Guardar as raízes
Ribamar chegou no Rio de Janeiro com apenas uma muda de roupa e um retrato de uma mulher escura na fotografia em preto e branco. Em um ano de trabalho como estivador, comprou um minúsculo anel de ouro com um mais minúsculo brilhante na ponta para enviar à noiva. Antes disso, porém, caiu nas graças de um português dono de armazém, casou-se com sua filha, teve filhos claros e herdou o negócio do sogro. A fotografia da ex-noiva perdeu o brilho e Ribamar perdeu as lembranças do Maranhão. Guardou, porém, o minúsculo anel. Entregou-o a seu primogênito e o instruiu a fazer o mesmo com seu próprio filho.
O anel está na família há quatro gerações. Não sabem o porquê, pois não cabe no dedo de ninguém, mas fizeram dele uma grande tradição. Alguns primogênitos nem sabem onde fica o Maranhão, mas não esquecem de passar o anel adiante: dizem que é uma forma de não esquecer de onde vieram.
Guardar o que não vale
Camões perdeu muitas coisas: dinheiro, dignidade, o réu primário, um olho… Guardou, porém, a chance de glória. Durante um naufrágio, teve de escolher entre salvar sua concubina chinesa (talvez também sua escrava) e salvar a bolsa com manuscrito d’Os Lusíadas. Ele disse: “gata, não é você, sou eu”. Morta a concubina, Camões publicou sua epopeia. Depois, escreveu poemas de saudade a chamando de Dinamene, ninfa aquática da mitologia grega.
Quase quinhentos anos depois, um brasileiro aspirante a escritor faz um poema (que ninguém lê) criticando o português por escolher a glória no lugar do amor. Depois de muito procurar por editoras e mulheres, escreve um poema de adeus (que ninguém lê) e se atira embriagado no mar de Copacabana.
Não encontra a glória, tampouco o amor.
Guardar a humanidade
Na década de 1840, o diplomata estadunidense Gideon Snow roubou o crânio de um escravizado que participou da Revolta dos Malês no período regencial. Snow deu o crânio para o Museu Peabody, para ser objeto de pesquisa para cientistas que buscavam comprovar a inferioridade biológica do homem africano.
Em 2095, a República Malê do Brasil ameaça declarar guerra aos Estados Confederados se não entregarem o crânio de Snow.
Guardar os passos do silêncio
Salomão foi o rei mais próspero de Israel. Acumulou ouro, rebanhos de carneiros, toda qualidade de presentes, 700 esposas e 300 concubinas. Em seu templo estava também a Arca da Aliança, com tábuas dos 10 mandamentos de Moisés e a vara de Arão. Quando o exército de Nabucodonosor II ressoou suas trombetas e pisoteou Jerusalém, o templo foi destruído e a Arca desapareceu. Espalhou-se pela cristandade a história de que ela ainda existe.
Em Juazeiro do Norte, a Arca da Aliança é uma gigantesca loja de sapatos produzidos com couro de bois e carneiros da região. Sua decoração é composta de papéis de parede do Padre Cícero dentro do Templo de Salomão. Lá, os varões do Cariri compram presentes para suas esposas e amantes. Vez em quando, também compram botas para um ou outro viado sigiloso. Os vendedores sabem de tudo, mas guardam o mandamento de que em boca fechada não entra mosca.
Essa é uma das muitas alianças inquebrantáveis onde se firmam os pés da moral e da tradição.
Guardar o mar
Esmeralda viu o mar uma única vez, aos dez anos de idade. Da viagem, ela guardou uma concha de bernardo-eremita, de cor marrom escura e pequenos buracos no calcário que um dia fora uma casa. Colocava a concha ao ouvido e ouvia o mar. Quando tinha mais de sessenta, a barragem de Brumadinho se rompeu. A água marrom escura do rio Doce levou sua casa, todos os seus pertences e um de seus netos. Muitos buracos abertos.
Depois de chorar todo o sal que tinha, Esmeralda fechou os olhos e, mesmo sem a concha, conseguiu ouvir as ondas estourando na praia.
Guardar a verdade
Isaac Babel morreu no Expurgo de Stalin, aos 45 anos, acusado de espionagem e traição. Deixou uma obra consagrada, mas pouco extensa, formada por contos e uma peça. Após a sua morte, surgiu a lenda de que seu primeiro e único romance não chegou a ser destruído pela NKVD. Rubem Fonseca escreveu Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, cujo protagonista parte para Berlim Oriental atrás do manuscrito perdido de Babel. Ao final da narrativa, o manuscrito se revela apenas uma farsa.
Um garoto carioca lê uma edição carcomida de Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos 10 anos antes da morte de Rubem Fonseca e 60 anos depois da morte de Babel. Para o garoto, podem ser falsas a lenda do livro perdido, as acusações de traição e a própria confissão de Babel emitida sob tortura. Aquela leitura, porém, será uma das coisas mais verdadeiras de toda a sua vida.
Guardar a fartura
Adilson Mascarenhas era o homem mais miserável de Remanso Velho. Em seu testamento, ordenou que queimassem sua casa e o enterrassem com suas joias, para que ninguém guardasse nada seu. A barragem de Sobradinho fez o São Francisco inundar a cidade. O enorme volume de água dissolveu a madeira do caixão. O ouro de Adilson ficou no leito do lago e seu corpo foi comido pelos peixes. Os peixes foram pescados e vendidos no mercado. Cada habitante de Remanso Novo guarda consigo um pedaço de Adilson Mascarenhas.
Guardar a honra
Em 1970, Yukio Mishima e a Tatenokai, sua milícia ultranacionalista, invadiram o quartel general das Forças de Defesa Japonesas. Ele conclamou a urgência de um golpe para restaurar o poder absoluto do imperador. Os soldados reagiram com indiferença ao seu discurso. Derrotado, Mishima realizou o seppuku. Fez dois cortes em cruz no ventre e gritou:
“Boa sorte, Vossa Majestade!”.
Encarregou seu subordinado Morita de decapitá-lo, para que o excesso de agonia não o fizesse se humilhar. Morita errou o primeiro golpe, atingiu o ombro e as costas. Mishima tombou no chão e gritou em desespero. Morita errou o segundo golpe, cortando só uma parte do pescoço. Mishima viu seu orgulho vazar como seu sangue e suas tripas. Furu-Koda tomou o sabre das mãos de Morita, disse “se não tem as manhas não entra não”, e decapitou Mishima.
Tão importante quanto guardar a honra, portanto, é guardar o nome do companheiro mais capaz de arrancar sua cabeça.
Perder o perdão
Maria Aparecida fugiu da então Misericórdia, hoje Itaporanga, na Paraíba. Na data de sua partida, o padre Eustáquio, que abusou dela durante a catequese, foi encontrado esfaqueado e mutilado no confessionário da igreja. Após uma década foragida, foi presa na fronteira com o Paraguai. Em seu julgamento, declarou não guardar rancor depois de todos esses anos.
Em sua cela, depois de todos esses anos, Maria Aparecida guarda escondido sob seu colchão o pênis ressecado do padre Eustáquio.
