A casa que foge – Yan

1

O homem tem quase dois metros. Usa uma regata justa, que mostra costas largas e ombros com pontas do tamanho de cebolas. Acima deles, tríceps da espessura de cordas de amarrar lona de circo. Abaixo da regata, calças listradas que beijam o chão e parecem, pensa a mulher, feitas de lona de circo. 

“A senhora que é a Isaura?”, o homem pergunta.

“Sou eu”, Isaura responde. “Graças a Deus, moço. Fiquei numa agonia danada sem conseguir te avisar”.

Ela evita olhar nos olhos. Menos por medo do homem e mais por medo de torcicolo. Sem a corcunda, talvez chegasse na altura do peito dele. Mas sua cabeça se alinha apenas um pouco acima da linha do umbigo do homem.

“Meu nome é Wanderley”, Wanderley diz. Seus lábios formam um arco com as pontas para baixo.

Isaura sabe, claro, porque duas noites antes o baixinho de voz grossa falou no microfone:

“E agora… com vocês… Wanderley, o voador!”.

E agora, com um cigarro na boca e uma bola embaixo da camisa torturando os botões, o baixinho espera sentado numa moto magrela do outro lado da rua.

“Ela tá aqui?”.

“Não, foi comprar beiju mais minha neta. Entra, faz favor. Elas chegam já”.

Wanderley se abaixa para não bater a cabeça no teto. Mas não parece se sentir apertado, como quem conhece espaços muito menores. Vê uma imagem de Nossa Senhora das Candeias sobre uma prateleira na parede e faz o sinal da cruz. Vê carretéis de linha e de lã, uma tesoura e dedais de vidro sobre a mesa. Na outra ponta da mesa, vê três pratos e três copos e tira um saquinho de pano do bolso da calça.

“Vocês já tinham chegado em Imperatriz?”.

“Não, antes. Ela demorou pra vir comer e percebi. Mas o caminhão não roda bem de noite”.

Wanderley tira uma nota de dez reais do saquinho e a estende para Isaura.

“Toma. Eu sei que ela come muito”.

Isaura se estica toda para alcançar a mão de Wanderlei e se estica mais para empurrá-la.

“Tem nada não. Ela é um anjo, deu trabalho nenhum”.

Wanderley guarda a nota no saquinho de pano e o guarda no bolso da calça de lona.

“Tirou trabalho. Perdemos duas apresentações”.

Isaura lembra da vez que perdeu a encomenda do vestido da mulher do prefeito porque a neta ficou doente e torce as mãos.

“Eu imagino. Mas aqui ela ajudou muito. Apertou a perna solta da mesa, nem range mais. E que criança arruma o quarto sem a gente mandar? Só um anjo mesmo”.

Os lábios de Wanderley, então um arco com as pontas para baixo, mudam para uma linha reta.

“Só tava com umas feridinhas na cabeça. Avisa pra sua mulher tomar cuidado na hora de pentear”.

Os lábios de Wanderley, então uma linha reta, mudam para um arco com as pontas para baixo.

“Vou esperar lá fora”.

Wanderley pela primeira vez aparenta se sentir apertado dentro da casa. Seus olhos caem para o chão. Os olhos de Isaura também caem para o chão e encontram as barras caídas da calça de lona.

 2

O barulho dentro da lona ainda é muito grande. Mas agora não vem mais das crianças. Vem dos adultos. Principalmente dos homens, que assoviam para a dançarina meio pelada. As mulheres gritam para a cobra que a dançarina meio pelada carrega enrolada no corpo meio pelado enquanto dança. A menina, de vestido de bolinhas e maria-chiquinha na cabeça, não vê graça nenhuma. No bicho, na falta de roupa da dançarina, na dança, mas principalmente no barulho dos adultos. Levanta da cadeira sem chamar a atenção da avó, que se benze o tempo todo sem tirar os olhos da cobra.

Do lado de fora da lona, a menina de vestido de bolinha e maria-chiquinha na cabeça vê uma menina de macacão colorido e cabelo solto na cabeça. Está agachada, jogando cinco pedrinhas pro alto.

“Posso brincar de cinco marias com você?”, a menina de vestido de bolinha e maria-chiquinha pergunta,

A menina de macacão e cabelo solto levanta a cabeça e derruba as pedrinhas no chão. Recolhe as pedrinhas e estende a mão para a outra, que pega as pedrinhas e se agacha ao lado dela.

“Essa brincadeira chama cama elástica”, a menina de macacão e cabelo solto disse. “Cada pedrinha dessa é um trapezista, tem que pegar antes de cair no chão pra eles não machucarem”.

A menina de vestido de bolinha e maria chiquinha tenta uma vez, todas as pedras caem.

“Vixe, vai todo mundo pro hospital”.

As duas riem.

“Meu nome é Natália. E o seu?”,

“Valéria”.

Natália lança as pedras de novo e as derruba de novo.

“Trapezista é como chama o que aquele moço comprido faz? Aquele com um macacão que nem o seu?”.

“É colã que fala”, Valéria diz e belisca um pedaço do tecido.

“Chama assim porque é coladinho?”.

Natália recolhe as pedrinhas, lança de novo, recolhe de novo.

“Chama assim porque chama assim. E aquele moço é o meu pai. Agora ele é trapezista solo, mas um dia eu vou me apresentar junto com ele”.

“Agora você só joga aquele negócio pra ele pular de um pro outro, né?”.

“Isso, o trapézio. Antes ele fazia com a minha mãe, mas ela morreu. Quando eu fizer 10 anos, já vou poder pegar no trapézio sem cama elástica por baixo”.

As pedrinhas permanecem estateladas no chão. Natália encara Valéria.

“Sua mãe caiu lá de cima?”.

“Não, ela morreu quando eu nasci. Todo mundo daqui diz que ela era melhor trapezista até que meu pai. Diz que ela nunca caiu”.

“E você sente falta dela?”.

“Eu nunca conheci, então acho que não”, Valéria diz, recolhe as pedrinha e as lança no ar, uma de cada vez.

“Eu também não sinto falta da minha. Ela não morreu, não, tá? Só fugiu de casa”.

“Como assim?”.

“É quando a gente vai embora sem avisar, pra ninguém achar a gente”, Natália diz. “Por que teu cabelo tá desse jeito?”.

Valéria passa a mão na cabeça.

“Meu cabelo é desse jeito, ué”.

“O meu também é, mas tem que pentear e trançar. Minha avó penteia o meu todo dia”.

Valéria olha para a maria-chiquinha de Natália. Parecem duas cobrinhas, ela pensa, e tira a mão da cabeça.

“Às vezes eu fico brava com a minha vó e fico com vontade de fugir de casa também, sabe. Mas como eu não sei onde minha mãe tá, eu fico”.

“Se você soubesse, você ia?”.

“Quando fico brava eu acho que ia, depois acho que não ia. Minha vó falou que vocês tão sempre mudando. É verdade?”.

“É, amanhã a gente vai pra Imperatriz, depois pra outro lugar”.

Valéria solta as pedrinhas no chão.

“Deve ser bom, né. Não tem que ir pra escola, não tem que arrumar o quarto todo dia, conhece um monte de coisa nova… E não tem nem vontade de fugir de casa”.

“Como assim?”.

“Porque você já tem uma casa que foge, né?”.

Natália sorri para Valéria.

Valéria pega as pedrinhas no chão e as atira para longe.

“É, pode ser”, Valéria diz e sorri para Natália.

3

“Eu te odeio, vovó!”, Natália grita.

A porta do quarto bate com estrondo. Isaura dobra a calça de lona, guarda o dedal de vidro, o carretel e a agulha em uma caixinha de madeira e entra no quarto.

Natália, deitada na cama, pressiona o travesseiro contra o rosto. Isaura senta na cama. Tira o travesseiro e enxuga a baba e a lágrima da fronha na roupa. Coloca a cabeça da neta sobre seu colo.

“Por que você não pediu pra ele deixar ela ficar com a gente?”.

Isaura começa a desmanchar a trança em rabo de cavalo na cabeça de Valéria.

“Minha filha, tu não viu que o homem tava uma arara? Nem me deixou terminar a bainha, foi embora de cueca e tudo”.

A respiração de Valéria desacelera. O choro diminui e para. Isaura termina de desmanchar a trança e começa a pentear seu cabelo.

“Será que ele é mau, vovó?”.

“Não sei… Se fosse, não vinha atrás. Mas que não precisava ter ficado tão bravo por causa da maria-chiquinha que eu fiz, não precisava”.

“E quando eu disse que ela precisava de uma casa de verdade”.

“Pois é, a senhora falou mais que a boca. Cada um vive do seu jeito.”

Isaura guarda guarda o pente no sutiã e se levanta.

“Pronto. Tá mais calma, vovó?”, Isaura diz e dá um beijo na testa de Valéria. “Descansa um pouquinho, mais tarde te chamo pro jantar”.

Isaura sai do quarto e fecha a porta.

Valéria se senta na cama e pega o travesseiro. Enfia a mão dentro da fronha e tira uma folha de caderno um pouco molhada de baba e lágrima. Olha para o desenho de duas meninas com asas, voando de mãozinhas dadas num céu com sol sorridente e duas nuvens redondas. No canto superior do céu dois nomes: Natália, escrito em letras de forma quadradas e temidas; e Valéria, escrito em letras redondinhas de mãozinha dada.

Embaixo delas, no chão, há uma casinha com janela, porta, chaminé e fumacinha.

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