Fico sabendo por acaso (que, não por acaso, se você saiu das redes sociais, é talvez o único jeito de ficar sabendo das coisas): a semana literária do SESC vai começar amanhã. Dou uma espiadinha na programação de Maringá: nada que me anime muito. E muito, nesse caso, significa o seguinte: o suficiente pra me fazer sair de casa, abandonando, ainda que por poucas horas, a rotina das obrigações parentais (e sobrecarregando, assim, minha já sobrecarregada companheira), apenas pra ouvir, lá das cadeiras dos fundos, uma poetisa gaúcha radicada em Berlim e um poeta mineiro radicado em São Paulo debaterem o exercício da liberdade na poesia, sem a perspectiva de sair com os dois pra tomar um biricutico depois do fim da mesa.
Sou tomado de imediato por uma nostalgia absurda. Eu adorava o prédio antigo do SESC ali na esquina da Colombo com a Duque, antes da reforma que o transformou num colosso estranhão todo espelhado, onde eu sei que não sou bem-vindo (ninguém o é). Ali dentro eu assisti a muitas conferências e, por conta disso, vi muitos “loucos de palestra”, categoria em que Maringá é prolífica, exercendo a sua nobre arte, pra completo desespero dos participantes. Também vi mesas literárias inesquecíveis, as quais procurei esquecer o quanto antes, de preferência logo que terminavam, levando os escritores direto pro bar. Nem todos gostam de suco de uva.
O primeiro talvez tenha sido o Marcelino Freire, circa 2010. A mesa ia ser com o Carpinejar, que ainda não tinha nem bombado nem desaparecido, mas o Marcelino tomou a cena de assalto. Sua leitura dramática de “Totonha” trouxe abaixo o auditório. Virei fã, comprei um exemplar de Contos Negreiros, pedi um autógrafo pro autor (que inovou ao abreviar Maringá como “MRG”) e fui ler num bar que não existe mais, ali na frente dos blocos de letras. Era noite de sarau. Quando o boteco fechou, cambaleei por dentro da UEM até perto do palco. No meio da confusão reencontrei o Marcelino (junto com Marcos Peres, o Astorga, meu bom camarada) indignado de que a gente chamava aquilo ali de sarau. Isso não é um sarau, disse ele. Sarau são três gatos pingados lendo poemas uns pros outros. Isso aqui é uma festa. Marcelino virou uma lenda: contava as histórias mais absurdas, foi parar numa casa que ninguém sabia dizer de quem era e até hoje não se sabe como ele fez pra ir embora.
Depois disso teve o Cristóvão Tezza, um escritor sério, formalista, cerebral. Tremendo pé de cana. Saímos do SESC direto pro Salero’s e desafiamos o estoque de Heineken do lugar: ou ele acabava com a gente, ou a gente com ele. Era difícil acompanhar o ritmo do professor. Lembro que o Marcos Peres, de novo ele, entregou pro Tezza uma cópia de seu romance recém-terminado e ainda inédito, que dois anos depois garfaria os prêmios SESC e São Paulo. Um dos integrantes da mesa, justo o que puxava as perguntas, era um jornalista local que tinha ficado famoso (quase, vai) por entrevistas clandestinas que ele fazia com escritores reclusos, sendo Dalton Trevisan e Rubem Fonseca suas mais famosas vítimas, de quem ele se aproximava se declarando fã e depois, na trairagem, publicava tudo que conseguisse. E o Tezza lá, disparando um absurdo atrás do outro, desarmado, ébrio. O final da noite é um borrão alcoólico na minha memória. (Uma semana depois o Tezza voltou a Maringá pra outra palestra, num erro de programação que deve ter custado o emprego de alguém. Disse que dessa vez não podia se demorar, mas que aceitava uma cervejinha, por que não. Só que os assuntos já tavam esgotados. Disse também que tinha esquecido o romance do Astorga no banco do táxi).
Mas a consagração do hábito só veio com Lourenço Mutarelli, em 2012. O próprio SESC organizou pra depois da palestra uma mesa com ares de oficial lá no Salero’s, mas alguém (o mesmo alguém?) cometeu o erro fundamental de reservar um espaço na parte de dentro, a parte coberta. E o Muta, mais que fumante, tabagista, saía a toda hora. Acabou se sentando na mesa que meus amigos e eu tínhamos armado, como quem não quer nada, do lado de fora do bar. E se mostrou, com seu uisquinho na mão, o cara mais boa praça do mundo. Nos ensinou tudo sobre elixir paregórico e outras diversões farmacêuticas. Quanto o povo do SESC percebeu que o convidado ilustre não voltava, foram atrás dele e se aboletaram na nossa enfumaçada mesa. O assunto, naquele momento, era o pau do ator Selton Mello. Muta os recebeu como um mordomo inglês: “Ah, vocês estão aí, é? Venham, venham, podem se sentar aqui, por favor… a gente tá falando sobre a metalinguagem.”
