O íbis e a zebra (e mais 0,5)

@brontops

A torcida toda pertence aos adversários, suas bandeiras, flâmulas, rojões pipocam em meio a nuvens de confetes e fumaça colorida e nos envolve em meio a vaias, hinos e gritos de guerra. A nossa é envergonhada demais ou não teve condições de chegar ao estádio. Entretanto, se eles estivessem aqui não ouviríamos nada; são mudos, incapazes de articular frases com coerência, quanto mais decorar versos e melodias. Não sabemos rimar. O uniforme do adversário é colorido, moderno, cheio de motivos dinâmicos, o tecido artificial projetado pela NASA. O nosso, puído, velho, encardido com suores de antigas derrotas. Cada camisa é única, bordada pelas nossas mães ou nossas filhas. Somos todos solteiros, não temos ninguém a nos consolar. Craques compõem o time adversário, talvez nem precisem treinar, talvez encarem este jogo como um treino. Não tivemos tempo para treinar, nossos patrões não nos dispensaram, acabamos de nos conhecer, não temos entrosamento. O adversário, apesar de ser um time multirracial, entrosa-se com perfeição. Canhotas, dribles, cabeceios, são acrobatas, não há desperdício de passes. Nossa equipe é homogênea: somos todos muito parecidos, reflexo da miséria, faltam-nos particularidades. Nós nos odiamos, como sempre se odeia o reflexo. A outra equipe está no auge do potencial físico e espiritual. Nós já passamos da hora de parar ou precisamos ainda de muito feijão para começar direito. O Coronel, o Desembargador, o Vice-Presidente e o Bicheiro compõem o Conselho Vitalício do clube adversário. Nós temos o Zé: além de presidente, técnico e massagista, é dono do jegue que apara o mato do nosso campo. A zaga está pendurada com cartões amarelos e não temos reservas, a administração do presídio não liberou os indultos. Não que fizesse grande diferença. O outro time é imbatível, veja as campanhas pregressas laureadas pela perfeição: sem empates, vitórias por pontos ou no tapetão. Superioridade indiscutível sob qualquer clima, altitude, condição de gramado. Nosso último amistoso foi contra um mesclado de atletas paraolímpicos em que perdemos de virada (Nosso gol foi contra). Não temos chuteiras, nossos pés descalços ferem-se sob a ponta afiada da grama que se estende feito um tapete verde de faquir. Os adversários têm todos os motivos para jogar de sapato alto, mas são humildes, puros, simples: respeitam nosso time. E isto apesar dos escândalos que se acumulam em nossa história. Vocês desconhecem nosso passado: não somos notícia, não viramos manchete. Quando batemos pênalti, a bola vai para lateral. Nosso escanteio, dá no meio de campo. Tiro de meta é gol contra. O que esperar de um bando de remendados da última divisão? O pior do pior.

Entramos derrotados em campo. Mas não nos esqueçamos: nem sempre os melhores vencem. Se fosse assim, seria matemática, e não um jogo. As partidas seriam desnecessárias. O esporte só existe para nos lembrar que a justiça é uma ilusão.

Cucamonga

1

Diante do facho da lanterna, Shibata lembrou-se por um instante daquela vez em que quase fora atropelado. Devia ser o começo dos setenta e atropelamentos ainda não eram uma forma muito comum de morrer. De todo modo, doía e Shibata sentiu o osso quebrado depois de choque com o paralama do fusca. De dentro, saiu o motorista, apavorado e pedindo desculpas, era um homem com óculos de aros grossos e uma costeleta espessa, que lhe dava um ar paradoxal de antiquado e moderno simultaneamente (moderno para a época, bem entendido). Populares ajudaram a carregar Shibata para dentro do fusca de duas portas, Shibata ficou entre pacotes fechados do correio, sem entender o que estava acontecendo e partiram dali para o hospital mais próximo. Ele olhou pela janela e viu o letreiro eletrônico do Estadão, a tipologia de luz e bolinhas correndo pela trilha como uma espécie de trem do destino. Daí apagou.

Acordou num hospital, a perna engessada, o motorista a seu lado. Ele disse que havia pegado seus cadernos que haviam caído pela rua e que procurara um telefone para ligar e não achara nada. Shibata explicou que morava numa pensão com outros estudantes ali perto da Praça da Bandeira e que os pais eram agricultores japoneses em Senzala Nova que mal falavam português e que se mesmo que conseguisse o telefone de lá, um telefone, eles não entenderiam o que ele diria. O homem que o atropelou se apresentou, era Lourival Guerra, livreiro. Depois que o médico passou e disse que havia sido somente a fratura, e que ele precisaria liberar logo a maca onde estava, havia uma epidemia de meningite na cidade e não era bom que ficassem ali. Diante da situação, o próprio Guerra propôs levar Shibata para a pensão em que residia.

Já era difícil estacionar naquela época (embora nem tanto) e quando Lourival viu o tamanho da escadaria estreita que levaria aos fundos do velho casarão onde funcionava a pensão, propôs outra coisa.

-é melhor você ficar em um lugar com elevador.

O fusca amassado rodou alguns quarteirões, parou em um edifício clássico. Apesar da proposta do homem que o atropelou, Shibata observou que entre a calçada e a entrada do prédio havia uma breve escadaria e não seria totalmente descabido que houvesse novos degraus até finalmente chegar no elevador. Lourival Guerra bateu na grade de ferro ornamentado e lá veio um senhor nordestino abrir. Apoiado nos ombros do porteiro e de Lourival, Shibata entrou no elevador pantográfico. A luz fantasmagórica percorreu o edifício de luzes apagadas até o terceiro andar. Foi saltitando que Shibata atravessou o corredor, passaram por várias portas com vidros texturizados e nomes garbosos. Abriram finalmente uma das salas comerciais e havia ali uma livraria nas sombras.

2

Shibata desconhecia a existência desses comércios especializados em edifícios. Para ele, loja era coisa que se estabelecia na rua, nas calçadas, não no interior de prédios. Lourival explicou que havia produtos de nichos próprios, que não havia demanda que justificasse um aluguel de um ponto. Lourival falou de uma outra livraria no mesmo edifício, a Via Crucis, especializada em livros de história bíblica e arqueologia israelense. Havia a Carta Esférica, especializada em mapas e guias, muito frequentada por funcionários de agências de viagem. Perto das Clínicas, havia a Vesalius, um sebo de catataus de medicina e de manequins de consultórios médicos e odontológicos. Na Liberdade, se encontrava a Samarcanda, o dono era capixaba, mas havia de tudo sobre a Ásia. A Poliglota, uma especializada em dicionários e idiomas, ficava no edifício Babel Campos, a três quadras dali. A Toth, focada em cartomancia e repleta de livros com os nomes mais improváveis, “Como ficar invisível” ou “O que há depois do Inferno”.  Já a livraria de Lourival Guerra se chamava Diafragma e nela havia tudo sobre fotografia e artes visuais. Naquele mundo em que nada estava a um clique de distância, Shibata se descobriu.

3

O motorista assumiu rápido demais que a culpa era dele, que dirigia distraído, estava com pressa levando a encomenda de livros para o cliente. O delegado arqueou a sobrancelha quando ele falou em livros e pediu para que o livreiro abrisse uma das caixas no fusca. Guerra sabiamente abriu a caixa com os Tintins e quase que imediatamente o delegado desarmou a desconfiança que o dono do fusca poderia ser um subversivo. Ele até folheou curioso Tintim no Congo e devolveu a edição para a caixa.

Essa pressa em querer assumir a responsabilidade fez com que Shibata se sentisse desconfortável. Ainda assim não recusou a cama dobrável de ferro e o colchão fino onde passou a dormir. Havia um fogareiro pequeno na cozinha pequena o que o liberou de ter que descer de muleta e tomar café em um dos inúmeros botequins sujos que alimentava os burocratas e trabalhadores do centro da cidade.

Ele despertava, olhava a paisagem da janela toda bloqueada de edifícios e restava apenas acompanhar o movimento de gente pelo calçadão recém inaugurado, mas ainda se viam feito fósseis, as linhas férreas dos bondes que ainda passavam por ali. Sempre tropeçava um coitado. O rio de passos e murmúrios era o mundo respirando lá fora.

E ali dentro, tudo em uma calma absoluta. Como um aquário ou uma estufa. Os livros em suas estantes, a luz insossa que vinha da rua, o rádio cujo locutor com voz de velho anunciava clássicos e jazz, sendo que Shibata não reconhecia nenhuma das músicas, exceto algumas de desenhos animados. Mas ele não tinha coragem de rodar o seletor e mudar de emissora.

E então Lourival Guerra chegava. Ele morava em um prédio ali do centro, um antigo palacete com apartamentos amplos, que resistia sem imaginar que os arredores se deteriorariam em alguns anos. Chegava trazendo alguns pães doces de uma confeitaria e tirava cachecol e boina, como se estivesse acabando de chegar de algum país europeu ou somente Buenos Aires mesmo. Trazia dois jornais presos sob a axila, que ele fazia questão de ler e recortar aquilo que mais o interessava. Para Shibata, sobrava os livros que estavam a venda e os jornais repletos de buracos.

Mas isso foi depois. No início, o dono da livraria se esforçava para conversar com Shibata que respondia de forma tímida. Guerra conversava, falava de si e de outras coisas, mas nunca falou sobre o dia do atropelamento e de sua suspeita: que o garoto havia tentado se matar, jogando-se na frente do fusca.

Deixe um comentário