A estrangeira

Quando viu que estava dentro da área, Brisa entrelaçou um dos dedos no pé de Tina, foi caindo num rasante pela marca do pênalti e, um segundo antes de se estabacar na terra, soltou um cacarejo ensurdecedor. Tina abriu as asas e fez cara de santa e Brisa rolou no chão mais uma vez. Ninguém acreditou no teatro de Brisa, as faltas são apitadas em consenso numa pelada. Então vamos para próxima, ela pensou, já estou puta mesmo, vou descontar. Deram a partida e Brisa foi correndo para cima, ouvindo atrás de si a voz de Grazi, “Opa, vai com calma, Brisa, a gente está só brincando.” Ah, claro, ela bufou, cravando as unhas na terra. “Ontem à noite ninguém disse que estava brincando”, ela disse e lembrou da madrugada anterior, quando tirou a cabeça da palha e lá estava Tina, acompanhada da senhora Iolanda e de um grupinho ciscando em volta delas. A senhora Iolanda, virando o pescoço de um lado para o outro enquanto apontava a asa, sem falar nada, para a lombada do livro aparecendo debaixo da palha, e os risinhos abafados de Tina e seu grupinho, deixaram Brisa puta da vida, e ela tentava se vingar na hora do recreio, jogando bola.

Mesmo vivendo na comuna há quase um ano, só naquela noite tivera a certeza de que não podia confiar em nenhuma delas. Vinha lendo o livro ao longo da semana, de madrugada, relendo as frases que sublinhava lentamente, sonhando com Meursault escaldado sob o sol argelino. Enquanto isso as outras se encolhiam nas suas camas, descansando para mais um dia de estudo e trabalho. Qual era o sentido daquilo? Brisa tinha decorado o começo do livro: “Hoje minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei.” Não sabia dizer o porquê, mas as páginas falavam com ela e mexiam com ela de um jeito diferente de, por exemplo, a leitura do Manual de Debicagem das Gentes. Apesar deste ser muito mais útil. Ela sabia disso porque aplicava as orientações do manual dia a dia, depois da aula, e continuava entre as primeiras na tabela de metas. No mês passado tinha debicado cinco mil gentes, mais de mil à frente de Tina. Talvez por isso a tinha dedurado e agora Brisa se enrolava para explicar à senhora Iolanda na sala da coordenação por que estava lendo um livro escrito pelas gentes. Primeiro tentou dizer que o livro não era dela, mas sua letra nas anotações nas margens das páginas a denunciou. Depois admitiu que estava lendo, porém não entendia nada, achava bobo, mas as mesmas anotações, coerentes e até iluminadas, traíam sua mentira. Numa das páginas, a senhora Iolanda leu: “A condição humana se equipara à galinácea pela chave do absurdo”. Seu tom era jocoso. “Sabe que isso pode ser classificado como conspiração?”, a senhora Iolanda ameaçou. Brisa sabia que nunca mais ia ver aquele livro.

Lembrava dos olhos injetados da senhora Iolanda e das risadas de Tina e de seu grupinho, lembrava agora da humilhação enquanto perseguia a zagueira próxima à meia-lua. Desferiu uma bicada nas ancas da adversária fora do lance, um comportamento selvagem, que historicamente as tinha levado à ruína, de acordo com os manuais lidos na sala de aula. Continuavam gritando para ela, “Calma, Brisa, olha a brincadeira, vai machucar.” Ela não se importava. Não havia sinal das coordenadoras no recreio, deviam estar no galpão de debicagem contando as gentes, tendo que aceitar mais uma vez que ela, a conspiradora, era líder na tabela de metas. Recebeu uma bola dentro da área, abriu as asas para se proteger e, quem sabe, acertar alguém, e chutou no canto, sem chance para a goleira. Talvez estivessem ganhando, não ligava para o placar, mas comemorou fazendo caras e bicos para as rivais. Mais tarde ia entrar de peito estufado no galpão de debicagem, a artilheira e a melhor debicadora da comuna, ainda disponível para uma boa briga.

É verdade que, desde que começou a ler o livro, tinha passado a usar os protetores nos ouvidos para abafar o choro das gentes. Sua produção, no entanto, continuava a mesma. Vestia o avental preto, a máscara, as luvas, as botas e era como se trocasse de penas, virasse outra – uma outra que entrava no galpão escuro, ligava o interruptor e ouvia o choro distante, embora estivesse bem perto das gentes, diante das bocas escancaradas nas gaiolas. Dizia-se que ali, mesmo ainda novas e antes da debicagem, as gentes já pressentiam os destinos delas. Mas não dava para confirmar, porque pouco se sabia sobre o que as gentes pensavam. Embora, é claro, ela se lembre bem das gentes adultas que uma vez tentaram invadir a comuna, carregando umas placas escritas ABAIXO A DEBICAGEM e PAREM DE NOS MATAR, como se aquilo tudo não fosse um processo natural – algo que o próprio Meursault concordaria, ela pensava agora, na condição de leitora conspiratória. De todo modo, Brisa tinha um trabalho a fazer e uma tabela a liderar. Dispostas em canaletas, as gaiolas eram puxadas pelas debicadoras, uma a uma, e enganchadas num alambrado para que não saíssem do lugar com o movimento (às vezes histérico) das gentes. Brisa então puxava a gente e acoplava as pernas e os braços em quatro buracos redondos que se abriam nos lados da gaiola. Tentava realizar todo o processo sem perder tempo: aquecia a lâmina com o maçarico até começar a subir faísca, metia o bico entre as vigas da gaiola para firmá-la e cortava os membros da gente, tão rápido que parecia um golpe só, mas eram quatro. Depois de umas horas de debicagem, as gentes eram levadas em carrinhos de mão para outro galpão, onde eram acomodadas em gaiolas coletivas, uma vez que ocupavam menos espaço e, assim, podiam ser alimentadas ao longo de dois ou três anos de uma forma menos dispendiosa para a comuna.

Nos últimos tempos, saía exausta da debicagem e esperava ansiosamente a noite chegar para ler o livro. Agora teria que se contentar com as partes que havia decorado: “Acabei por não me entediar mais, a partir do instante em que aprendi a recordar.” Mas ela se entediava e se enfurecia. Se deu conta de que torcia a asa como se manuseasse a lâmina enquanto esperava a cobrança do tiro de meta. Esperou que a bola chegasse em Fulana para acelerar o passo, pegando impulso para tentar um carrinho criminoso. Ainda na madrugada ela dizia para a senhora Iolanda que todo o processo era feito com excelência, tentando atenuar seu castigo. “Sou a primeira em tudo e não reclamo de nada”, ela disse, cruzando as asas no peito. “Quero saber onde você conseguiu”, disse a senhora Iolanda. “Aqui não entra nada fora da ordem. Ou você prefere como era antigamente?”, ameaçou a coordenadora. Brisa finalmente subiu no poleiro que a senhora Iolanda empurrou para ela e respirou fundo. “Desenterrei”, disse. “Um dia estava no galpão esperando os carrinhos de mão e senti uma coisa quente embaixo da terra. Cavei um pouco e achei uma sacola de plástico e, dentro dela, esse livro.” Falava a verdade. Sabia que a comuna tinha sido construída dentro de uma antiga casa das gentes, só não sabia que elas costumavam enterrar seus manuais.

A senhora Iolanda não se mostrou surpresa, parecia já ter ouvido alguma história assim. “Uma semana com turno dobrado na debicagem. Assim você cansa e não fica acordada à noite”, vaticinou a senhora Iolanda. Brisa torceu o bico e voltou para cama, enfiou a cabeça na palha mas não conseguiu dormir, construindo cenários em que partia o pescoço de Tina no recreio. Agora teria a chance. Tina prendia a bola procurando alguém livre para recebê-la. Como acontece nessas situações, ela era a única a não perceber sua algoz se aproximando a toda velocidade. Brisa já imaginava o corpo depenado de Tina empacotado no último galpão, onde as gentes eram abatidas no fim de um corredor escuro sem sentir absolutamente nada, garantia a senhora Iolanda, quando uma marreta mecânica acoplada a uma espécie de alavanca atingia a têmpora da gente, sempre com precisão, afinal um único centímetro de diferença o faria agonizar por minutos, tornando todo o processo muito dispendioso para a comuna. Mas Tina não era gente. Arqueando o corpo da forma mais aerodinâmica possível, Brisa empreendia um carrinho dos mais letais, mas não conseguiu concluí-lo. Antes de se atirar no chão com os pés em riste, Brisa viu o grupinho que ciscava em torno da senhora Iolanda na noite passada se formar ao seu redor. Os olhos das colegas faiscavam e algumas cacarejavam em tons ameaçadores. Só Tina, que segurava a bola debaixo da asa, não tinha uma expressão tão má. Brisa abriu as asas para afastá-las, mas as rivais seguraram suas penas e trançaram os pés para derrubá-la no chão. Cacarejou alto, tentou bater as asas, bicou o vento. Estava dominada. Vilma se destacou do grupinho e pediu a palavra. “Você tem uma chance”, disse ela. Pensava que era quem, a senhora Iolanda? Brisa também teve o bico tapado. “Você tem uma chance de pegar o livro de volta”, Vilma falou, em meio aos choros das gentes que vazavam do galpão da debicagem, pois o turno havia começado. “É só prometer uma coisinha”, Vilma continuou. Brisa não podia imaginar o que vinha em seguida. Nem o melhor manual seria capaz de prever: “A partir desta noite, Brisa”, disse Vilma, “também queremos saber francês.”

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