
Quem nunca sonhou em fugir com o circo? Já trouxe aqui uma proposta baseada em outro livro da escritora poeta e jornalista russa Maria Stepánova, Memória da Memória. Agora trouxe outra baseada na dissolução da identidade em um carrossel nômade, que é a premissa deste Desaparecer (trad. Irineu Franco Perpétuo, Poente).
Neste pequeno romance, seguimos M., uma escritora cinquentona que parte para um evento literário em um país estrangeiro e que, depois de uma série de trapalhadas e burocracias, acaba tendo a chance de trabalhar como figurante em uma trupe de circo, sumindo como em um passe de mágica.
Durante sua jornada, questiona sua identidade e sua relação com a língua materna, marcada pela destruição e morte associadas à guerra: ela chama a Rússia de “a besta”, associando-a à devastação produzida na Ucrânia (sem nomear os países, porém).
Mesmo que menos reflexivo e ensaístico do que Em Memória da Memória – neste, ela prefere investigar as possibilidades do futuro às encrencas do passado -, e mais calcado na narrativa pura, este intrigante livrinho nos convida a refletir sobre o desejo de desaparecer, física e emocionalmente, como forma de escapar das amarras do passado e da realidade opressiva.













PROPOSTA
Pare um tempinho e medite: para você, o que seria fugir com o circo, e por quê?
Na série Dying for Sex (que eu traduziria por Morrendo de Tesão), a protagonista Molly (Michelle Williams), depois de descobrir que seu câncer voltou em metástase e tem pouco tempo de vida, descobre também que nunca teve um orgasmo com seu marido. Resolve abandoná-lo e iniciar uma jornada de autoconhecimento através do sexo, com direito a incursões no mundo BDSM.
(Não deixa de ser uma jornada parecida com a de Walter White, em BreakingBad. No seu caso, o câncer o motiva a fugir para outro tipo de circo: o de megatraficante de metanfetaminas.)
Qual seria o seu circo, e qual seria o motivo para você fugir com o circo?
Literalmente fugir com uma Caravana Rolidei da vida? Tirar férias e não avisar ninguém? Ir viver em um país estrangeiro? Trocar de identidade e continuar morando na mesma cidade, só que em outro bairro, usando outro nome e tendo outra profissão? Trabalhar como uma Bela da Tarde? Participar de uma seita? Abrir uma pausa na realidade cotidiana para um breve surto de despersonalização? Falar em outra língua? Criar um fake na internet e relacionar-se com outras pessoas através de outra identidade? Descobrir que tem habilidades esportivas, performativas e psíquicas inesperadas, ao lado de um determinado grupo de pessoas? Abandonar totalmente a família na direção do desconhecido? Desbundar por um tempo? Desbundar para sempre?
Como é que se abriu essa oportunidade de você fugir com o circo?
Tomada a atitude de fugir com o circo – seja lá o que isso signifique para você – , fuja com o circo. Conte o que acontece depois que tomou essa resolução. Como se tornou sua rotina. Como é trabalhar nesse circo. Olhe um pouco para o passado – você ainda estranha sua nova condição e sente alguma saudade da anterior -, mas não muito. Olhe para o futuro. Como são seus novos companheiros, suas novas roupas, sua nova identidade, seus novos sonhos, seus novos desejos? Neste circo, seus desejos são uma ordem? Ou são uma desordem?
Narre usando cenas, situações, diálogos.
Não conte, mostre.
Pense que ao fim de seu conto – que você não vai contar para o leitor no início, vai deixar pra contar pra ele só no fim -, pense que no fim de sua história a protagonista irá tomar uma dessas atitudes:
- voltar para sua realidade anterior;
- manter ambas realidades rolando, a rotina real e a rotina do circo;
- fugir com o circo para sempre.
Enquanto vai contando, vai refletindo sobre as atitudes que toma, vai descrevendo as emoções e as sensações de mergulho no escuro – seja como trapezista, mágico, palhaço, domador, músico, apresentador, assistente de mágico, coelho, cartomante, mulher pelada ou mulher barbada.
A ação se mescla à reflexão que se mescla à percepção, tudo ao mesmo tempo agora.
Narre na primeira pessoa, em uns 12 mil toques.
