
Emma Cline nasceu em 1989, em Sonoma, Califórnia, EUA. Estudou na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde se formou em inglês, e mais tarde mestrou-se em belas artes pela Columbia University. Vive hoje no Brooklyn, em Nova York, e ao longo da carreira trabalhou como escritora residente na Civitella Ranieri Foundation e na MacDowell Colony, além de colaborar com publicações como The New Yorker e The Paris Review.
Ficou conhecida com o romance de estreia, The Girls (2016). Desde então, publicou contos na New Yorker, Granta e The Paris Review, recebeu o Prêmio Plimpton e foi selecionada pela Granta entre os Best Young American Novelists de 2017.
Em 2020, Cline lançou Daddy (Papai, trad. Marcello Lino, Intrínseca), reunião de 10 contos que examinam fissuras de poder, fama, sexo e dinheiro em famílias, casais e ambientes profissionais. O livro foi recebido como um avanço na sua voz curta, incisiva e sugestiva.
O livro e suas leituras críticas
Boa parte da recepção destacou o método de Cline: elipses, conflitos sugeridos, e um foco nos impasses mais do que nas soluções. A Kirkus resumiu: “a voz é contida; o leitor chega ao conflito de modo oblíquo — ou, às vezes, não chega”. A revista elogia “retratos bem feitos de pessoas em ponto de crise”, ainda que veja certa “mesmice” em alguns textos. Já a The Nation ressalta como Cline foca restos anacrônicos da vida privada: “linhas que apontam efêmeras culturais de modo satisfatório e acusatório”.
Há um fio estilístico que sustenta o conjunto: observação clínica e frases curtas, que muitas vezes cortam como lâmina. Logo na abertura, lê-se: “Linda estava dentro de casa, no telefone — com quem, tão cedo?” E, adiante, quando o pai pressente a maré baixa da sua autoridade: “De repente lhe ocorreu que algo estava errado.” Os enredos se apoiam nessa tensão muda.
Três panoramas para dez contos
1) Famílias em fricção e o peso do nome. Em “What Can You Do with a General”, John, sexagenário, junta os filhos no Natal e mede os restos do próprio mando. Ele pensa no passado e percebe que a intimidade já não se deixa ordenar (“De repente lhe ocorreu que algo estava errado”). É uma anatomia da irrelevância masculina no lar. Em “Son of Friedman”, um produtor decadente assiste ao curta medíocre do filho e tenta arrancar favores de um astro famoso; o conto mira o vexame, mas também o amor que sobra. “Marion” acompanha uma jovem às voltas com um namorado e um pai “realmente ótimo”, frase repetida como mantra que denuncia a opressão do elogio automático. Em “Northeast Regional”, um homem viaja de trem enquanto um passado ambíguo — e talvez culpável — ronda, sem nunca ser totalmente dito.
2) Hollywood, tecnologia e o emprego da imagem. “Los Angeles” segue Alice, aspirante a atriz que vende a própria imagem e o corpo em pequenas transações, num circuito de testes, favores e autossabotagem. “Menlo Park” foca Ben, editor fantasma ligado ao mundo tech, demitido em desgraça, talvez por drogas; ele tenta salvar a autoimagem reescrevendo a vida de outro. “Arcadia” visita uma comunidade de bem-estar onde a promessa de reinvenção esbarra na mesma vaidade que a alimenta. “Mack the Knife” toca a carreira de um homem que já foi alguém e agora vive do eco. Todos investigam o que resta quando a aura — tecnológica, artística, terapêutica — falha.
3) Sexo, trabalho e a economia do desejo. “The Nanny” acompanha Kayla, babá de um casal famoso, após um caso com o patrão; a vergonha pública a empurra para o esconderijo e para decisões erráticas. “A/S/L” fecha o volume com uma mulher de trinta e poucos anos que se interna numa clínica por obsessão em se passar por adolescentes online — uma espécie de vício que mistura performance e controle. Entre ambas, o livro mostra como desejo, dinheiro e reputação se enredam — às vezes o crime não é mostrado, apenas suas bordas.
Estilo
Emma Cline escreve com economia, centrada na percepção: “Robot dog, John cantarolou para si mesmo”, lê-se num momento trivial que revela, por contraste, a violência surda do controle. Ela prefere bordas a explicações, o que desagrada alguns leitores, mas condiz com o projeto: mostrar como poder e desejo agem fora de cena. A Stinging Fly apontou essa precisão: atmosfera e personagem erguidos “com poucos detalhes hábeis”. Já a Guardian salientou o diagnóstico do nosso zeitgeist sexual. Entre aplausos e reservas, há consenso no virtuosismo da forma curta.
Críticos também notaram a recorrência de homens envelhecidos, confusos sobre o próprio lugar. A Kirkus falou em “velhos moldados pelo privilégio de achar que o mundo lhes devia algo”. Para The Nation, Cline encara “restos datados” e os transforma em emblemas — bugigangas, slogans, memórias murchas — que brilham como evidência moral. Holly Williams, na Guardian, resumiu o pulso do livro: inseguranças no pós-#MeToo.
Seus pares literários destacam o artesanato: “Quando leio Emma Cline penso na acuidade de Mary Gaitskill… mas algo no tom íntimo é inteiramente seu”, diz Rachel Kushner. Brandon Taylor, de novo: “talvez, nessas histórias brilhantes, o gesto mais humano seja simplesmente recusar a certeza”. É uma ficção que prefere a pergunta ao veredito.
Para ler Papai com um mapa
Quem chega a Papai esperando reviravoltas “clássicas” encontrará, antes, lapsos e tensões correntes que apontam para crimes, vergonhas e culpas sem nome. A graça está no modo como Cline captura o instante em que uma persona racha — o produtor que torce pelo filho e se envergonha dele; a babá que não quer piedade; o pai que se vê “fora de quadro”. “É melhor assim?”, pergunta um dos filhos na abertura; o livro responde com silêncio e fricção.






















PROPOSTA
O mote do seu conto é este trecho:
“Não era tão ruim. Era uma fase da vida em que, toda vez que algo ruim ou estranho ou sórdido acontecia, ela se consolava com o que as pessoas costumam dizer: é só uma fase da vida. Pensando assim, qualquer encrenca em que ela se metesse parecia automaticamente legitimada.”
Sacou?
O seu conto é um estudo de personagem.
Não se preocupe muito com tensão, conflito, nem com o enredo. Pode ser só um fiapo de enredo pra sustentar uma narrativa em que o mais importante são a atmosfera, a descrição do ambiente, do personagem (física e psicologicamente), e de como o seu protagonista se relaciona com outras pessoas.
Mas, claro, lembre-se que seu protagonista está passando por uma fase da vida em que vai se envolver com algo “ruim ou estranho ou sórdido”, ou “qualquer encrenca“.
No caso da Alice, a coisa ruim, estranha, sórdida e que possivelmente vai levá-la a alguma encrenca é vender suas calcinhas usadas. Então sua tarefa, ao redor da qual vai gravitar sua história, é só você imaginar que seu personagem está cometendo algum tipo de ação tão esquisita quanto vender calcinhas usadas.
Não se preocupe com desfecho, o final é aberto.
Mas se preocupe, sim, em criar cenas.
Cenas em que pequenas coisas acontecem – com lugares, tempos e pessoas muito bem delimitados.
Escreva em qualquer pessoa por volta de 12 mil caracteres.
