Tânia é analista de Renata. Renata conta tudo pra Tânia, censura zero. Procurou a análise porque embora seja doce como uma pipoca doce, sempre sentiu uma vontade danada de bater nas pessoas, bater pra doer mesmo. Nunca chegou a fazer a vontade virar vida real, mas se ela estiver paradinha assim, olhar meio perdido, na fila do supermercado, certeza que na cabeça tá com um cabo de vassoura fazendo todo mundo se dobrar no meio. O moço com carrinho cheio de YoPro, a senhora com a cestinha de verdura e camarão, a menina com uma garrafa de rum e até aquela mãe com dois pacotes de fralda Pampers e uma lasanha congelada Sadia. Especialmente o moço do YoPro. Três, sete, dez vassouradas. Do nada, só porque a de palha estava faltando e ela teve que levar a de piaçava. Com o tempo foi melhorando. Tânia calma, como se nada fosse, perguntava qualquer coisa do tipo: mas onde exatamente você bateria? Até que gastaram tanto o assunto que ele morreu e, como acontece em análise, passaram a falar sobre todas as outras coisas. Só que na semana passada ela pediu uma sessão extra. É que domingo, Renata e o namorado no cinema, os dois abraçadinhos, um momento tão terno, veio a vontade. Uma vontade de segurar o cara pela cabeça, esfregar as bochechas dele no asfalto, abrir a boca e encaixar no meio fio, os dentes perfeitos, recém clareados, alinhadíssimos, numa pisada só, quebrando um por um. O mesmo barulho da mordida de uma pipoca. Da doce ou da salgada. E isso porque ela é doida no namorado.
Renata é analista de Meire. Meire conta tudo pra Renata, censura zero. Procurou a análise porque a dificuldade com a sobreposição de sons andava quase que incompatível com a vida. A bichinha mora em São Paulo, né? Na primeira sessão mesmo, a pamonha de Piracicaba passou ao mesmo tempo que o carro do morango “é uma delícia os nossos morangos, bonito em cima e bonito embaixo, leva agora duas bandejinhas e só paga R$10”. Com o tempo foi melhorando, Renata explicou que isso não era defeito dela não, a cidade tá punk mesmo. “Mas me diz uma coisa, tu chega a pensar em bater no cara da pamonha pra ele parar de falar?” Até que gastaram tanto o assunto que ele morreu. Só que na semana passada Meire pediu uma sessão extra. Vinha descendo a Angélica de fone de ouvido, tava tocando Qui nem Jiló de Luiz Gonzaga só que voz do Jorge du Peixe, aí na parte do “saudade, meu remédio é cantar” ela olhou pra baixo e viu um confete numa emendinha de calçada. E se era outubro você pode imaginar a saudade que sentiu do carnaval, desconcentrou-se e passou a cantar Voltei Recife na cabeça enquanto Jorge du Peixe recifensemente continuou um la la la la la la laia, foram chegando todas as músicas de junho e fevereiro, forró, xote xaxado, baião, frevo, maracatu, caboclinho, ciranda, afoxé e coco uma por cima da outra, por cima e por baixo.
Meire é analista de José. José conta tudo pra Meire, censura zero. Procurou a análise porque tem horror a cheiro de coco. Horror de precisar parar de ir no Pão de Açúcar porque agora tem coco solto, sem ser o ralado da Sococo, na sessão de frutas. Juro, eu mesma vi. Com o tempo foi melhorando, Meire investigou toda a alimentação do bebê José até o José de hoje com buchinho 50+ de quem nunca saiu pra correr no parque: “E piña colada, vai?”. Não ia. Até que gastaram tanto o assunto que ele morreu. Só que na semana passada José pediu uma sessão extra. Conheceu um moço no Bumble. Passaram semanas de conversinha. Bom dia pra cá, meu bem pra lá. Até que recebeu o convite pro date, horário nobre, sexta às 20h30. O moço disse que ia levá-lo pra jantar no restaurante favorito da vida. Que fazia questão de convidar e que eles serviam o melhor camarão de São Paulo. Quando embicaram o carro no estacionamento do JK, ele se deu conta. “Não entro nem amarrado no Coco Bambu”
José é analista de Ricardo. Ricardo conta tudo pra José, censura zero. Procurou a análise porque carrega uma distorção de imagem desde pequenininho. A questão está na protuberância de joelho. Começou na escola. Um dia ele olhou o compasso tecnico Trident e percebeu a similaridade. Desde então não consegue olhar pra própria perna sem pensar naquela engrenagenzinha. Aí que quando lembra, automaticamente, gira em torno do próprio corpo traçando com a perna contrária o mais perfeito dos círculos. Com o tempo foi melhorando, José marcava todas as vezes em que Ricardo arredondava os pagamentos para menos, todas as outras em que mencionava botões, rodas gigantes pizzas e boias de piscina: “Essa fixação pelo campeonato brasileiro teria a ver com a bola?”. Até que gastaram tanto o assunto que ele morreu. Só que na semana passada Ricardo marcou uma sessão extra. É que ele tava esperando o Uber no Ibirapuera e viu um caminhão da Lusitana perder o controle bem na viradinha da rotatória. O mundo gira e a Lusitana roda, lembra? No mesmo minuto sentiu doer o joelho e bem nesse dia, tinha saído de casa de bermuda.
Ricardo é analista de Tânia. E embora Tânia conte tudo pra Ricardo, censura zero, essa semana nem adianta ligar pedindo sessão extra. Ele tá no Ibirapuera justamente porque tira férias em setembro.

