A chegada de vovô

Tentamos nos acostumar à ideia de que vovô vai morar com a gente a partir do mês que vem. Terei que transformar o escritório em um quarto de hóspedes, ou melhor, no quarto de vovô, justo agora que vinha escrevendo todos os dias e o roteiro do filme parecia andar. Anna também terá seus problemas: embora seja mais disciplinada, precisa de espaço físico para trabalhar nas telas. Não chega a verbalizar, mas leio o incômodo no seu rosto enquanto enfia os materiais em caixas de papelão e as leva para o terraço. Há anos vemos vovô poucas vezes, sempre em datas festivas, desde que se mudou para o interior. Sempre quis participar mais de sua vida, sobretudo agora que a doença vai apagando sua memória. Mas as coisas que queremos nunca acontecem nos momentos certos.

Passam duas semanas, e vovô chega, apenas com uma bolsa de mão. Penso em perguntar se tinha esquecido o resto da mudança, mas talvez ele se ofenda. Numa situação como essa, vovó que teria arrumado sua mala, mas vovó morreu, e é precisamente este o motivo de vovô vir morar conosco. Ele esclarece antes que eu pergunte, olhando para Anna: não tem saído muito de casa, aquilo é tudo de que precisa. Os remédios, traz no bolso, diz, e mostra o frasco retangular com as divisórias dos dias da semana. O corpo reduzido de vovô, com a barriga murcha um pouco pronunciada, parece ter emocionado Anna, que olha com os olhos molhados para ele dentro do facho de luz morna que o envolve, vindo pela porta entreaberta. Pego sua bolsa e vamos andando devagar, no ritmo de sua perna esquerda – um pouco atrasada em relação à direita – até o seu novo quarto.

Ele se alegra ainda mais quando chega no quarto e vê a paisagem do porto desativado emoldurada pela janela. “Só não tem mais navio”, ele diz, dando uma risada breve, olhando o aterro que agora cobre a baía de Vitória. Me lembro então que vovô trabalhou muitos anos no porto, o que na verdade poderia ser motivo de tristeza, com todos aqueles contêiners enferrujados e abandonados onde ficava a faixa de areia antes da avenida, mas não é o caso. Ele se senta na cama e tenta recuperar o fôlego. “Hoje qualquer coisa me cansa”, diz vovô, ofegante. Talvez a vista do porto o faça sentir um pouco do vigor de sua rotina de estivador no passado. Não pensamos na vida dos velhos como experiências reais, mas como alguém que se lembra ou não se lembra de uma vida que não lhe pertence. Agora que a memória recente de vovô vai se desfazendo, pode ser que consiga estar mais perto dele mesmo. Pelo menos é o que aparenta neste primeiro dia, e fico feliz que tudo tenha começado bem.

Para o jantar, Anna prepara costela com batatas e vovô come bem. Claro que nem toca na salada. De sobremesa tomamos a dose de conhaque que em algum momento se tornara um ritual da família, vindo da parte dele ou de vovó, mas desde que o resto da família saiu da cidade tinha se perdido, porque não havia mais esses encontros. Fala de sua época no exército, na escola técnica, nos vários balcões em que trabalhou no centro da cidade antes da estiva. Enquanto eu e Anna tiramos a mesa, pego vovô olhando na direção do porto, embora da janela da sala os prédios bloqueiem a vista. Tem um rosto sereno e com poucas rugas. Ainda não deu sinal da doença, até aqui é como se não existisse.

No dia seguinte, sua cama já está arrumada quando vou até o seu quarto. Está apoiado no parapeito olhando pela janela, fumando, perdido no descampado que sufoca o mar. “Vô, para onde você está olhando?”, pergunto. Ele parece despertar e me olha, seus olhos claros com uma luz opaca, como um princípio de catarata. “Lá para dentro”, ele diz, inclinando a cabeça na direção do aterro. Vai começar uma história. “Uma noite a gente teve que pegar umas cargas no alto mar. Não lembro por que um navio tinha ancorado lá e não podia sair. Pegamos um barco pequeno e subimos no cargueiro, eu e mais quatro companheiros.

“A carga estava em três contêineres abertos, pilhas de caixas de plástico duro, como essas de feira. Descarregamos tudo em uma hora ou perto disso, nada demais até aí. Enquanto amarravam tudo lá embaixo, me afastei um pouco na direção da proa para fumar meu cigarro de palha. A noite estava escura, quente, o céu de um preto esfumaçado. Ainda não chovia e eu aproveitava meu cigarro, ouvindo pelo marulho das águas. Sempre soube que não largaria o cigarro.

“Em dado momento ouvi barulho de passos. Eram os companheiros, vinham em bando trazendo duas garrafas de conhaque. Coisa boa, importada. Muita carga acabava barrada na inspeção e era mais barato se desfazer dela do que pagar as taxas para entrar. Nesses serviços à noite alguém sempre tinha uma garrafa na manga, justamente para momentos assim. Fora o encarregado, que já tinha voltado para dentro do navio depois que descemos as caixas, não víamos mais ninguém. O mais próximo de vida eram os clarões que surgiam de vez em quando nos postos de petróleo entrando no mar, a uns quilômetros.

“Bebemos e fumamos ali, tentando manter o volume da conversa baixa, mas no fim de uma hora e duas garrafas já não era possível. Certa altura o encarregado apareceu, o cenho fechado, e sabíamos antes de abrir a boca que era hora de ir para o barco. Ele voltou para as cabines e os companheiros foram descendo. Fiquei ali para dar a última mijada. Na mureta da proa ouvia suas vozes diminuindo lá embaixo.”

Nesse ponto se cala e fecha os olhos, como se confirmasse com o passado o que estava para dizer. “Tinha terminado e ia me virando para voltar, mas não voltei. Algo me atraía lá embaixo, nas águas. Segurei bem firme na mureta e inclinei o corpo além da proa. Primeiro vi essa coisa estranha, uma espuma subindo do fundo, borbulhando, até chegar na superfície formando uma placa gosmenta. Como um fungo ou uma coisa purulenta.” Torce o canto da boca, com nojo. “Mas não ficou muito tempo assim, foi engolido pela água. Só que lá debaixo, bem no fundo, parecia sair uma luz. No início era um ponto, uma faísca que foi aumentando e se aproximando da superfície, numa forma que lembrava uma nuvem brilhante. À medida que o brilho subia e se alastrava, a água era sugada para o fundo, formando um princípio de redemoinho. As ondas começaram a crescer e o vento a aumentar. Me agachei atrás da mureta e segurei no corrimão, vendo aquilo cintilar logo acima do mar, antes de explodir numa fumaça esmaecida, sugando todo o som. Um silêncio total por um segundo, um silêncio que eu nunca mais ouvi. O mar se acalmou quase que imediatamente e senti um alívio, ou uma paz difícil de dizer. Lembro de achar que fosse Deus. Pode ser que eu tenha visto Deus.”

Ele faz uma pausa e cruza os braços. Depois força um sorriso. “Quando voltei para o barco e descrevi a visão, ninguém fazia ideia do que eu estava falando. Dizia a eles, gritava, como o mar tinha se revirado todo, mas eles não tinham sentido nada, nem uma marola. Ao contrário, naquela noite o mar estava bem calmo desde que a gente tinha embarcado. Falaram que eu tinha bebido demais, o que era verdade. Mas ninguém vê algo assim quando bebe.”

“Por isso você fica olhando para lá, por que acha que vai ver Deus?”, pergunto. “Ah, não”, ele responde, “não estou com pressa para ver Deus”. Levanta sorrindo, sem retomar o fôlego. Diz que está pensando em ir à feira, e me ofereço para ir com ele. Lembro a ele que é melhor não ir de pijamas, vovô ri e saio do quarto para ele se trocar. Penso naquilo o resto do dia, impressionado com a história, mas não chego a contar para Anna. E depois acabo esquecendo.

Mais uma semana se passa, e vovô parece plenamente adaptado à rotina da casa, embora fique boa parte do tempo no quarto vendo televisão. O som alto se espalha para outros cômodos, o que tem feito Anna ficar cada vez mais tempo no terraço, e eu com fones de ouvido. Acho estranho também que ainda não tenha falado em vovó, nem nos meus primos. Deve ser efeito da doença, que destrói sua memória mais recente. Num dos raros cafés que tomamos juntos durante a semana, digo a Anna que uma beleza de esquecer é poder usar sempre as mesmas roupas. No jantar, repito a piada e vovô quase engasga de tanto rir. Depois olha para Anna por alguns segundos e se vira para mim, o rosto sério. Come mais um pouco e me cutuca. “Quem é?”, pergunta. “É Anna, vô. Ela é minha mulher e moramos juntos, e agora você mora com a gente”, digo. Ele sorri e volta a comer. No fim dispensa o conhaque e vai para o quarto, arrastando a perna mais do que de costume. Tiramos a mesa em silêncio, eu e Anna, e nos abraçamos na cozinha por vários minutos.

Pego o notebook e abro o arquivo do roteiro. Já não me lembro onde parei, e a perspectiva de reler tudo me desanima. Minha cabeça não está lá e talvez seja necessário pedir mais tempo para finalizar a primeira versão. Não tivesse o argumento fechado e aprovado, tentaria usar a história que vovô contou. Mas não vejo como forçá-la na história de um policial misantropo que encontra um corpo tão conservado que não parece, ao contrário do que sua identidade indica, ter desaparecido nos anos 1970. Então fecho o notebook e vou para o terraço fumar. Os pincéis, esponjas e panos velhos manchados de tinta se amontoam na grande mesa de madeira, dividindo espaço com tesouras, trenas, potes de cola. Algumas telas em branco estão enfileiradas dentro de sacos plásticos e apoiadas na mureta. No cavalete, há uma tela pintada com um fundo chumbo, de onde brotam pinceladas azuis e amarelas que ameaçam se juntar, mas nunca se fundem, terminando talvez fora do quadro, inalcançáveis. Não é comum Anna enveredar por formas abstratas, talvez o caos dos últimos dias a tenha forçado nesse caminho. Pode ser também que o quadro esteja apenas em andamento e uma figura animal, humana ou um fenômeno reconhecível ainda vá aparecer. Quando termina suas telas, ela costuma virá-las de costas por alguns dias antes de retocá-las ou, quando não vê saída, destrui-las.

Apesar das lacunas momentâneas na memória, vovô segue bem, assistindo à televisão e fumando seu cigarro de palha de frente para o aterro. Eu tento avançar no roteiro, escrevo uma frase, apago duas, faço anotações no celular e me esqueço delas. Já Anna passa mais tempo no terraço, mas tenta manter um ambiente agradável para vovô, perguntando sempre se precisa de algo e cozinhando, quando pode, os pratos que ele gosta. Desde então ele não se esqueceu mais dela, ou pelo menos parou de perguntar. A meu respeito ele segue sem se confundir, mas tento me preparar para quando isso acontecer, porque é o destino da doença. Como será que vou reagir? Imagino como deve ser receber uma explicação de alguém que você não conhece, e precisar confiar nessa explicação, sem nenhuma garantia. Nesses momentos vovô vive sem precedente e sem destino, tendo que fabricá-lo, às vezes mais de uma vez por dia.

Certa noite estamos na sala, eu e vovô, ele assiste ao jogo na televisão e eu escrevo frases soltas no notebook. Perto da meia-noite ouço seu ronco vindo do sofá. Continuo ali mais um tempo e dou o trabalho por encerrado. Vovô está em silêncio, enquanto na televisão os jornalistas debatem o jogo que acabou. Quando vou chamá-lo para dormir na cama, vejo que está deitado de barriga para cima e seus olhos estão abertos. Abertos e vazios. Sinto um calafrio percorrendo todo meu corpo, mas coloco a cabeça no seu peito e sinto sua respiração. Sua boca se abre e uma voz estranha surge. “Somos feitos de um campo eletromagnético. O corpo é um invólucro”, é o que a boca de vovô diz. Me ajoelho diante dele e o chacoalho levemente com minhas mãos suadas. Ele fecha os olhos e, quando volta a abri-los, já é vovô quem acorda. “Ficou de quanto?”, pergunta, a voz rouca de sono. “Você estava sonhando”, digo. “Melhor ir para a cama.” Ele se levanta e vai, meio trôpego, arrastando a perna até o quarto.

Também vou dormir e decido não contar nada para Anna. Percebo que sua distância começa a me incomodar, embora entenda que ela precisa de espaço para trabalhar. Na manhã seguinte vou ao terraço com as duas mudas de roupa de vovô para lavar na máquina. Anna está de costas para a escada, trabalhando na tela. Vejo que agora a pintura abstrata começa a ganhar uns fiapos de nuvens na parte superior, enquanto o fundo chumbo escureceu. Ainda não há nenhuma figura humana ou animal. “E o que você está pintando aí?”, pergunto. Ela responde sem se virar. “Alguma coisa que eu sonhei. Mas não consigo lembrar direito.” Ligo a máquina e faço de novo a piada sobre vovô se esquecer que usa as mesmas roupas todos os dias, mas Anna está muito concentrada para responder.

O roteiro desanda e peço mais prazo para a produção do filme. Nada do que escrevi nas últimas semanas presta, nada me atrai na narrativa que criei, ao que parece, numa outra vida. Estou exagerando. Minha vida continua a mesma, com a diferença de que trabalho na sala em vez do escritório – que não existe mais. Recolho as roupas no varal e vou até o quarto de vovô entregá-las, mas ele está no banheiro. Abro seu armário e lá dentro só está sua bolsa de mão onde ficariam as camisas que vou guardar. Quando a retiro do lugar, percebo que não está vazia. Abro o zíper e encontro uma urna preta, que devem carregar as cinzas de vovó. Até então achávamos que ele a tinha jogado no Rio Santa Maria, num distrito do interior, onde vovó nasceu. Porém, trouxe com ele. Tenho vontade de abraçá-lo, mas não conseguiria esconder o motivo e ele poderia se ofender por eu ter mexido nas suas coisas e descoberto o que talvez seja um segredo.

Decido que vou escrever sua história, mesmo que a produção não me dê mais tempo para o roteiro. Escrevo à noite, depois do jantar, quando vovô já desligou a televisão e foi dormir. Nesta noite escrevo as três primeiras páginas, bebendo as últimas duas doses do conhaque. No início é assim, o fôlego é longo, então não penso muito adiante e tento ir dormir. No caminho, vejo uma luz vindo do quarto de vovô, com certeza da televisão. Chego lá e um filme de ação se desenrola sem plateia e sem som, já que vovô dorme enrolado nos lençóis, provavelmente há algum tempo. Não ronca nem se mexe. A imagem daquela noite volta, junto com a voz que falou por ele no sonho. Toco seu corpo, que está gelado apesar das cobertas, sinto sua pulsação, viva, ritmada e sem sobressaltos. Está de lado e viro seu corpo para cima. Os olhos cinzentos, vazios, como um deserto de metal. Desta vez permanece em silêncio. Com cuidado, retorno vovô para a sua posição original. Estou tremendo, como fazem os velhos, estou suado, minhas mãos umedecem os lençóis quando cubro o diminuto corpo de vovô. Vou até a janela, olho para o aterro tentando ver o que meu avô um dia viu. O que aparece na paisagem, no entanto, não é Deus. Sei quem é o vulto que passa pelo quarteirão, mas não quero admitir; conheço a sombra antes de assumir sua forma humana sob a luz dos postes da beira-mar, atravessando a mureta que separa o aterro da pista. Sei quem é aquele que arrasta sua perna esquerda, sempre um passo atrás da direita, e desaparece com seu corpo reduzido entre as vigas enferrujadas dos contêineres. Olho para a cama e vovô continua dormindo com seus olhos sugados, enquanto seu outro par de olhos vive em seu outro corpo, num corpo alucinatório, no Deus que foi buscar.

Passo o resto da noite sentado na beira do sofá, fumando o cigarro de palha de vovô, tentando parar de tremer e suar. Será que o outro corpo de vovô vai voltar, passar pela sala, me dar boa noite e ir se deitar? Não ouço nenhum barulho até amanhecer, quando Anna acorda e começa a arrumar a mesa do café. Logo depois ouço a descarga do banheiro e vovô sai, vestindo a muda de roupas que guardei no seu armário. Passa a manteiga no pão e diz, aos risos, que precisa comprar roupas novas. “Trouxe menos do que imaginei”, diz. “Afinal, é aqui que eu moro.” Anna segura minha mão, pergunta se não vou comer nada. Enche minha xícara de café e eu a tomo, roboticamente. Ela e vovô conversam, mas não consigo concatenar as palavras que dizem. É como assistir a uma peça sem entender o idioma. Quando terminamos, Anna diz que tem uma novidade e nos chama para o terraço. Está animada para mostrar o quadro que concluiu na noite passada.

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