balé clandestino

Quando tudo estava terminado, ela saiu de cima de mim com um jogo de pernas, um passe clandestino de balé, e desabou do meu lado no colchão, depois puxou o lençol até a altura do pescoço, envergonhada de repente. Quase de bruços, os cabelos castanhos lhe cobriam as bochechas e se moviam pra cima e pra baixo no ritmo descompassado da sua respiração, um pássaro em agonia. O dia logo amanheceria e a noite que ainda se insinuava pela janela entreaberta, refletindo nos lençóis, era de uma cor improvável, púrpura, violeta.

Alcancei o cigarro na cômoda. O colchão de molas gemeu uma última vez. Ela se levantou e, levando junto o lençol, caminhou até o banheiro. Fiquei deitado escutando a pequena sinfonia da sua toilette. A fumaça do cigarro não podia se decidir entre preencher o espaço minúsculo do quarto ou escapar pela fresta da janela.

Voltou com os cabelos pingando, caçando as roupas pelo chão. Buscava ficar sempre de costas pra mim enquanto se vestia, um striptease ao contrário.

Você não vai tomar banho, não?

Agora não.

Por que não?

Deita aqui perto de mim.

Ela veio até a beirada da cama pelo lado esquerdo, o oposto. Atarraxava os brincos, os cabelos enroscados atrás das orelhas. Eu não conseguia olhar pra qualquer outra coisa que não fosse o corpo dela.

Viu a minha blusa?

Deita.

Tá tarde. Quase dia já.

Apaguei a guimba no cinzeiro.

Foi bom?

Ela sorriu pela primeira vez, como se, num jogo de cartas, tivesse percebido um erro bobo do adversário. Se debruçou por sobre a cama, esticando os braços pra frente, uma gata de rua que se espreguiçava, depois correu as unhas pela minha barriga. Mas nada aconteceu.

Que te importa isso?

Diz.

Foi bom. Muito, muito.

Mentirosa. Sacana.

Juro.

Enfiei a mão por debaixo de seu cabelo curto e puxei. Ela fechou os olhos e ofereceu o pescoço.

Chega, não dá mais.

Cala a boca.

Abriu os olhos e me mostrou o fogo impossível que ainda existia dentro deles. Eu soltei o seu cabelo como se fosse a última coisa que fosse fazer na vida. Ela se esticou por cima de mim pra buscar um cigarro na cômoda, apagou o fósforo com um gesto que lembrava o sinal da cruz.

Eu não consigo parar de te olhar, já te disse isso?

Já. E você também já me pagou. O dia já vai raiar. Tô indo nessa. Tó, fica com o maço.

E a gente, como fica?

Ela terminou de abotoar a blusa com o cigarro no canto da boca, os olhos semicerrados. Depois me beijou nos lábios, pegou a bolsa e saiu, deixando aberta a porta do quarto.

Eu me levantei e fui até a janela, escancarei as cortinas. O dia tinha mudado de cor. Ouvia ao longe o canto de um pássaro que não conhecia, senti cheiro de fritura e de fumaça de óleo, a Avenida Herval despertando devagarinho. Enquanto esperava que ela surgisse lá embaixo, no pavimento, eu tive a certeza de que, de tudo o que tínhamos vivido dentro daquele quarto, nada restava, nada restaria, nem mesmo a lembrança. Talvez ela tenha seguido por um caminho diferente, ou tomado um carro em frente ao hotel, porque esperei por muito tempo pra ver ela descendo a Joubert de Carvalho com seu passo firme, de bailarina ou de passarela, mas esperei em vão.

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