a até a porta-balcão.
De repente para, vira para ele com o cenho franzido.
“É o senhor”, ela diz, “é o pai.”
A mulher se aproxima dele.
“Como está o menino?”
Parece emocionada.
“Bem, bem, com certeza. Desculpe, é que…”
“E se lembra da gente?”
“Claro que me lembro.”
Ela ri.
“Eu me refiro ao menino.”
“Ah, sim. Claro.” Percebe o quanto está tenso.
“Passamos tanto nervoso, sabe… sem saber de onde tinha saído
aquele menino, sem ouvi-lo dizer nem uma palavra sequer. Não
sabíamos como ajudá-lo”, a mulher suspira, fica olhando para ele com a
cabeça ligeiramente inclinada, “coitadinho.”
Ela examina o meu pai com nostalgia, como se tivessem
atravessado juntos um drama de dias ou semanas, e agora precisasse
de um tempo para se habituar a esse reencontro.
“Venha, quero lhe mostrar uma coisa”, ela o convida com um gesto
e segue em direção à porta-balcão.
Cruzam o longo corredor, ainda cheio de mercadoria empilhada.
Por um instante o meu pai tem a sensação de que, ao chegar à outra
ponta, se encontrará outra vez comigo, inclusive com mamãe. Se tudo
está acontecendo de novo, ele teria agora a informação necessária
para mudar as coisas? Ele as alteraria, se pudesse? Voltaria a se
agachar e a esticar os braços para mim? Foi isso o que fez de errado?
Ele quer entender, mas não entende, e lhe assusta que aquela sala se
pareça tanto com a de sua memória.
“Olhe esta fofura.” A mulher se estica e em uma prateleira pega um
porta-retratos. “Espero que não se incomode, é que como não temos
filhos, sei lá, digamos que gosto de vê-lo aí com as minhas coisas.”
É um desenho meu, um desenho feito por mim: o meu pai, mamãe,
eu no meio dos dois.
“Tentei entendê-lo de todas as formas possíveis”, diz a mulher.
“Trouxe a ele uns blocos de madeira que tínhamos na cafeteria, lhe
ofereci guloseimas, até o chamei para assistirmos juntos à televisão.
No fim, sentar para desenhar foi a única coisa que o distraiu por uns
minutos.”
No desenho tenho as mãos grandes e amarelas, os dedos abertos e,
na altura da laringe, uma espécie de pingente preto, tão grande e
deformado como um olho gigante.
“Ai, é que era tão, mas tão lindo esse menininho, o senhor tem que
compreender que eu estava absolutamente comovida, já pensava em
como convencer o Morris a adotá-lo, caso ninguém aparecesse”, ela ri
envergonhada, consciente do próprio excesso.
“Mas alguma coisa aconteceu, não?”
“Que tipo de coisa?”
O meu pai a olha sério. O sorriso dela desaparece:
“O que está querendo dizer?”
O meu pai sente a raiva chegando de repente, erguendo-o com uma
dor que o perturba a ponto de desejar que Morris entre pela porta
neste mesmo instante, é o momento perfeito, agora que seu corpo
parece pronto para uma batalha inesperada.
“Eu sei que alguma coisa aconteceu”, sente a própria voz mudar.
A mulher dá um passo para trás.
“Ele era um bom garoto”, diz, “passou por quatro cirurgias sem
nunca deixar de sorrir. Mas o deixamos aqui em suas mãos por pouco
tempo e ele nunca mais foi o mesmo.”
“Mas do que está falando?”
E então acontece. Morris chega. Mais velho, mais magro. Traz a
carteira aberta e, presa na cintura, uma maquininha de cartão.
Atravessa a sala na mesma direção de vinte anos atrás, provavelmente
em busca do mesmo cofre. Detém-se quando vê o meu pai.
“O senhor”, ele diz, abaixa a mão com a carteira. “E agora, o que
perdeu?”
“Morris…”, diz a mulher.
“Alguma coisa aconteceu com o garoto”, diz o meu pai.
“E parece que estamos aqui sempre à sua disposição, não é?”, diz
Morris. “O senhor já o perdeu uma vez, lembra? Perdeu e nós
encontramos.”
“Quem encontrou?”
“Eu encontrei”, diz Morris.
“Onde ele estava?”
“Ao lado do orelhão.”
“Não estou entendendo.”
Morris faz que não para si mesmo, quase parece sorrir.
“Me acompanhe.” Morris se afasta pelo corredor com a mesma
frase da última vez.
O meu pai o acompanha. Avança atrás das costas largas de Morris,
a vista fica nublada por um instante e ele se esforça para não se
desequilibrar entre as caixas. O que fazem essas caixas empilhadas por
vinte anos no mesmo lugar? A náusea faz seu estômago formigar, mas
ele se obriga a continuar avançando atrás de Morris, essas costas
enormes feito um paredão oscilante contra o qual ele só quer se
chocar. Atrás deles, os passos da mulher se apressam para alcançá-los.
Cruzam a porta -balcão. No self-service tudo continua em movimento.
“Aqui”, diz Morris, parando em frente ao pequeno caixa
automático.
“É que aqui ficava o telefone”, explica a mulher.
Morris retira um fone imaginário à altura de seu peito e o abaixa
até algum ponto entre a cintura e os joelhos. Segura-o na vertical.
“Mais ou menos nesta altura”, diz, e marca com a palma da outra
mão a estatura que eu tinha naquela idade. “De algum jeito o seu filho
conseguiu baixar o fone, mas não alcançou os números para poder
apertar.”
Sem mover o fone imaginário, Morris cospe alguma coisa na mão e
guarda no bolso.
“Então eu disse ao menino, você me diz o número e eu aperto.”
A mulher assente, concordando com o relato.
“O meu filho não fala”, o meu pai contesta. A pressão que sente no
peito mal lhe deixa usar o diafragma.
“E o que isso tem a ver? O menino quer falar com o pai, eu aperto o
número do pai.”
A pressão é tão dolorosa que o meu pai já não consegue pensar.
“E como ficou sabendo que ele queria falar comigo?”
“Sei lá, o menino me mostrou o fone e eu perguntei ‘Quer falar com
a mamãe?’. E o menino fez que não. Então perguntei ‘Quer falar com o
papai?’, e o menino fez que sim. Será que para o senhor tudo é sempre
tão complicado?”
Morris fica olhando para ele.
“Fingi apertar e deixei que ele fizesse o que queria. O senhor teria
feito a mesma coisa, ou não?”
O meu pai está chorando. Morris arregala os olhos, já sem
paciência, desconcertado.
“Quer saber? Não estou entendendo nada”, diz. “Não sei o que mais
posso fazer pelo senhor.”
“É que o meu filho não fala.” O meu pai tenta se acalmar, mas é
impossível. “Se o meu filho me telefona, como vai me dizer que é ele?”
As mãos do meu pai pendem rendidas, e há um gesto quase
imperceptível em seus dedos, como o de alguém dormindo, ou talvez
sonhando, que quisesse ficar parado no ar, ou deter algo que está no ar
e não deveria cair, e o que acontece depois desta manhã já não tem
nenhuma importância.
Dezessete anos depois, o meu pai morre e tenho que esperar o
médico chegar para que escreva a declaração de óbito. Sento ao lado
de sua cama, neste apartamento de Buenos Aires ao qual ele nunca se
acostumou, e lhe digo em silêncio: “Não se preocupe, papai, fomos
felizes no começo, é o suficiente”. “Vai ficar tudo bem, papai.” E como
ele não me responde, como nunca me respondeu, eu enfio o dedo neste
buraco que é como um olho, e o toco por dentro. Toco o meu pai por
dentro, e o deixo ir.
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PROPOSTA
Bem, a sua premissa é a mesma. O protagonista do seu texto engole alguma coisa, e acaba sendo engolido por essa coisa.
O seu conto pode ser protagonizado por um ser humano ou um ser não-humano.
Você pode contar:
- do ponto de vista do sujeito que engoliu a coisa;
- da coisa que foi engolida;
- de alguém próximo que testemunhou tudo.
Aqui vão algumas possibilidades. Não precisa escolher nenhuma dessas, mas se quiser pode.
- Durante um jantar de negócios, um publicitário engole acidentalmente um pen drive com jingles antigos.
- Um avô entediado engole um roteador miniaturizado achando que era um doce e passa a emitir sinal de Wi-Fi.
- Um gato de estimação engole algo invisível e começa a miar ordens que afetam diretamente decisões políticas do país.
- Um rapaz engole uma página solta que encontra voando na rua: era a última página do Manual de Instruções do Universo.
- Durante uma bronca, uma mãe grita tanto que engole a voz do filho.
- Uma mulher engole uma pedrinha mágica encontrada no chão da igreja.
- Um menino engole um peixe que ninguém vê.
- Num vilarejo do interior, um homem engole uma coisa caída do céu.
- Durante um almoço comum, uma mulher sente um gosto que nunca tinha provado.
- Um artista de rua engole, sem notar, o espirro de um estranho.
Na primeira pessoa, em uns 12 mil toques.
