almas marias

@brontopsbaruq

1

Há uma Marília. Ela tem olhos azuis e parece feliz. É um passarinho, sua presença enche a casa.  É um passarinho, carrega consigo sua própria gaiola. Me acusa de coisas que não faço, outras que deixei de fazer. Marília é tão simpática quanto calculista. Apesar de sua frieza, não consegue ver sangue e se recusa a ver notícias ruins na tv. Eu não gosto de falar dela, porque se pensamos demais sobre o que se ama, fatalmente deixaremos de amá-la.

2

Há uma Mariana. Ela tem um cheiro especial. Se aproxima para que possa beijá-la. Eu recuo e não deveria porque serei traído por quem estou atualmente. Mariana fez cu doce e gostaria de dar o troco. Então finjo que não entendo a indireta. Porém não sei se foi realmente uma vingança ou se foi o cheiro, indescritível, inesquecível. Iria me enlouquecer.

Mariana gosta de Mozart e de Tupac. Ela ficará órfã cedo demais e também terá um filho, de repente, cedo demais.

3

Há uma Mari. Gosta de ler, mas é apenas para a escola. Nós nunca falamos de livros. Ela usa óculos horrorosos e eu sei que somente eu a reconheci bonita. Errado. Todos os colegas da escola vão se apaixonando por ela, um atrás do outro e eu, que havia sido o primeiro, fico esquecido na sala dos amigos.

Enquanto isso Mari chama cada vez mais a atenção. Certa vez ela acorda no meio da noite para tomar água e vê alguém dentro do seu apartamento vestido com roupas negras e balaclava, feito um ninja de filme. O pai dela levanta assustado com o grito. Nunca souberam quem foi.

Hoje Mari joga futebol. Torce para o Santos, mas joga pelo São Paulo. Sigo inabalavelmente apaixonado. Nunca ficaremos juntos, mas sou espírita, isso se resolverá depois.

4

Há uma Miriam. Gosta de novela. É mestiça e tem olhos mel. Quando estamos nós dois no banco traseiro do carro, minha mão a procura. Eu a sinto pulsando sob o tecido fino de algodão, entre as pernas. Ela me prende e diz que não quer terminar e me beija e me faz de idiota e eu não me importo, nem mesmo quando ela me abandona em troca de outro ex.

Mas de alguma forma, me ouve e respeita. Me acha inteligente e eu sei que mais que ela eu sou. Emprestei minha coleção de Sandman para ela e demorei muito para recuperá-la. Fiquei na dúvida se queria uma desculpa para que eu fosse visitá-la ou se realmente gostava do quadrinho.

Tenho vontade de revê-la, mas Míriam está no Japão, tem cinco filhos com um homem de olhar doce e submisso.

5

Há uma Mary. Ela é atlética. Ela prepara comida para os filhos com eficiência. Trabalha direito. Inteligente. É bonita até demais. Teve um problema de coluna quando criança, hoje anda levemente empertigada. O que lhe dá um certo ar arrogante.

As outras Marias sentem certa inveja dela. Já estive em sua casa, por isso poderia contar a elas o segredo, mas não faço, porque gosto de vê-las disfarçando seu desconforto com a perfeição da outra. Sua casa é um caos completo, roupas jogadas e louça pela pia, não há lugar para sentar e nem um espaço vazio para distrair o olhar. Sem querer acabo pisando no pote de água do cachorro e a ração se espalha entre o material escolar da filha e um de seus pares de tênis para corrida. Mary é do signo de Sagitário.

6

Há uma Marieta. Ela me conta tudo. Me conta tanto que sei que nós não funcionaríamos juntos, ela quer uma trepada forte e vigorosa e eu posso fazer isso nela, mas acho pouco. Fez uma cirurgia e me mostra o corte. Me deixa tocar e lamber até, mas fico nisso porque o marido dela foi buscar a pizza. Somos como irmãos e tenho vontade de fazer um incesto.

Marieta é bióloga e tem uma fazenda de formigas em casa, aquários e mais aquários com formigas circulando em tubos transparentes. Toca música de vaquejada e de pisadinha para os insetos. Mas não quando o marido está em casa.

7

Há uma Maria. Ela tem quase oitenta anos. Não pinta o cabelo como hoje é a regra e é só por isso que sua idade escapa. É pequena e vigorosa, me oferece um café. Numa noite onde circulou um cigarro de maconha, ela me tocou e sorriu de um jeito abestalhado.

Há quem a ache insuportável e consigo entender a razão: ela não para de falar e, pior, não para de falar de si. Apesar disso, acho que numa distração ficaria com ela, não por pena, mas por solidariedade. Eu também ficarei velho e gostaria de trepar com algo além de putas. Ela adora poesia e acredita mesmo que todas as mulheres são injustiçadas e que um dia mudarão o mundo.

Hoje, porém, descobri que ela está com câncer, vai começar o tratamento semana que vem e tudo que consigo é dar-lhe um abraço desajeitado diante de seu medo.

8

Há uma Mair. Não sei seu nome e nem o que faz ao certo. Descobri por acaso que ela é de aquário. Gostaria de conhecê-la mas vivemos em mundos diferentes, apesar de vizinhos. Não acho que a interesso, mas posso estar enganado. Não faço ideia de como sou na cabeça de outros.

Tinha um namorado com quem terminou, mas eu o via sempre pelas ruas e na porta do prédio. Escutei quando o porteiro deu um esporro no sujeito, Ela já te mandou embora, tenha dignidade e vai-se daqui, ela não vai atender.

Mair tem muitas tatuagens e é extremamente musculosa, mas seu olhar é um tanto vago e triste. Às vezes, sonho que vou até seu apartamento e bato a porta: eu não sei o motivo, eu não sei o porquê, mas gostaria de conhecer você. Ela me deixa entrar, a porta se fecha, a câmera fica do lado de fora.

9

Há uma Marina. Ela pediu por sexo anal. Dar o verso, no nosso dialeto íntimo. Recuso. Não tenho vontade. Ela não entende, os homens sempre querem a bunda.

Para não deixá-la somente com a decepção, explico que havia outra Marina e que essa Marina gostava muito de dar o verso. Somente o verso. Apesar de minha recusa inicial, acabo penetrando-a. Peguei repulsa, não queria lembrar dessa outra Marina e por conta disso, deixei de visita-la também. Marina tinha A Montanha Mágica na cabeceira mas toda vez que fui era sempre a mesma página marcada. Queria ser atriz.

10

Há um Mário. Sempre solícito, sempre gentil, muitas vezes cheio de piadas inapropriadas. Única maria que também gostava de quadrinhos tanto quanto eu. Ele me oferecia carona e só depois de muito tempo, percebi que ele não morava para meus lados. Caso sentasse a meu lado na hora de beber, passava a encostar e a dar pequenas beliscadas, no nível exato para que eu soubesse que estava me bolinando. Gostava de gatos e de brigar com a própria família, enorme e com tantas irmãs e primos diferentes, que eu nunca tinha certeza de quem falava.

Teria sido mais simples dizer não. Preferi ser canalha algumas vezes com ele no trabalho para que parasse de me perseguir. Foi demitido por minha causa e mesmo assim liga em meus aniversários. Sempre me presenteia com livros que revendo em um sebo na Praça João Mendes.

11

Há uma Meire. Uma noite, completamente bêbada, perguntou porque eu não fico com ela. Não quis dizer a razão, mas não é por ela ser feia (embora não seja bonita).

Ela só é frágil e fragilidade sempre me afasta. Fragilidade broxa. Submeter-se, render-se, entregar-se, entretanto, é tesão certo.

Uma outra Meire, com histórico de bulimia, aceitou ir ao cinema comigo. Essa Meire tinha pés harmoniosos, ponto fraco meu. Contudo, após nosso beijo, ela se encolheu tanto que poderia caber em minha mão. Finalmente, ela deixou escapar. Porém eu só conseguia imaginá-la esmagada pelo meu tamanho. Cortei logo antes que ficasse minimamente sério. O filme era A Morte e A Donzela, com a Sigourney Weaver.

12

Há uma Marion e falamos muita baixaria um com o outro. Às vezes pessoalmente, às vezes trocando mensagens de celular. Ela um dia disse que ia gozar e que havia gozado. Ela estava na escrivaninha diante de mim. Eu que nunca havia ficado nem com pau duro em nossas conversas duvidei. Marion curte Pearl Jam e é de Gêmeos.

13

Há uma Mariel. Ela disse que o melhor homem da vida dela foi um muçulmano. Que eles tratam uma mulher como ela deve ser tratada. Eu conheço seu marido. Parece o House, aquele da série. Não faço ideia se o marido sabe deste ex-namorado islâmico. Não somos amigos próximos. Tampouco é médico, porém é rico e ficou a seu lado no hospital durante toda a recuperação. Antes de sairmos do quarto, ele estava segurando a mão da esposa, dedos entremeados um a um. Invejei Mariel.

14

Há uma Moira. Ela tem uma tatuagem do Catbug, personagem que pouca gente conhece. Eu já tentei puxar assunto sobre este desenho com ela, mas Moira não se esforça. Mesmo quando é sobre trabalho: restringe a exatamente o que é dito. Parece que eu a agrido somente por existir. Conversa apenas com um colega comum, que é gay. Suspeito que seja lésbica ou autista.

Eu imagino que já tenha apagado sua tatuagem. Catbug saiu de moda.

15

Há uma Marilu. Ela é gorda e bonita. Engraçada. Fazemos serenata na frente do seu prédio em vez de usarmos o interfone. Não demora e ela desce. Conversamos e brincamos. Ela canta bem melhor do que nós tocamos violão. Ela nos apresenta uma vizinha, essa sim nos interessa. Mas é fresca, só desceu para ver quem éramos com a desculpa de passear com o cachorro. Marilu, entretanto, é legal e carente. Facilmente se apaixona e tem fama de falsa e mentirosa. Não sei se é crueldade das outras Marias. Deixamos de visita-la sem motivo. Eu bem que tentei gostar dela, mas não consegui. Não sei se foi crueldade minha.

Ainda nos vemos vez ou outra e sempre me sinto culpado por não ter feito nada errado com ela.

16

Há uma Marieva. Quando estamos sozinhos, eu a puxo pelo cabelo ou pelos pés. Ela ri e recusa e se agarra nos tapetes e nas paredes, mas eu continuo indiferente. Vou arrastando como quem arrasta uma fêmea pré-histórica. Podemos fechar ou não as cortinas. A jogo sobre o colchão e puxo primeiro suas calças (deixo a meia sempre por último, gosto dos pés, mas os dela são feios). Ela quer sempre me chupar, tem dias que deixo. Às vezes eu a como de frente, pernas dela sobre meus ombros, mas prefiro ela de costas, estapeando sua bunda até a coloração ficar uniforme. Coloco meu pé sobre a cama, ou sobre seu braço. Tento pensar numa música para escolher um ritmo. Ela tenta rebolar e eu não quero, a contenho a prendendo e puxando no quadril.

Marieva diz que nunca vai encontrar outra pica como a minha, me chama de forte e de fodão; Não adianta ela mentir, eu sei o que sou: um chihuahua sacudindo freneticamente.

prop há uma mulher (21 jun 24)

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