No fim sempre foi sobre dosimetria. No começo também. Ainda mais em Icrineópolis, primeira cidade a aplicar o projeto de legislação independente municipal no Brasil. A gente deveria ter se dado conta quando chegou no super aquele leite de 1 galão. Dali em diante passou-se a americanizar de um tudo. Agora é uma lei pra cada cidade, pior que eles. E coitados dos alunos de direito a decorar regra das biboquinhas de mil, 2 mil habitantes pra poder passar na OAB.
Mas então. As sentenças de dr. Jorge Vercillo, único juiz de Icrineópolis, movimentam o mercado de apostas dos 15 km 2 de terreno fértil de potencial criminal desde que ele assumiu a vara. Não se marcava X nem número no cartão. Como o doutor era criativo, o canhoto era de perguntas abertas e as filas ficavam enormes. Era preciso estudar o código, o excelentíssimo spotify e a jurisprudência pra tentar a sorte. Hoje acumulou, terceira parte de uma história longa. Não teve quem acertasse. O caso era de condenação e ninguém tinha dúvida. Negócio era o noves fora da pena-base + agravantes – atenuantes. Negócio mesmo era a pena-base.
Veja, José Quitério, músico, 38 anos, contratado pra cantar nos 50 anos de primeira dama. Tudo certo, ele calado até acabar o discurso do prefeito em homenagem a Adélia. Ninguém aguentava mais a fala pastosinha do homem quando ele finalmente fez menção de passar o microfone pro cantor. Mas não sem antes anunciar que escolheu a música de abertura da noite pra explicar exatamente a relação dos dois aos demais convidados. Tinha encomendado Mulher de Erasmo Carlos e inclusive planejava entrar junto na hora do “Na escola em que você foi ensinada/ Jamais tirei um dez/Sou forte mas não chego aos seus pés”. É boa a música.? Não. Mas piorou porque José Quitério entendeu Mulheres e largou imitando a voz do Martinho da Vila: “Já tive mulheres do tipo atrevida/Do tipo acanhada, do tipo vivida/Casada carente, solteira feliz/Já tive donzela e até meretriz” Mentira não era. Problema é que pela lei de Irineópolis ter mulher casada (se você não for o marido) é crime, ter mulher donzela e não casar depois também é crime e ter meretriz então.
Pronto, só aqui tem 3 réus. Já conto. As casas de apostas fizeram festa. No primeiro julgamento saiu o prêmio inteiro pro dono do Jornal do Comércio que levou meio milhão. Sentença: prefeito condenado a cantar Mulher de Erasmo Carlos todo dia de manhã, na hora do almoço, e no fim da tarde, no auto falante da Praça das Bandeiras, a central de Icrineópolis. Um castigo que acabou resvalando na população local que não tinham cometido crime algum, mas era obrigada a ouvir “Vejam como é forte a que eu conheço/Sua sapiência não tem preço/Satisfaz meu ego, se fingindo submissa/Mas no fundo me enfeitiça” até o dia da morte do prefeito já que o dr. Vercillo fixou pena perpétua.
A sorte dos Icrineopolenses foi a brevidade da vida do prefeito. A coisa da meretriz ficou encalacrada na cabeça da primeira dama e rapidinho ela tomou providências. Ré de número 2. Também saíu prêmio, ganhou a coordenadora pedagógica da escola municipal. Aqui operou o atenuante da humilhação pública e a condenação foi a de garantir presença em qualquer luau que acontecesse num raio de 500km da residência da homicida. Já que Icrineópolis ficava no centro do estado, não foi a um único luau, ficaram todos felizes por ela, em um ou dois meses ninguém nem lembrava mais do acontecido.
Quanto a José Quitério o prêmio acumulou. Bichinho foi condenado pelo crime de erro de repertório com o agravante da desafinação, respiração curta e microfonia. Chorou quando soube que assistiria à live do Capital Inicial – completa, aquela em que Dinho Ouro Preto resolveu cantar Queen – de 8 em 8 horas por 17 meses. Ninguém ousou pensar tão longe. Pesou a mão dr. Versillo, que pena. No fim sempre foi sobre dosimetria.

