Velhos e suicidas

Esta casa, que agora me serve de escritório e de abrigo, foi um achado. No andar de cima, tenho um quarto arejado, com sol da manhã e uma brisa refrescante que vem pela varanda quando a tarde cai. Dali, além de ver o crepúsculo colorindo de lilás o céu da baía de Vitória, posso acompanhar o movimento dos farrapos pela avenida e prever quando vão ficar nervosos e tentar invadir os prédios e as casas da beira-mar. Aqui ainda tenho um quarteirão de vantagem se precisar fugir e, na pior das hipóteses, posso trancar todas as portas e impedir que passem da escada. Claro, o térreo tem lá seus problemas. Para começar, está alagado, provavelmente um cano estourado que consumiu toda a água da casa. Como a sujeira da rua e as folhas vindas do quintal entupiram os ralos, não tem como escoar esse lago que toma a sala, a copa, a cozinha e o banheiro social. Pelo cheiro, a água colonizou o térreo desde o início do êxodo, quando a cidade foi esvaziando. O lodo já cobre uma faixa acima dos rodapés e algumas rachaduras se espraiam da base até o meio das paredes. Quando tomei posse da casa, pensei em secar tudo com uns baldes, mas, no fim, não achei boa ideia encostar nessa água. E a verdade é que tenho tudo que preciso para me sustentar, até que vendam essa cidade para alguém que tome conta ou a enterre de uma vez. Enquanto isso, vou atendendo a clientela com meus recursos, que eu consigo do mesmo jeito que consigo as casas: invadindo.

Ontem mesmo entrei pelo buraco do ar-condicionado de uma loja de brinquedos do centro, uma das primeiras a fechar, já que as famílias, claro, levaram todas as crianças com elas. Quem ficou na cidade é quem não pode sair, ou não vê motivo, ou seja, os velhos e os suicidas. Ainda sou jovem e flexível, então arranquei a grade carcomida do buraco do ar e me espremi ali, até cair dentro da loja plantando bananeira. Fiz a limpa, peguei bonecos de vários tamanhos, carrinhos e carrões de controle remoto, bichos de pelúcia, jogos de tabuleiro, massinha de modelar. Botei tudo numas sacolas grandes da loja e saí pela porta da frente, que no fim das contas devia ser até mais fácil de arrombar do que entrar pelo buraco do ar-condicionado. Se as sacolas fossem vermelhas e estivéssemos em dezembro, eu bem que podia fazer um bico de Papai Noel quando ficasse entediado, e sair distribuindo presentes, caso houvesse alguém na rua.

Bem, a respeito do que faço, digo que faço o que sobrou para alguém como eu, sozinho no mundo desde criança. Quando venderam a cidade para os Estados Unidos, fiquei sabendo pela televisão, enquanto descascava uns ovos cozidos de café da manhã e ouvia os arrotos do novo morador da república, o Sem Nome número 3, misturados à musiquinha do plantão do jornal. O apresentador dizia que o governo americano ia desativar tudo, começando pelo porto, transformado um aterro gigante, cobrindo a baía inteira, mas não dizia para quê. Sem o movimento do porto, a cidade foi morrendo. Não demorou muito para esvaziar e as empresas começarem a fechar. Na época eu trabalhava de office boy numa loja de eletrônicos. A sorte era que meu chefe era legal e deixou a gente de aviso prévio por um mês antes de baixar as portas. Eu já era bom em entrar nos lugares e, de madrugada, desarmava o alarme com a senha da chefia e entrava na loja para usar a internet, já que na minha república eu só tinha uma cama mesmo, e olhe lá. Numa dessas vezes, li num fórum aleatório a história de um cara que perdeu o irmão mais novo. A mãe surtou, largou o emprego, não queria mais sair da cama e só abria a boca para chorar. Um dia ele visitou o quarto do irmão – que a mãe não deixava desarrumar – e se sentou no chão para mexer na coleção de carrinhos. A mãe, no caminho para o banheiro, viu o cara mexendo e se emocionou, mas não era de tristeza, ele disse. Deu um abraço nele e foi para o quarto correndo. Depois voltou, trazendo um gorro que ela vinha mantendo debaixo do travesseiro, o gorro que o menino morto usava. Enterrou o gorro na cabeça dele e mandou que continuasse a brincar com os carrinhos, mas não só os carrinhos, ordenou que pegasse os bonecos de super-heróis da prateleira, depois quis vê-lo jogando uma bolinha de frescobol na parede, deitado na almofada do outro lado, como o morto fazia – e que na época a irritava, fazia gritar lá da sala, mas não agora, agora qualquer hábito do menino a fazia rir e chorar de felicidade. No outro dia, vendo-o tomando café, a mulher arrancou a caneca da sua mão, sorrindo, e lhe serviu leite com achocolatado num copo de meio litro do Bob Esponja. Ele quase vomitou, mas tomou tudo. Pouco importa: a mãe tinha parado de se lamentar e até voltou ao emprego. Com o tempo, ele conseguiu que ela parasse de forçá-lo a fazer as coisas que o menino fazia. A condição foi, às terças, quintas e sábados, eles se sentarem para almoçar à mesinha de plástico do garoto enquanto assistiam desenho na televisão e ele suava com o gorro atarracado na cabeça. Era o preço a se pagar. Mas a mãe dele era um caso extremo, ele dizia. De algum jeito, ele não soube dizer como, a história se espalhou pelo prédio. A profissão do futuro – ele tinha descoberto a profissão do futuro. Uma vizinha debaixo procurou sua mãe e logo ele estava na casa dela, comendo o mingau com canela que o neto da velha gostava, depois arrumando uma casa de bonecas igual a da neta, que ela mandou comprar em outra cidade. O negócio se expandiu pelo bairro e em dado momento ele conseguiu dinheiro suficiente para sair da cidade com a mãe.

No comentário do texto dele, um cara disse que se inspirou na ideia e criou um grupo num aplicativo de mensagens. Quando entrei, uma clientela fiel já batia ponto ali. “Olá, avô precisando de neto de 6 anos, pagamento adiantado. Brinquedos, roupas e biscoitos inclusos.” Esse tipo de coisa. O administrador ganhava uma comissão e as crianças postiças davam seus preços nos anúncios. Coisas estranhas que uma cidade em silêncio acaba criando. Comecei atendendo em domicílio. Um casal de idosos quis reviver o filho – que na verdade não estava morto, só tinha se tornado adulto – com dez anos, época em que a grande alegria da casa era representar a apresentação de um telejornal, dois deles enquadrados em caixas de papelão recortadas como telas de televisão, enquanto o outro operava um galão de água vazio como se fosse uma câmera. Hoje o menino, ou o homem, apresentava realmente um jornal local, mas não os visitava há anos, então tudo o que tinham era a nostalgia. Disseram que eu era perfeito para o papel, já que era baixo e devia ter a altura do cara quando era moleque e cabia, inclusive, num terninho de formatura que sempre ficou guardado no armário. Sentamos nas cadeiras da sala de jantar, demos as notícias do dia e depois comemos bolo de chocolate. Quando nos despedimos, o pai disse que pagaria um bônus se eu voltasse de cabelo cortado. Me entregou uma foto antiga do filho e fui embora com um pedaço de bolo embrulhado em papel alumínio, que mais tarde foi a minha janta.

Continuei pegando os trabalhos no grupo de mensagens durante um tempo, mas depois comecei a combinar direto com os clientes. A verdade é que, talvez graças à estrutura infantil do meu corpo, ganhei certo nome no ramo. Foi aí que decidi atender no meu próprio local, sob minhas regras e com os recursos do momento. Claro que, para isso, eu precisava antes ter um local. A maior parte das casas abandonadas ficava perto do porto desativado, onde os farrapos vinham se concentrando, dormindo e fazendo fogueiras entre os contêineres. Ocupei umas quatro ou cinco diferentes e sempre me mudava quando eles se aproximavam demais da avenida. Prédios eram mais difíceis de entrar, ainda que nenhum tivesse porteiro: sempre há duas ou três portas antes dos apartamentos. Então, por um tempo, tive que voltar a atender em domicílio. Até que, voltando da loja de brinquedos, achei esta casa.

Não acreditei na sorte quando pulei o muro e vi, por trás do mato alto do quintal, uma escada amarela e vermelha encostada em uma parede. Devia ser parte de algum brinquedo que sumiu ou foi levado pela família que vivia lá. Estava meio enferrujada, mas ainda tinha uns adesivos de personagens de desenho animado, dos quais não conheci nenhum. Não tinha visto utilidade nela até tentar entrar pela porta da frente e sentir o cheiro de mofo, anunciando o lago que cobre o térreo. Dei meia volta, peguei a escada e apoiei o topo dela no parapeito do segundo andar. E lá encontrei meu oásis: móveis cobertos com capas e lençóis, bem conservados, cama, armários, cômodas, cadeiras, mesa, tudo o que é necessário na casa de alguém. Logo fiz contato com alguns clientes, mas quem me mandou mensagem foi uma novata, a senhora Pandora. Ela deu poucos detalhes do que precisava. Queria um neto, de dez a vinte anos de idade, e aceitava meus recursos genéricos. Combinamos pela manhã e, no meio da tarde, ela bateu a bengala na porta. A senhora Pandora era baixa e roliça, como alguém que foi achatada entre duas placas de uma linha de montagem, tinha os cabelos curtos, colados na cabeça como uma cuia, a franja escorrida no meio da testa, e carregava uma bolsa preta grande no ombro. Era uma avó sob medida, como muitas que conheci.

“Você é justamente como eu imaginei”, ela disse, sorridente, oferecendo o braço esquerdo para que eu ajudasse a caminhar. “Não é a cara do meu neto, mas pode ser.” Não entendi exatamente o que ela queria dizer com pode ser, mas fomos andando até a escada. “Tem um pequeno problema”, eu disse, “não dá para passar pelo térreo.” Do quintal dava para ver o lago lá dentro e ela tampou o nariz quando sentiu o cheiro. “Mas é só a gente subir pela escada”, falei. Demos mais uns passos e, na frente da escada, ela estacou, jogou a bengala no chão e me entregou a bolsa. “E você achou que eu não ia conseguir subir aí?”. Pelo jeito, a bengala era só para bater na porta. Ela se adiantou, levantou a saia no joelho e, meio tremendo, segurou com as duas mãos nas hastes da escada. “Agora você pode me dar uma ajudinha”, disse. Empurrei a senhora Pandora com delicadeza os degraus acima, e fui subindo com a bolsa logo atrás caso ela se desequilibrasse. Lá dentro, ela abriu a bolsa e tirou algumas sacolas de supermercado. Colocou na mesa um saco de pães doces, bandejas de queijo e presunto, potes de plástico, pacotes de biscoito, de café e uma caixa de leite. Mostrei para ela o isopor com gelo que eu havia instalado no canto da sala de jantar e coloquei as provisões dentro dele. Depois mostrei o resto do segundo andar, o banheiro, o quarto, a varanda, e nos sentamos na beira da cama.

“E então, senhora Pandora, o que a senhora gostaria de fazer?”, perguntei. Ela se levantou de repente. “Ah, esqueci de uma coisinha!”, e foi andando até a sala de jantar. Voltou no seu passo apressado carregando debaixo do braço uma televisão de tubo de umas dez polegadas. Parece que a sua bolsa não tinha limites. “Vem para a sala. Vamos começar”, ela disse, sem nem entrar no quarto. “Não tem energia, senhora Pandora”, eu disse, e ela respondeu que a televisão era à base de pilhas. Sentei na poltrona e esperei. “Não quer que eu vista nada específico?”, perguntei. Ela nem se deu o trabalho de responder: abria dois potes de plástico em cima da mesa, forrados com papel toalha, e acomodava dezenas de bolinhos de chuva em dois pratos fundos. Me entregou um dos pratos, um copo de leite e ligou a televisão. Um programa de auditório reunia três pessoas, além da apresentadora, que as provocava com perguntas sobre suas infidelidades. A senhora Pandora ria. Os bolinhos de chuva estavam ótimos e eu já tinha repetido o copo de leite, mas estava entediado. Peguei no armário um quebra-cabeça e comecei a montá-lo no chão, embora ela não prestasse atenção em nada além da televisão. Assim ficamos por horas, até eu terminar o quebra-cabeça e, ela, o programa de auditório e o jornal. Só falava comigo para perguntar se eu queria mais bolinho de chuva. Pelo jeito, ela ia ficar um tempo na casa. Não tínhamos combinado preço, mas ia sair caro. Eu já não aguentava mais comer e minha barriga borbulhava por causa do leite. Mas era um trabalho fácil, por mais estranha que a cliente fosse, e o dia já estava terminando. A novela ia acabar depois da propaganda. Olhei de relance para a senhora Pandora, que estava com os olhos fechados e a boca aberta. Acordei-a só o necessário para levá-la até o quarto. Voltei para a poltrona e dormi.

A manhã seguinte se desenrolou do mesmo jeito, com a troca dos bolinhos de chuva por dois pães doces com maionese, queijo e presunto, além da caneca de café com leite. Assistimos ao jornal da manhã e ao programa de variedades antes do jornal da tarde. Resolvi tocar no assunto. “Senhora Pandora, quanto tempo a senhora acha que esse serviço vai levar?”, perguntei. Ela desconversou: “Que serviço, meu filho?”. Aquilo já estava me irritando. Fui mais incisivo: “Em quanto tempo a senhora vai embora?”. “Embora?”, ela falou, levantando as sobrancelhas numa cara de espanto. “Mas eu moro aqui.” De imediato eu quis dizer que não, que quem morava ali era eu. Mas ela se adiantou. Levantou da poltrona, foi até o quarto e voltou com sua bolsa imensa. Abriu um bolso lateral e pegou uma foto. A imagem, bem amarelada e com algumas ranhuras na base, mostrava uma mulher roliça e pequena com um vestido florido cobrindo todo o corpo, em frente ao muro da casa,  que na época era mais baixo. No fundo, um cargueiro manobrava na baía de Vitória, enquanto dois carros compridos passavam na Avenida Beira-Mar. Fiquei sem reação, só encarei a senhora Pandora e ela sorriu e voltou à sua caneca de café com leite. Na televisão, a vinheta do jornal começou a tocar e ela botou os dedos nos lábios, pedindo silêncio.

À noite, quando adormeceu na poltrona depois da novela, levei a senhora Pandora para a cama. “Obrigada, meu neto”, ela disse antes de deitar no travesseiro e começar a roncar. Fiquei um tempo na varanda, vigiando o movimento dos farrapos no cais abandonado. Pareciam tranquilos, mexendo nas suas fogueiras, cobertos por mantas e trapos. Tranquei as portas do primeiro andar, peguei a bolsa preta da senhora Pandora e a enchi com meus brinquedos. Vi no grupo de mensagens do celular que havia um prédio vazio na Cidade Alta, fácil de escalar pela fachada.

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