por Américo Paim
DEPOIS ME CONTE
– Oxe, a senhora vai levar esse damasco aí?
– Por que não?
– Presta não, fia…
– Mas essa marca é…
– E tem mais: mudaram o preço ontem de noite.
– Sério?
– Tô lhe dizendo…
– Que coisa.
– Vou lhe dar uma dica, na moral.
– Hein?
– Vá no mercadinho ali da praça da delegacia. Da melhor qualidade. Procure Anunciata, minha prima.
– Olhe… acho que eu vou mesmo.
– Oxe, a senhora vá e depois me conte.
– Tá bom. Você é…
– Cilene, mas pode chamar de Cil.
– Não tem medo de mandar cliente pra outro lugar?
– Por mim… Quem manda vender coisa que num presta? Sei mentir não…
VAI SER ESSA?
– Minha filha, aqui divide?
– Oxe, parte a gente em dois de tanto trabalho…
– Desculpe, não entendi.
– Ah… tá falando da conta, é?
– Sim, foi o que perguntei.
– Ói, me desculpe falar, a senhora vai dividir por que mermo?
– Ué, facilita no fim do mês.
– Num tenho nada com isso, mas escolheu umas marcas meio carinhas…
– Como assim?
– Esse molho de tomate mermo, dá pra comprar três do outro. E ainda é melhor.
– É que a gente se acostuma.
– A senhora cozinha ou é a secretária?
– É ela.
– Então, pergunte. Quem só come num sabe nada, vá por mim.
– Ah, né assim não.
– Oxe, claro que é. Já comeu fora?
– Sim, claro.
– Foi comer massa no Marinari? Aquele chique que fica aqui perto?
– Sim, mais de uma vez. Eu gosto.
– E se eu lhe disser que o dono só compra aqui e é da outra marca?
– Verdade?
– A senhora tá se lambuzando toda achando que é com essa marca cara?
– Imaginei que sim. É quase unanimidade.
– Tolinha…
– Como?
– Hein? Nada não.
– Você come muito fora, eh… Cilene?
– Com esse salário? Oxe, oxe, oxe…
– Acho que vou fazer um teste, então.
– Vá trocar, dona. Eu espero. Aliás, e esse macarrão aqui? Vai ser essa marca mermo?
BOTE, VÁ…
– Geralda, tu tá vendo a merma coisa que eu?
– É o que, satanás?
– Aquela toda apertadinha ali é Frísia?
– É ela, ué.
– Tá aqui fazendo o quê?
– Como é que eu vou saber, Cil?
– Num lembra que o irmão dela teve aqui nestante? Tá ligada no que ele falou?
– Reparei não.
– Oxe, se ache. Todo mundo repara Renildo, gostoso daquele jeito.
– Ai, ai… Zé Mário sabe que tu fala assim desse rapaz?
– Agora sim… Eu tô morta por acaso?
– Seu namorado é ciumento.
– Ficante, fia. E eu olho pra quem eu quiser.
– Mas quéquetem Frísia?
– Ela tá de atestado. Num foi trabalhar. Tudo fake, óia só…
– Para de se meter na vida dos outros, mulé.
– Só digo que se Seo Romualdo vier aqui e perguntar, eu largo o doce.
– Tu vai dedurar pro chefe da moça?
– Só acho que isso num é justo. Aqui mermo, a gente só falta se morrer. Né assim?
– Você é demais…
– Bote atestado aqui pra ver o que acontece…
– Que exagero.
– Denilda botou e mordeu a boca. Ou tu acreditou naquele lero de produtividade e o escambau?
– Não dá pra saber.
– Tu é lesa toda. E eu conheço gambiarra de longe. Essa daí tá boazinha…
– Cil, vai que ela foi ali na farmácia do lado e aproveitou pra comprar umas coisas.
– De shortinho e top, com a cara zerada? Tá é dando nó. Daqui vai pra praia, assunte…
– Deixa a moça em paz. E fica quieta que ela tá vindo pagar.
– Oxe, vou saber é agora! Frísia, Frísia, menina, tá livre aqui! Venha.
MEIO LENTA
– Dona Everalda, como vai?
– Vou bem, Cilene. E você?
– Fora os problemas, tudo certo na Bahia…
– Tá com uma cara boa, menina…
– Sexta-feira, né? E amanhã é folga.
– Eita coisa boa.
– Num é? Dar um rolê por aí.
– Com o namorado?
– Que “ado”? Tem um ficante aí, mas eu vou é com as miga…
– Ah, então é ótimo. Me diga uma coisa: ele é bonito?
– Esse abacaxi que a senhora tá levando é mais…
– Oxente, Cilene.
– Tô brincando… Num dá pra dizer que é feio não.
– Opa…
– Ele é direitinho, mas é uma ciumeira que deus é mais.
– Ah, minha filha isso é tão chato…
– A senhora nem me fale. Tem hora que tenho vontade de matar, num vô lhe mentir!
– Calma, converse com ele.
– Ali num tem papo certo. Parece que vive em outro mundo, querendo mulher mãe…
– Como é isso?
– Ué, pra lavar, passar, cuidar da casa, essas coisas…
– Isso é mais do tempo de minha mãe e olhe lá…
– Pois é, a senhora me deixe…
– Mas ele deve ter coisas boas, né?
– É isso… Ele trabalha certo.
– Ah, é trabalhador…
– Hein? Não, Dona Everalda, né isso não… Ele é bom naquelas coisa, entendeu?
– Ah… acho que sim! Sou meio lenta…
– É mermo? Não acho não, viu?
– Por quê?
– Pelo que vi, a senhora se deu foi muito bem…
– Não estou entendendo.
– Maridão que compra vinho e queijo no meio da semana só pode ser coisa boa.
– Como?
– Ah, num se avexe não, que num sou de falá nada.
– Cilene, explique melhor.
– Oxe, Seo Eliezer tava com a cara animada anteontem aqui no caixa.
– É mesmo?
– Comprou tudo de primeira, hein? A senhora num é fraca não…
– Ele tava sozinho?
– Tava sim, senhora. E nem me deu muita conversa.
– Gastou muito?
– Ah, num economizou nadinha, mas a senhora merece, Dona Everalda.
– Ele não dormiu em casa.
À ESPERA
– Que cara é essa, Cil?
– Tô passada, criança…
– Fale aí, vá.
– Boca de siri?
– Nem dormindo eu vô falá, juro.
– Se tu abrir a boca, eu tô lascada.
– Oxe, mulé…
– Eu num fui no banheiro nestante?
– Foi, ué. Aliás demorô, viu?
– E foi? Nem reparei.
– Marieta já tava escorrendo veneno aqui.
– Essa putinha…
– Ei, fala baixo.
– Vadia…
– Deixa pra lá, mulé. Conte o que foi. Tu tá com uma cara estranha.
– Eu saí do banheiro e ele tava lá fora no corredor.
– Ele quem?
– Roberto. O que entrou outro dia.
– Sim, mas e daí?
– Daí que ele se chegou todo, cheio de agá, precisava ver…
– E foi?
– Tô lhe dizendo. Uma conversa mole retada e me pegando toda…
– Oxe, como foi isso.
– Com a mão no braço, na cintura. Bafo de alho de depois do almoço…
– Ninguém viu nada? Tu fez o quê?
– Empurrei ele devagar e tal. Disse pra ficar na dele.
– E ele?
– Continuou colando. Me chamou de gostosa, que queria sair comigo e tal.
– Fala com Seo Gardênio! O super tá aí pra isso, num é?
– Super? Super safado, isso sim. Ele mermo veio com leriado comigo quando eu entrei aqui.
– Sério?
– Oxe, tu sabe que eu num minto.
– Tu nunca me contou isso, menina.
– Oxe, é pra contá tudo? Aquele véi descarado…
– Nunca pensei.
– Ah, qualé. Lembra que Evelyn contou que ele ficava com um olhar babão pra ela?
– Agora que você falou…
– Ela é fraca toda, num faz um ó com copo, tu sabe…
– Isso é verdade.
– Então tua acha que ela tá aí até hoje porcasodequê?
– Cil, que horror!
– Defenda o fidiputa. Ali num vale nada.
– Larga disso, moça. E com Roberto, afinal, tu fez o quê?
– Deixei ele se achar.
– Entendi não.
– Veio me beijar e tasquei uma mordida bonita. O bicho sangrou, viu… Saí correndo dali.
– Eita.
– Ficou puto. Gritou que vai me esperar sair.
– E agora?
– Tô com medo da porra. É sério.
– Vou chamar Mirinha e Salete e a gente vai com você, amiga.
IGUAL A MIM
– Esse valor tá errado, minha filha.
– Tá não…
– Claro que sim. Onde já se viu uma conta dessas?
– Isso né comigo não…
– Você errou na digitação de alguma coisa.
– O sinhô que deve ter comprado o que num devia.
– Como é?
– A gente sabe que home num confere nada. Só preço de cerveja.
– Eu não sou assim.
– Olhe, moço, eu num tenho nada com isso. A fila tá aí parada, esperando…
– Pois eu quero passar tudo de novo.
– Vou chamar o Super aqui.
…
– Pois não, senhor?
– Sua funcionária errou na minha conta.
– Oxe, oxe… ele é dono do mercado agora? Sou funcionária dele?
– É modo de falar.
– O moço tá todo errado. Falando bobagem de tudo que é jeito, coitado.
– A senhora me respeite.
– Eu num errei. Fica aí comprando kiwi, iogurte grego, chocolate importado… tudo caro, véi.
– Mas que insolente.
– Cilene, controle-se! Senhor, nós podemos passar os produtos outra vez.
– Só se for você, Seo Gardênio. Eu é que num vô passar é nada…
– O senhor não tem autoridade? – disse o cliente.
– Oxe, nem meu pai manda mais em mim…
– Cilene, por favor!
– Esse povo ignorante nem devia trabalhar aqui…
– É o quê?
– Calma, Cilene!
– Tu viu do que esse aí me chamou?
– O senhor também não pode falar assim – falou Gardênio ao cliente.
– Ora, meu amigo, a gente sabe que esse povo moreninho é assim, não dá pra facilitar.
– É o quê? Seo Gardênio, isso é crime. Racismo é crime!
– Cilene, muita calma, por favor!
– Deixe de mimimi, minha filha. Assuma logo que errou nessa conta.
– O senhor precisa sair, agora.
– Como é? Vai dar razão à neguinha?
– Saia agora ou chamo a polícia.
– Isso não vai ficar assim. Você não sabe com quem está falando. Conheço o dono dessa espelunca!
– Saia, senhor.
– Muito bem, Seo Gardênio! Pensei que ia deixá por isso mermo.
– Cilene, você precisa se controlar. Criticar o que o homem estava comprando?
– Ele tava todo errado. Num sabe comprar, num faz conta e ainda coloca a culpa nos outro?
– Assunto encerrado, Cilene.
– Oxe, é ruim… vou dar queixa na delegacia, isso sim.
– Cilene…
– E o senhor vai junto. Ou quer que eu diga que a empresa concorda com racista?
– Cilene, isso vai me atrapalhar.
– Seo Gardênio, o senhor é preto igual a mim!
PROMOÇÃO
– Cilene, minha filha, o que é aquilo?
– Oxe, Madá, num se meta na vida dos outro…
– É que tá demais.
– Para de intriga.
– Tu tá vendo que eu sei.
– Sim, mas e daí, véi?
– A pessoa num tem espelho?
– Pode ser problema de saúde.
– Mental, né?
– Tu é foda, mulé. Larga disso.
– Podia comprar uma roupinha uns três números pra cima.
– Como tu sabe da vida dela? E se num tem dinheiro pra comprar outra roupa?
– Ah, pelamordedeus, Cilene…
– E digo mais: pode ser um tempo ruim, a pessoa tá caída…
– Essas coisa de depressão e num sei o quê? Oxe, se a criatura tá ali rindo e as porra?
– Tu devia era pensar em ajudá e num ficá aí encarando a pobre.
– Ajudá de que jeito? Pagar cirurgia? Num tenho pra mim, que dirá…
– Sempre pode.
– Lá vem ela… Pra sua fila, graças a deus…
– Bom dia, senhora.
– Bom dia.
– Gostei do cabelo. Foi aqui no bairro?
– Gostou? Obrigado. Se quiser, lhe indico o lugar.
– Ah, quero sim! Falando em dica, a senhora viu que tem promoção na área de saúde e dieta?
PRA TODO MUNDO
– Óia, Cil, aquela mulher de novo.
– É o quê, Sarita?
– A criatura atrapalhada.
– Deixe a mulé em paz.
– Oxe, tô fazendo alguma coisa? Só comentei.
– Tu tem essa mania.
– Oxe, tô aqui nessa maresia, sem cliente.
– Leia um livro, cante uma música, afe…
– Repare que ela já passou pelos congelados umas dez vezes. E para. E vai. E volta. Eu, hein…
– E daí? Como tu sabe que ela num recebeu uma mensagem de celular pedindo mais coisa?
– Que home que faz isso? É ruim, viu… Só se for cachaça.
– E quem lhe disse que é homem? Pode ser mulé, fia.
– Tanto faz. Muito lerda.
– Tu devia se enxergar.
– Como assim?
– Quem é que vive pedindo ajuda pra cancelar produto, pra código de produto?
– Isso é diferente?
– Nada a ver. Só me ensinaram uma vez e aprendi tudinho.
– Cê é metida a besta.
– Eu não. Só num fico aqui falando mal de gente que eu nem conheço.
– Ah, conhecer faz diferença?
– Claro. Eu falo mal de você pra todo mundo.
