marylynn

@brontops

Há uma Marylynn. Assim mesmo, com dois ys e dois ns. Um colega do direito me disse certa vez que pobre gosta de nome escalafobético para evitar homônimos. Se você se chama Zé e não é rico tem um risco muito mais de alguém fazer merda e jogar no seu nome.

Somente com o tempo percebi que ela sempre entra no apartamento com o pé direito.

Olho para as estantes vazias. Me arrependo de não ter deixado alguma coisa para ler.

Ouvi uma voz distante no escuro, como se gritassem meu nome lá debaixo do prédio. Quando abri as pálpebras, era Marylynn me sacudindo apavorada, celular na mão, falando com alguém do SAMU. Eu estava no ar, sem a memória do que havia acontecido. Tomei o aparelho de sua mão. Mas representei minha melhor segurança. Ela me contaria depois que eu simplesmente caí e por muita sorte minha cabeça bateu no sofá e não na cantoneira ou no piso. O rapaz no atendimento do telefone não pareceu tranquilo, pediu para falar com ela de novo, eu cortei o assunto, disse que ela era uma menina e que não sabia lidar com isso. Vi seus olhos mudarem de apreensivos para indignados, devolvi o aparelho desligado. Ela pegou a bolsa e saiu batendo a porta. Não esperava que ela fosse voltar.

Marylynn sempre interrompe o oral para retirar pelos de sua língua. Esclareço que não sou uma sopa, não tem garçom com quem reclamar e eu sempre virei com cabelos. Ela, por sua vez, é lisa e sua pele possui grânulos que surgem muito de perto e quando muito frio. Entre deixar um arbusto ou aparar um triângulo preciso, ela prefere assim, sem nada.
-É um pedido de outros velhos, desses que ficam rodeando saída de escola.
Ela torce meu braço, “Não sou puta não” e eu respondo com toda sinceridade, “Não acho que seja”

Ela me explica porque vão casar ano que vem. É ano de sorte. Ano par é ruim. Ano ímpar é ruim. Digo que não acredito em nada disso. Não existe sorte ou azar, nós a fazemos nós mesmos. Ficou indiferente.
-E quando estourou a pandemia? Par, ano par.

Marylynn recebe 220 pelo dia mais o transporte. A casa não fica perfeitamente limpa, ela perde muito tempo no celular. Às vezes preciso mostrar para ela, você esqueceu isso, você deixou aquilo.
Não que essa bagunça faça diferença. A única pessoa que essa casa recebe sou eu mesmo, então é para mim mesmo e para mim está bom. Meu filho mora na Nova Zelândia, faz chamadas de vídeo uma ou duas vezes por mês. Minha filha liga bastante, mas mora em outro estado e trabalha demais.

Não esperava que ela fosse voltar. Cinco minutos se passaram, escutei a porta se abrindo. Eu ainda estava no chão e ela me ajudou a subir no sofá.
-Eu não queria dar preocupação para minha filha.
-Mas se isso já aconteceu antes, ela precisa saber.
-Ela não precisa. Não se preocupe, eu não vou morrer na sua mão.
-O senhor está todo cagado, precisa tomar um banho.

Marylinn tem um namorado, o Igor. Ele a traz de moto, eu consigo vê-los quando chegam aqui da janela de meu apartamento. Ela desmonta e carrega consigo seu próprio capacete. Tenho medo de motocicleta. Mas acho bom que ela venha e vá com Igor. Ela não ia passar indiferente em nenhum transporte coletivo.
Eu já o vi de perto. É um homem de cabelo muito curto – crespo – porém sempre com a barba por fazer e de riso pouco. Ao menos diante de mim. Não parece ser dado a intimidades, prefere manter distância, tem seu orgulho. Pobre e com orgulho; eu me lembro de antigamente, das pessoas humildes, necessitadas, entregues e ao mesmo tempo plenas de alegria com um abraço, uma palavra, um carinho, um dinheiro. Talvez seja melhor assim, alguma dignidade e amor próprio. Mas eu sinto falta daquela simplicidade. Que talvez nunca tenha sido simples.

Igor e Marylynn vão se casar ano que vem. Estão abraçados e mesmo assim, ele não me parece simpático. Me ocorre que ele pode ter ciúmes. Ciúmes de mim? Um velho? Perto dele, me fragilizo, finjo confusão, ando mais devagar. Marylynn percebe e disfarça o riso. Eu os parabenizo. São um bonito casal mesmo, sem mentiras. A juventude é fácil. Em seguida, sofro um acesso de tosse como se não fosse resistir até o ano que vem.

Reclamo, mas ela ignora. Disse que se eu trancar a porta do banheiro, vai ligar já para minha filha. Ela fica atrás da porta entreaberta, escutando e conversando o tempo todo, não para de falar, estou espantado que os jovens ainda saibam conversar, pensei que tivesse que ser tudo por mensagem no celular.
-A gente sabe mandar áudio também, seu brutossauro.
Demorei alguns segundos para entender.
-Brontossauro. Brutossauro não existe.
-Brutossauro, burrossauro, não importa, o senhor tome logo esse banho que eu tenho que botar essas suas roupas na máquina.

Ela ri das besteiras que digo. Me acha inteligente, mas não vejo muita inteligência em terminar como um solitário num apartamento esperando a morte chegar feito um Raul Seixas. Quando ela pergunta onde estão meus amigos, respondo:
-O ser humano é uma criatura social porque precisa da sociedade para ser antissocial.

Às vezes, Marylynn reclama de nossas pausas entre uma e outra. Pergunta se eu não poderia tomar tadala. Eu já experimentei, mas não adianta ficar o pinto duro se o couro ao redor é um papel, não aguenta o atrito. A pele não fica só com manchas, pintas, estrias, cânceres. Ela amolece. Olha.
Estico o braço e a pele fica como uma roupa solta sobre a carne e os ossos. Marylynn me interrompe, bota uma mão sobre minha boca e a outra desce entre as pernas, como se só falar da decrepitude já a permitisse.

Saudades da dona Cleonilde. Marylynn não é uma boa empregada. Não parece muito atenta. Ou se está, é com as coisas erradas.
-Olha! Uma joaninha. Dá sorte.
E deixa o bicho do lado de fora da janela.
Às vezes parece que ela só quer acabar rápido para voltar ao celular. Moro sozinho, minha bagunça é pouca. Então ela fica desocupada logo. Sentamos diante da televisão, lado a lado no sofá. Ela perde interesse no canal de notícias e fica concentrada no aparelho. Pensei que era o zap, mas ela estava jogando tigrinho.

Eu deixei bem claro que não gostava disso.
Havia um homem naquela casa, aponto para lá pela janela. Era médico. Excelente médico. Fez o primeiro parto da minha mulher. Mas ele se envolveu com jogo. Não conseguia parar. Foi perdendo tudo. Às vezes tocava o interfone e um de nós descíamos com uma marmita. Ele, sempre muito educado. Muito triste. Da última vez que o vimos estava na praça com os craqueiros. Não o vejo mais desde a pandemia.
Ela ouviu e ignorou. Disse que sabia o que estava fazendo. Que tinha um jeito de dobrar o jogo. Eu havia lido que o jogo é relativamente ponderado até um certo ponto. Quando se ultrapassa esse limite de quantidade de partidas, o jogo libera uma vitória para servir de isca. Mas Marylynn não estava interessada nos jornais que eu lia. Disse que em seu bairro todo mundo joga, ninguém para de jogar. O símbolo do aplicativo mais parece um gato feliz sofrendo de obesidade mórbida. Supostamente é o tal tigrinho. Um tigre. Esquecem que o tigre é um animal perigoso, só porque termina com o inocente “inho”.

Eu fui eu mesmo passar um café e deixei-a lá entretida no aparelho. Talvez ela não servisse como companhia. Minha filha não queria que eu ficasse só. Ela não faz ideia que eu troquei de diarista, dona Cleonilde voltou para a Bahia. Ela me passou o contato dessa moça, sobrinha dela. Sinto saudades de sua presença feliz e alertou: essa moça e novinha e tudo, tem borogodó, então se atente para não fazer besteira, o namorado dela eu conheço e é bem brabo. Dali a pouco, Marylynn veio para a cozinha pedir um pix de quinhentos reais.

Se eu não quis ligar para meus filhos devido aos meus desmaios, quis ligar agora diante desse atrevimento. A gente tem menos medo de morrer do que de ser roubado, de ser enganado. E ali estava ela, me pedindo quinhentos reais.

-Eu lhe devolvo. Você diz que isso tudo é besteira. Ficar jogando centavos é só embaço, demora demais, precisa de mais para render mais.

Isso não é certo.

-Ganhar dinheiro é errado, por acaso? ela devolve. Eu sei que estou com sorte. Esse mês é ímpar, o ano é ímpar, hoje é quinta feira, tudo ímpar.

Achei uma joaninha. Com cuidado, a deposito para fora na janela. O bicho passeia pelo vidro antes de abrir a carapaça e alçar voo.

-Você nem passou mal e eu nem precisei ligar para sua filha.
-Ligar como? Você não tem o telefone dela; ela nem te conhece.
-Não me conhece, mas eu conferi o celular quando você estava no banho, peguei o contato dela. Eu só não liguei para ela porque você me pediu. Mas eu precisava do número dela, caso precise. Estou errada?

Ficamos ali discutindo entre uma xícara de café e outra e Marylynn pressionando, ela dizia que sentia que estava com sorte e que precisava ser agora, na hora ímpar. Não sou puta, nem filha da puta, eu não vou sacanear não, eu só quero mostrar para você.

Fiz o pix para cortar o assunto. O que eu ia fazer com esse dinheiro? Não tenho netos para dar de presente. Marylynn continuou jogando até dar quatro da tarde. Melhor eu ir embora, você não acredita e está atrapalhando. Eu a vi da janela com o celular na mão, indo na direção do ponto de ônibus. Só falta ser assaltada, agora.

Minha filha ficou sabendo de Marylynn. Estava nervosa.
-Quantos anos tem essa mocinha, pai? O senhor não tem vergonha na cara? Com essa idade?
-Com a idade, a coisa mais importante a se perder são as vergonhas. Não tenho mais muito tempo para ficar pensando nos outros.
-Mas e a mãe, pai? O que a mãe ela ia dizer?
-Não estamos fazendo nada, filha. Ela não ia ter o que dizer. Ela só é uma empregada, uma diarista, ela vem aqui às terças e quintas, arruma a casa e me faz companhia. O que mais vocês querem?
-Ela tem 23 anos, pai. Os vizinhos estão falando.
-Falam porque não podem comer a bunda dela.
-Eu quero conhecer ela.

Estou diante do espelho, nu. Sinto minhas têmporas pulsando e olho para meus braços, as veias estufadas. Diante de mim, meio comprimido sobre a pia.

Marylynn se irrita quando eu peço para repetir. Explico que os velhos são assim, não conseguem manter muita coisa na memória. A cabeça já está cheia de passado e o que está acontecendo no presente não vai precisar ser lembrado por mim. Então ela reconta o que um vizinho fez com ela. Não dá muitos detalhes. Mas se preocupa em descrever o canalha. Disse que tinha cabelos brancos, mas era forte, barrigudo.
-Peguei nojo de gordo. Não consigo nem pensar nisso.
Não aviso a ela que o corpo tende a se achatar na medida que o tempo passa.

No dia seguinte ao pedido de quinhentos reais, ela me liga. O senhor precisa me passar seu pix.
Por quê?
Porque deu ué. Foi ouro. Deu na cabeça.
Oi?
Cento e quarenta mil.
Não acredito.
Olhe a foto, você não viu?
Não.

É por isso que as pessoas estão ficando loucas. Dinheiro significa tudo mas não vale mais nada. Você pode ganhar no mercado financeiro. Você pode fazer dancinha no tiktok. Você pode falar merda e ser influencer. Ganhar na porra do tigrinho. Você não tem porque trabalhar. Você não tem porque roubar. Você não tem o que dar. Você não tem que fazer nada, somente esperar a sorte. O mundo perdeu o valor.

Eu percebo que uma pessoa que se preocupa demais com a sorte não deve acreditar em Deus.

Eu coloco os óculos para observar Marylynn cochilar no marasmo da tarde quente de terça. Ela não está coberta então consigo ver seu corpo. Parece uma fotografia, daquelas de revista. Ela tem defeitos, eu os fico procurando, mas no conjunto funciona como um tempero. No geral, ela é jovem, uma planície, uma relva. Eu sou uma montanha, dobra sob dobra, caroços, a pele feito um couro de elefante.
Entendo porque se deixam fazer os tais nudes. Eu gostaria de um nude de Marília. Agora ela existe na minha memória apenas.
Ela emite um peido suave, quase sono. Eu sorrio. Sinto certa vergonha de estar aqui, um vazio pós gozo, um sentimento de ressaca. Parece tudo errado, ela ainda tem tanto por vir e eu aqui, já colocando as cadeiras viradas sobre as mesas, apagando letreiros, trancando janelas. Lá fora escuto aviões e sirenes. Aqui só a cortina flutua na brisa.

Vi seus olhos ficarem excitados por alguns segundos antes do ódio.

O celular tocou numa madrugada. Estava tendo um pesadelo com meu filho, por isso atendi chamando-o pelo seu nome. Mas era Marylynn. Estava chorando e desesperada. Igor havia sido preso.
Eu já fui advogado. A gente pÁra de exercer, mas a profissão vem atrás de você. Numa conversa, numa dúvida, em um problema que você já sabe mais ou menos os caminhos para resolver. Eu chamei o uber e fui até a delegacia.
Mas fazia muitos anos em que eu havia me afastado desse teatro. Desaprendi tudo ou quase tudo. Não falo mais o jargão. Conheço muitos sob essa sombra, que não quer mais ouvir falar em direito: decepção após decepção, um manual de regras no qual só vale a melhor maneira de descumprir. A Justiça é uma abstração, um pouco como a matemática, serve para erguer edifícios mas não tem realidade palpável.
Dito isso, fiquei feliz por ter conseguido tirar o rapaz da cadeia. Ele perdeu o RG no estádio de futebol e clonaram os documentos dele. Era um caso de homônimo. Às vezes, até que existe alguma justiça. Ou seria sorte?

Igor me abraçou. Até sorriu. É mesmo um bom rapaz.

Eu não respondi o telefonema, foi na vez seguinte que veio trabalhar que voltamos à conversa. Até me espantei, não imaginei que ela iria continuar trabalhando. Quer dizer, lógico que iria. Era um bom prêmio, mas não uma promessa de aposentadoria.
-Metade desse dinheiro É do senhor.
-Não, não fala besteira.
-Você é crente por acaso? Crente não gosta de jogo.
-Não, não é isso. Você ganhou, isso é seu.
-Eu não ia ter ganhado se não fosse o seus quinhentos.
-Não preciso disso.
-Não interessa se precisa ou não. É jogo, você tem que pegar sua parte, é o certo.
-Não é o certo. Eu sou um homem velho. O que isso vai servir para mim? Eu já tenho o que preciso.
-Isso não é justo, o senhor vai jogar contra minha sorte. Você tem que pegar alguma coisa. Você pega esse dinheiro e vai ver seu filho com os cangurus, vai ver sua filha, procura algo para fazer.
-Eu não tenho o que fazer lá e eu não quero carro, casa, isso tudo mais um ou dois anos vai embora. A única coisa que eu queria era você. Mas sou velho, acabado, mais nada que oferecer. Eu te quero e não vou conseguir. Eu troco esses setenta por te comer. E aí?
Marylynn me deu um tapa. Meus óculos voaram pelo chão da cozinha. Ela saiu de casa, batendo a porta. Mas ia voltar. Deixou a bolsa pendurada na cadeira.

Ela estranhou as estantes vazias sem livros.
-Eu era advogado. Vendi tudo por peso. Não valiam nada.
-E não quis se livrar das prateleiras?
-Acho que o vazio também tem direito de um lugar para ficar.
Ela não entendeu. Nem eu, na verdade. Só reclamou que fica tudo ali, juntando pó.

Marylynn vai casar mês que vem. Mandei entregar um presente pela lista. Nas últimas semanas, ela nem tem vindo direito. Eles insistem que eu vá no casamento, mas eu não pretendo ir. Não me sentiria bem.
Minha filha pediu a ela para me acompanhar no exame médico. Sei que elas se falam bastante, sobre minha saúde e tal. Andei tendo uns lapsos. Depois que se conheceram por chamada de vídeo, ficaram em uma proximidade cautelosa. Mas minha filha não tem com quem contar. E eu só estou contando os dias, cada dia menos um.
Finjo que não sei que elas falam às minhas costas. Envelhecer é ser traído: pelo seu corpo, pelo seu desejo, pela sua vontade. Ser traído por quem fica. Viver é trair: a morte é o estado natural do universo, viver é uma mentira, mais uma delas, que contamos à realidade, para nós sermos mais do que somos.

Setenta mil bem que valem um cu.

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