por Américo Paim
Sentado na cadeira, ainda nova após quase cinco anos, braços sobre a mesa, Ramiro contemplava, por cima da tela do notebook, a estante ocupando toda a parede à sua frente. Nada interessado nos livros, organizados por ordem alfabética – contribuição de Marilena, mas nas garrafas e caixas de uísque 12 anos, na parte mais alta, bem no meio da prateleira. Gostava daquela visão. A estante foi conquista de muita luta dentro do casamento. Ela só parou de implicar três anos atrás e ele, antes que ela mudasse de ideia, adaptou o quarto que seria sala de TV, ideia que nunca vingou.
Pegou a escada pequena, ao lado da pequena geladeira, outro mimo daquele seu espaço, e acessou as garrafas. Um copo não faria mal. Sem beber há muito tempo por ordens médicas, vinha disciplinado e orgulhoso daquilo. Achou a caixa de Black Label leve, mas atribuiu às suas recentes aulas de musculação. Desceu os degraus e voltou à mesa. Tirou o copo da gaveta do meio, colocou gelo e abriu a caixa.
– É o quê, Ramiro?
– Lena, cadê meu uísque?
– É Marilena. Não me chame pelo apelido.
– Porra, véi, para com isso aê, que saco… Quéquecêfez com meu 12 anos?
– Esqueça isso. Só tire as coisas do apartamento.
– Simples assim?
– Isso. Você consegue.
– É minha bebida, dentro do meu escritório, na minha casa!
– Opa, ex-casa… Esqueceu do acordo assinado? Eu com a casa, você com o carro.
– Aquela desgraça véia?
– Agora, né? Antes não podia nem encostar na lataria…
– Lena, só responda a porra da pergunta.
– Agressivo de novo? Vamos voltar dez casinhas e pedir outra protetiva?
– Peraê… calma.
– Ah, tá…
– Véi, isso aqui é, ou era, meu espaço. Quem pegou, afinal?
– Eu tinha uma festa pra ir. Cada um levava sua bebida. Foi assim. – disse ela, seca.
– Com meu 12? Você nem bebe uísque, Lena…
– De novo… que gracinha. Me chamou de quê?
– Marilena, caralho.
– Hein?
– Marilena, fofa. Já saquei tudo. Cê foi com o namoradinho, né?
– Renê. Você tem dificuldade com nomes, né?
– Sou corneado e ainda tenho que falar o nome da desgraça?
– Foi o quê?
– Galhado, corneado, enfeitado…
– Que cara de pau, Ramiro. Eu só retribuí a gentileza que me fez com Queila.
– Oxe, peraê…
– Parou aí, tá? Chega e tchau.
– Não, não desligue!
– Conversa mais chata. O casamento acabou, me deixe em paz.
– Você quis acabar, que fique claro.
– Sim! E, por favor, sempre repita isso. Me ajuda muito na terapia.
– Hein, cê voltou pra terapia?
A ligação não caiu. Ela desligou na sua cara. E não mais atenderia por bom tempo. Sempre foi assim nas tantas brigas, quanto mais depois do divórcio complicado. Ele desistiu do uísque, voltou às gavetas, descartando coisas. Parou no bilhete de Queila, bem romântico. Um que Lena não pegou, pensou ele. Por que ela não entendia que Queila foi só um pequeno vacilo, um caso de viagem a trabalho? Por que não aceitava seus argumentos? Melhor tirar suas coisas do espólio da união de sete anos, para não piorar tudo. Pensou na terapia dela: foi lá que começou tudo. Não devia ter aceitado aquilo… ela ficou de juízo mexido. Ele tinha certeza de que ela lhe colocou chifre com o bonitão terapeuta, como ela mesma o chamava, assim mesmo, com o adjetivo primeiro.
Ela pensou que ele sumiria mais fácil de sua vida. Culpa minha, pensou. Demorei até o basta. Ele começou a viajar demais e na empresa sequer sabiam de suas viagens a trabalho. A vida foi liquidificando em garrafas. As dívidas de jogo, que ela resolveu com intervenção do pai dele com ameaça de deserdar. No dia que bateu nela, enfim entendeu que era inadiável. Devia ter dado fim em toda a bebida, pensou. Jogado fora a coleção de chaveiros. Queimado os recortes de futebol, o uísque como gasolina, mandando tudo em filme para ele. Como não pensou nisso antes? E por que não rasgou todas as suas roupas, entregando à amante em sacos imundos? Ou deu fim nos remédios tarja preta que ele passou a usar, ou colocou raticida no leite que ele passou a tomar toda noite? A terapia com o bonitão lhe salvou de todas as formas. Ramiro deveria agradecer ainda estar vivo.
– Ramiro, ainda está aí é?
– Sim, por quê?
– Eu preciso voltar pra casa.
– Então venha.
– Não com você aí.
– Que bobagem é essa, Lena? Não tem mais protetiva. Venha em paz.
– Isso nunca. Vai sair que horas?
– Tô pensando em dormir aqui com você.
– Você está usando o quê?
– Não consigo dormir sozinho. Tô acostumado.
– Sem noção sempre, né?
– Na casa de meu irmão a cama é uma merda.
– Que peninha que eu tô…
– E outra: não é justo eu ficar sem nenhum móvel.
– A fase de negociação acabou.
– Véi, você me devolveu os discos de Caetano todos quebrados. Jogou ácido nas facas de caça.
– Aquilo foi lindo, uma delícia…
– O combinado não foi dividir os livros? Vem pra cá resolver isso.
– Nem pensar.
– Lembra quando a gente lia junto?
– Prefiro esquecer.
Só que se pegou lembrando, ao desligar o telefone na cara de Ramiro mais uma vez. Um sentimento confuso de nostalgia e raiva só por pensar naquilo. E depois do coice, a queda. Lhe vieram coisas que até admitiu boas. A viagem ao Rio para uns dias no inverno de Mauá. As costelas que ele cozinhava do nada, dia de domingo, se não tivesse futebol, é verdade. Ele mudando vários móveis de lugar, que ela pedia sempre. O seu bom gosto musical, algo que sempre lhe pareceu improvável.
Enquanto caminhava pela sala, ele teve boas recordações. O café juntos, só no fim de semana, por causa dos horários diferentes. O pôr do sol de verão na varanda, bebendo vinho e ela contando piadas da Internet. As trepadas históricas no sofá… neste ponto ele parou. Era outro sofá. O original virou lixo. Só porque ela o pegou com Queila bem ali. Não foi para magoar, foi improviso. Para ele aquele móvel era um lugar comum, porém, era só deles no imaginário de Lena, quer dizer Marilena… se arrependimento matasse…, mas só a parte de fazer no sofá, porque Queila, aí não dava pra mentir que foi bom demais, ele pensou.
– Saia agora, Ramiro.
– Eu sabia que cê vinha.
– Vim garantir que vá logo, sem levar nada meu.
– Vamo conversar, Lena!
– Porra, que saco…
– Cê tá nervosa à toa. E tá me chamando de ladrão!
– Você me roubou foi coisa, miserável.
– Só peguei o combinado.
– É um jegão mesmo… tô falando de minha autoestima, a forma física, a lucidez!
– Que exagero da porra…
– Olha isso aqui, véi… Você bebeu água e largou o copo no chão.
– Que bobagem…
– Cortei meu pé assim, desgraçado.
– Lena, minha querida, foi uma vez só. E eu já pedi desculpas!
– Sete anos de merda. Como fui tão cega?
– Olhe, cê tá muito estressada. Quer que eu faça uma comidinha, um drinque?
– Quero que vá beber com o capeta!
-Peraê, peraê!
– Pegue suas coisas e me deixe viver, que porra!
– Tá bom, tá bom. A gente conversa outro dia.
– Nessa encarnação não!
– Deixe eu pegar os livros, então. Tenho ficado muito só.
– E as putas, cadê? E a puta mestra, Queila, galinha master?
– Não fale assim…
– Vai defender a vadia?
– Ela gosta de você e tudo.
– Não provoque o pior de mim, Ramiro!
– Tá vendo que eu tava certo? Eu que devia pedir a protetiva… que geniozinho do caralho!
– Puta que pariu! Não xingue mais na minha casa, porra!
Ela se deixou cair no sofá, esgotada. Fechou os olhos, mãos largadas. Chorou de soluços. Ele, após instantes atônito, colocou um disco de Bethânia que ela sempre gostou, foi à cozinha e lhe trouxe água. Ela bebeu a mistura de lágrimas e água gelada. Ele lhe tomou o copo, colocou no chão, sentou-se próximo dela, pegou-lhe as duas pernas e colocou sobre as dele. Fazia assim quando ela estava nervosa, algo comum nos últimos anos, mas ele lembrava dos tempos mais antigos, porque a coisa acabava em sexo, no finado sofá ou no quarto mesmo.
– Nem pense! – percebeu ela, saltando como siri na lata.
– O que foi, Lena?
– Para de me chamar assim – chorando de novo.
– Você quer dançar?
– Puta que pariu! Em que planeta você vive?
– Você sempre gostou dessa música, amor.
– Saia, apenas saia – ela se sentou no chão, derramada.
– Não posso lhe deixar assim.
– É porque você tá aqui, idiota!
– Agressiva… quer uma massagem?
– Quero! Quero! No seu cérebro! Se ele ainda estiver por aí!
– Não grite. Assim a gente não se acerta.
– Tá, tá – ela se levantou – Por favor, vaze! – gritando de novo.
– Rapaz, que pressão… OK, vou pegar meus livros.
– Prateleira de baixo – ela disse, indo com ele ao escritório.
– Só isso? – disse ele, examinando o local.
– O que quer mais?
– E os de Paulo Coelho, Dan Brown? E minha coleção da Placar?
– Esse cocô todo tá numa caixa na área de serviço.
– Você ficou com os melhores livros, véi.
– Não ficou com os discos?
– E meu jogo de faca de camping?
– Vá pegar essa merda na cozinha.
– Tá grossa, hein? E minhas roupas? Não peguei tudo.
– Sacos de lixo na área de serviço também.
– Porra, de lixo?
– Agradeça que estão limpos…
– E faltam umas garrafas.
– Falta não. Mandei tudo.
– É que tem umas espalhadas por aqui.
– Como assim? Você escondia bebida?
– É que você pegava muito pesado.
– Me mostre. Isso eu quero ver.
Uma estava no baú de enfeites de Natal, lugar que Lena, quer dizer, Marilena, não mexia. Quem gostava daquilo era Ramiro. Outra na caixa de utensílios de pesca. Ali ela nunca metia a mão, porque achava tudo fedido. A terceira, bem pequena, em um azulejo falso, atrás da porta do banheiro. A última estava nas dependências de empregada.
– Embaixo da cama? Que falta de imaginação. Por que dois copos?
– Nada demais…
– Você comeu Lurdinha também, seu desgraçado? – disse ela, após segundos processando.
– Foi uma coisa assim…
– Não acredito nessa merda!
– Eu tinha bebido demais e…
– Me diga uma novidade, miséra!
– É que eu errei o quarto. E ela tava com uma roupa igual à sua, aí…
– Canalha! Quantas vezes? Fale!
– Uma só.
– Quantas vezes? Não minta!
– Duas ou três, eu acho…
– Quantas???
– Tá bom, tá bom… O que é um peido pra quem tá todo cagado… naquele mês que cê viajou…
– Pro congresso? E ela me disse que tava adoentada. E eu com pena de você sozinho aqui. Que idiota!
– Eu comi mal demais naquela época… na moral.
– Eu devia lhe matar aqui, agora, gritando de alegria!
– Lena, repare…
Ela não o deixou falar mais e foi para cima, entre tapas e gritos. Ele correu para a sala. Ela desabou no sofá de novo. Ele ficou de longe, hesitando. Após minutos tensos, ela falou.
– Vá embora. Ou chamo a polícia! Saia, saia!
– Tá bom, certo. Vou pegar minhas caixas e colocar lá fora. Não me bata.
– Apenas vá, suma…
– Não dá mesmo pra eu dormir aqui hoje? No sofá mermo…
– Você é doente…
– É que amanhã tá mais calmo. Lhe explico tudo.
– Tchau, Ramiro.
– Você me deixa com o coração partido falando assim.
– Eu queria era partir você todo e distribuir feito hóstia pra cachorro de rua: “o corpo do demo”.
– Que agrestia, véi.
– Se bem que os doguinhos nem merecem sua carniça.
– Aliás, ligaram do pet shop. A última internação de Bambivis tava em aberto.
– E daí? Pague você! E nem me lembre do meu pobrezinho… sofreu tanto.
– Eu num tinha dinheiro, mas já resolvi.
– Deixou conta pra mim não, né?
– Não. Joguei um agá na moça e aí ficou tudo certo.
– Pera, pera… conheço esse tom… Seu filho da puta, cê comeu a Sarita também?
Ela foi para o quarto aos gritos e desaforos. Ele se retirou, achando que a situação estava um pouco complicada. Seguiu com caixas e sacos, pensando em alternativas para contornar tudo. Não queria ficar sem Lena, quer dizer, Marilena.
