Meus semelhantes 2

16/09/2025

O caminho para a academia é também um treino. Hoje, três homens e uma mulher tomavam a largura da calçada como se fossem os obstáculos em uma corrida. Os ternos dos homens eram pretos assim como a calça da mulher. O que dava alguma cor ao grupo era a estampa abstrata na blusa de seda que ela usava.  É comum que, no horário de almoço, grupos de colegas de trabalho  cometam esse desrespeito aos demais pedestres.  Nunca sobra espaço para ultrapassar, a menos que você desvie pela sarjeta.

O quarteto em questão parecia um grupo de advogados de um dos escritórios disfarçados de casa ou uma das casas disfarçadas de escritório estabelecidos na avenida. Um deles estava bastante perfumado. Tenho quase certeza de que era o de paletó com risca de giz e caspa nos ombros.

Parei de acompanhá-los porque queria me livrar da barreira humana. Do outro lado da rua, vi que em nada mudavam o ritmo e  desapareciam do meu foco  à medida que me aproximava da academia. Ali,  as frequentadoras ,que chegam de carro, pagam dez reais e cumprimentam os manobristas com um beijo na bochecha. Um só, à moda paulistana, prática que é comum também entre alunos e treinadores. Hoje, sem beijinhos, assinei um documento permitindo que a minha ficha de avaliação seja usada em uma pesquisa. Não li o papel e lá do fundo, no Press Peitoral, notei que outros faziam o mesmo. Esquecer os óculos nos impulsiona a atos de irresponsabilidade. Neste  caso, acho que nada de grave.

Ao meu lado, enquanto empurrava 15 quilos, o homem grandão e o falso francês miúdo. O falso francês miúdo nem é tão miúdo. É que ao lado do homem grandão, aparenta mais miudeza. É falso, ou fake ou faux porque a legítima francesa é a sua companheira, que hoje faltou. Na conversa dos dois, ouvi quando o homem grandão sacou dos arquivos empoeirados da sua memória televisiva um “Je vive de bec, Madalena”. Era uma brincadeira com o francês miúdo.  Parei tudo e só voltei a empurrar os meus pesos quando Sebastião surgiu dos arquivos empoeirados da minha memória televisiva. Nos anos 80, Sebá, codinome Pierre, se autointitulava, o “o último exilado”. Sebá ou Sebastião era um personagem de Jô Soares no Programa Viva o Gordo.  Medi ali a altura e o peso da minha idade. O falso francês respondeu que adorava o quadro.  Um pouco depois, um dos estagiários treinava com ele o fonema final de “bleu”.  A boca em o, com o som de e.  Para brincar, ambos repetiam o som muitas vezes e, de longe, soavam como duas focas conversando.

Noto que as professoras têm frequentado pouco a turma e que os professores e os demais homens se cumprimentam quase do mesmo jeito ao se encontrarem num bar. Adoram piadas com corte de cabelo e times de futebol.  Enquanto eles riem, as mulheres treinam de verdade e fazem menos barulho. Hoje o fã do Tintim (sem camiseta temática) e a aluna boneca de louça não faltaram à aula.

Na volta, diante de outra academia na mesma rua, um homem com um buquê de flores brancas. Tão grande que precisava dos dois braços para segurar. Presumi que esperava alguém que iria sair naquele horário ou, quem sabe, esperasse um Uber. O Uber Flower, que não sei se já existe. À essa hora, nenhum grupo de colegas impedia a calçada

18/09/2025

 Quando cheguei, alguma coisa, além do corriqueiro, aumentava os ruídos. O burburinho tinha a ver com futebol. O Palmeiras, na véspera, venceu o River Plate por 2 a 1. A contar outros dias de entusiasmo futebolístico , suponho que o time de uniforme verde, cujo clube fica no bairro, é o preferido de quem ensina e de quem treina. Ainda não identifiquei nenhum são paulino nem entre professores, nem entre alunos. O outro time preferido é obviamente o Corinthians e talvez supere a quantidade de torcedores na sala, mas não havia, sabe-se bem, qualquer razão para se manifestarem num dia como hoje.

 O estranho foi que, depois do burburinho, sem qualquer explicação, toda a sala entrou num silêncio perturbador, como se, por uns segundos, as pessoas presentes fizessem parte de um filme mudo e flutuassem no espaço em ausência de gravidade. Passou rápido. Um toque entre duas anilhas despertou o grupo e, no fundo, lá no fundo, duas mulheres no Desenvolvimento gargalhavam e mal conseguiam erguer os pesos. Via a cena meio de lado e pensei que o riso era uma reação ao retorno dos segundos de paralisia e silêncio.  Cabe lembrar que não faço uso de qualquer substância estimulante nos treinos, pré-treinos e pós-treinos. Vai ver, cochilei por uns segundos. Não. Não sou disso ainda. Desviei  o olhar e voltei aos movimentos da adutora.

20/09/2025

Aquela com camiseta de Kombi. É a segunda vez que a vejo. Sábado é um dia de frequentadores sortidos. Um dia extra para os disciplinados que acordam cedo ou os sem programa na sexta-feira. Pela cara descansada, deve ter ido dormir cedo. Da outra vez, usava esta mesma camiseta e talvez por isso tenha sido fácil reconhecê-la. Na ocasião, parecia estar com o cabelo mais curto e a ausência de tinta continua a mesma. Mulheres de cabelos grisalhos e curtos costumam virar rés no tribunal da eterna juventude. Ela é uma mulher de cabelos cinza que usa esta camiseta de Kombi tão cinza como os fios na sua cabeça. Teria alguma afinidade com a perua? De perua, ela mesma, não tem nada. Vai ver foi presente ou ela tem intenções de uma hippie tardia de sair pelo mundo dirigindo uma. Não parece que já tenha dirigido uma, nem pessoa que usa roupas com fins panfletários. Tão calada. Não fala nem pela camiseta. Observadora. Isso sim. Notei quando esquadrinhou o homem de bermudas cáqui, camisa vermelha sobreposta à camiseta de listrinhas pretas e brancas e papetes de couro com meias cinzas. Vi também quando me viu atenta pelo espelho e notou que ela era eu ou eu era ela.

23/09/25 A tempestade da véspera derrubou uma sibipiruna oca de tantos cupins. Caiu a uns cem metros da academia, derrubou um poste, cabos e obviamente a luz de toda a região. As aulas foram suspensas e para a observação diária só me restaram as lembranças dos escaninhos. Para quem não conhece, escaninho é um compartimento pequeno, uma divisão ou espaço de armazenamento para guardar objetos pessoais, documentos, correspondências ou outros itens. Na academia, são parte de um balcão na parede à esquerda da entrada. É ali onde os que não trocam a roupa ,nem tomam banho, deixam suas coisas: uma bolsa, uma chave, uma blusa, óculos , uma sacolinha retornável, uma pochete, uma garrafa de água nem sempre o celular ou uma banana, excelente para repor nutrientes. Objetos comuns não fossem as bolsas sociais femininas com fechos e acabamentos dourados, deslocadas como um juiz calçar tênis para um sessão no STF. Pertencem às mulheres mais de setenta, as mesmas que costumam deixar um rastro de perfume entre os aparelhos. Os escaninhos ficam em frente ao Tríceps Lateral, equipamento para o músculo do tchau que queima muito e endurece pouco.  A máquina tem uma alavanca que sobe e desce. Quando subo os braços, não vejo os objetos. É quando desço e solto ao ar que vasculho os compartimentos.

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