Após horas de scroll, meu dedo deu um tilt em um post de um desconhecido virtual que panfletava a estreia literária de uma tal Julia Aldakian. Aquilo me pareceu muito interessante. Mas assumo, primeiro, poucas coisas são, para mim, muito interessantes. Segundo, considero a leitura uma chatice. Detesto o mundinho da literatura, tenho ranço de todos os escritores e escritoras, principalmente os vivos. O que na verdade me chamou atenção naquela postagem foi o bar, que eu nunca havia ido, mas sabia que era perto. E fato do bar estar fechado para um evento, que além de não precisar de convite, tinha o patrocínio de uma vinícola. Famosa. Era sábado, e igual à todas as noites de todos os outros dias da semana, eu não planejava botar o pé na rua. E não, não estou reclamando da mesmice, ou da solitude, do eu sofro tanto, porque não faço a menor questão de socializar. Não tenho amigos. Não sou simpática. Não sou a rainha do assunto. Assumo minha ignorância acerca desta palavra, assunto, que não me remete a repertório, e sim ao que não encontra assento, ou sentido. Mas vez ou nunca eu sofro de faniquito. Uma espécie de comichão que transforma meu cafofo em uma casa de intolerância. Quando isso acontece, eu cedo, e me divirto com a única companhia que suporto. Eu mesma.
Naquela noite foi assim. Espanei a energia vegetal que mofava meu corpo. Vesti uma camisa xadrez, largona e mantive a calça de moletom. Conferi se meus dentes não carregavam resquícios do brownie que me serviu de jantar, e dei nota cinco, sem louvor, para meu look. Esculachada sim, burra jamais. Não ao ponto de desperdiçar copos de graça quando não posso pagar pela bebida. Enfrentei meus demônios e fui pelo vinho.
O Jogo da Prestidigitação era o nome do livro. O lançamento estava chocho, mas o vinho, caceta, era um tinto muito bom. Eu já estava na terceira taça, enxergando as coisas baralhadas, mas era certo que a noite continuava micada. Nem fila de autógrafos havia. Apenas duas meninas sonsas, que no caso, me irritaram em dobro. Uma porque alardeava com voz de maritaca e ar de chefe de estado que havia amado a capa:
Ai, que luxo, tão simples, sem estampa, só amarela, um sucesso, a capa vencedora quando o olho do leitor busca algo na prateleira da livraria sem saber exatamente o que quer
e dizia isso sobrepondo a rouquidão da outra, que manobrava as mãos com destreza ao mesmo tempo em que recitava as primeiras páginas e se filmava em uma live:
O Jogo da Prestidigitação é dedicado a Valério Giz,
poeta,
diabético, mentiroso compulsivo, pugilista frustrado, devoto de Santa Catarina, que não peca na gula, que não troca as pilhas do controle remoto, nem as roupas de baixo, menos ainda as de cama, que não tem mulher, nem filhos, nem pets, nem plantas, nem hobbies, nem a discografia completa do Bob Dylan, embora quisesse, que não desgruda de um manual capenga de ilusionismo, que jura ter herdado do avô, mas foi comprado em sebo, e que possui um sismógrafo, que o salva quando perde a hora no chuveiro, ou abusa dos advérbios de modo, e que é pós-graduado na arte de se contradizer.
Me cocei, inquietada. Quem será esse sujeito, com tantos predicados? Busquei Valério em todos os poucos rostos que estavam no bar. Não encontrei ninguém que devesse ser ele. Uma rápida pesquisa no Google me levou ao falecido blog de Julia Aldakian. A primeira postagem que apareceu foi justamente a última escrita, há seis anos.
Declaro para quem quiser saber que Valério Giz é um loser e sua biografia é tão fraca quanto pretensiosa. Giz nasceu em 1985, de causa não divulgada. Mágico amador, mais amador do que mágico, Giz desapareceu de circulação após entrar no banheiro de uma casa de show burlesco. Às 15 horas e 23 minutos do dia 28 de maio de 2019, ao sair de uma agência bancária após resgatar todo o seu pouco dinheiro, Giz foi visto batendo no vidro com a intenção de acalmar uma mulher que, após levar um fora do noivo, chorava em círculos, presa na porta giratória. Giz a conhecia. Era Aline, uma ex–colega de trabalho. Há cerca de um ano os dois partilharam a bancada de um salão de beleza furreca. Sendo eles os únicos funcionários do estabelecimento, que aliás beirava a falência, Aline, na época, passou a enviar para Giz, seu chefe, diárias mensagens de WhatsApp, todas idênticas: não dormi bem e chegarei mal-humorada. Era manicure, a moça. Ansiosa também, egocêntrica, um tanto tóxica. Giz agradecia: ok, obrigado por avisar. Até que, em uma manhã, respondeu-lhe com uma imagem erotizada. À tarde, Aline pediu demissão. Diante do inusitado reencontro, com Aline mais calma e agora solteira, Valério não viu mal em convidá-la para um passeio a pé. Ao ouvir o sim, apaixonou-se, tombou e bateu a cabeça em um degrau. Morreu de forma ordinária, digna de uma ilusão de sua autoria. Dizem que usa peruca, e vive em Lisboa.
Meu telefone caiu no chão, e eu caí de amor. Cada vez que meu botão da paixão platônica é ativado, eu agarro o mico completo. Não somente comprei o livro O Jogo da Prestidigitação, como pedi uma dedicatória para a autora. A caneta que eu segurava penou no ar, constrangida e sem retorno, porque além de Julia negar a assinatura, ela ainda teve a pachorra de rir na minha cara.
Agora, não, queridinha. Estou muito cansada. Outra hora, quem sabe.
Lancei a minha maldição:
Essa puta um dia me paga.
Esse dia foi ontem. Estava a ler o livro de Julia em um café no bairro de Alcântara, e bem, eu não gosto de ler, mas já que havia comprado o livro, resolvi ler. E o livro custou caro. E caro não é sinônimo de bom. Ou é bom, mas nem tanto. De qualquer forma, era a terceira vez que eu me dispunha a decifrar alguma letra daquelas 300 páginas. 345, para ser exata. E sem figuras. Mas bem, eu estava a ler o livro de Julia em um café no bairro de Alcântara quando eu a vejo passar. Corri até ela, babando vingança. Apesar do frio, Julia vestia uma calça fininha e uma regata de alcinha, as duas peças acetinadas. Estranho, mas tudo bem, ela é escritora. Não me apresentei, apenas mostrei o livro. Ela desandou a falar, emendando uma palavra na outra. Pesquei naquela verborragia a informação de que, além de escrever, Julia batia ponto em uma loja de lingerie para pagar as contas. Lingerie vende bem, até bater a crise. E a crise bateu na porta da loja onde Julia batia ponto. Ela havia acabado de ser demitida. Seus dedos ainda chacoalhavam, desnorteados, coitadinhos. Menor dos males, ela estava de unha feita.
O fato de eu ler seu livro a confortou. Sem termos o que falar, Julia e eu caminhamos até uma praça onde idosos se distraíam com jogos de tabuleiro. Perguntamos se eles poderiam nos emprestar as peças de damas, mas só conseguimos as de xadrez.
Foi a minha vez de ser de ser áspera.
Não sei jogar xadrez.
Diante do tabuleiro, Julia levantou os ombros em um deboche tanto faz, e me propôs algo mais complexo. O Jogo da Prestidigitação. Um passatempo inventado, veja só, por Valério Giz.
As regras são claras, embora obscuras. E rígidas. Joga-se a dois, e cada participante tem direito a uma única peça. Não uma peça pronta, ou um objeto qualquer, mas algo que tenha um forte valor sentimental. Ao final, a peça do adversário será entregue ao ganhador, como prêmio. O jogo se dá em uma batalha de perguntas. Perguntas de qualquer natureza. Familiar, cultural, política, sexual, ou pior. As peças são movidas de forma simples, da direita para esquerda, e ao chegar última casa, descem para a linha seguinte, continuando o movimento que agora passa a ser da esquerda para direita. O avanço se dá pelo veredicto do desafiante em julgar verdadeira ou falsa a resposta do adversário. A sentença negativa move o jogo.
Um estranhamento silencioso grita entre nós. Eu beijo e entrego à Julia uma medalhinha de um santo que eu não sei o nome, mas que pertenceu à minha finada avó materna. Julia enfia as mãos por baixo da blusa, afasta o sutiã, desenrosca um piercing do mamilo esquerdo e aposta seu segredo.
As diretrizes indefinidas com rigor e a previsível evolução do blefe embaralham meus miolos, ainda cismados com a problemática descrição que a internet jurou ser o tal ilusionista misterioso inventor da brincadeira.
Julia me provoca:
Preparada para perder?
Eu sorrio em uma animação hipócrita, depois bocejo de preguiça. Todo esse enigma com borogodó nada mais é do que um entretenimento estúpido criado por um adulto que, ou não cresceu, ou cresceu mas ainda vive no mundo do Harry Potter. O jogo não passa de uma versão daquele manjado questionário da verdade, tão old school quanto a cauda da cobrinha do celular tijolão, aquela que se expandia na fuga e sobrevivia driblando o encontro com barreiras que ela própria criava. A príncipio, tudo me parece simples. Mas o combate de franquezas demanda uma criatividade ardilosa para formular as perguntas, as respostas deixam de ser colagens nonsenses de palavras. Ao adentrarmos no terreno da ironia perversa, Julia e eu estamos à uma sílaba nos tornarmos truculentas, com direito a puxões de cabelo e tapas na cara. Mas antes disso, a partida empata por afogamento. À deriva, Julia e eu descobrimos no saldo final uma peculiaridade em comum: amamos o mesmo homem de Luanda. Detalhe, nenhuma é correspondida.
Um expresso duplo vem como prêmio de consolação. A raiz armênia de Julia lê a borra do meu café: dinheiro, prosperidade e renovação. Quero postar uma selfie de nós duas. Impossível. Em Alcântara não há sinal de WiFi, nem de amor à vista.
Tento, sem sucesso, perguntar à Julia quem fucking é Valério Giz. Consigo apenas mastigar a língua, que sangra e borbulha como um chafariz dentro da minha boca. Ela de alguma forma capta meu pensamento. Vasculha e vasculha sua bolsa, até encontrar algo. Mantém a postura firme ao me estender um folheto:
Vá a este salão de beleza e diga ao gerente que precisa da senha da internet. Se ele negar, seja enfática: eu sei que você é Valério Giz.
E me adverte:
Em hipótese alguma se apaixone. Valério Giz é escorpiano com ascendente em gêmeos, lua em gêmeos e filho de Xangô. Tome espaço.
Engulo meu raciocínio junto com as pendências emocionais. Coloco um boné para disfarçar o cabelo sujo e sigo a pista de Valério Giz. E se o primeiro diagnóstico do moço me soou intrigante, o segundo é rocambolesco: Valério não se chama Valério, se chama Rodolfo. Um homem banal. Real. Tem voz. Tem cheiro. Tem carne. Não é bonito, nem feio, e apesar das bochechas pinceladas com blush rosa, é uma pessoa cinza.
Pergunto pelas promoções, Valério me apresenta os valores do retoque da raiz. Mas silencia no meio da explicação, quando pega um folheto, igual ao que Julia me deu. Ele dobra o papel, rasga em duas metade e anota em cada uma o próprio endereço, usando a mão direita e a mão esquerda, simultaneamente. Em uma coreografia de batedor de carteira, Valério submerge os bilhetes nos dois bolsos traseiros do meu jeans, sem que eu perceba qualquer movimento.
Para que a menina não se perca.
Mais perdida do que eu estava era impossível.
A madrugada é de inverno, o predinho é mixuruca, a rua mórbida fica em um bairro que jamais imaginei pisar. Cheguei com a agilidade de uma adolescente que pula a janela paterna. A camisa usada por Giz naquela tarde dá bandeira no varal, junto a outras cinco, múltiplas em azul-marinho, castanho, preto, azul-marinho, castanho, preto. Roupa barata comprada em pack. Chove fininho sem previsão do tempo abrir. Valério Giz vai exalar cachorro molhado a semana inteira.
Bato na porta, e entro. A casa cheira incenso, livro velho e sopa morna. Mergulhamos em conversas invulgares, sem limites. Não nos falta assunto, mesmo calados. O beijo na boca vem lento, do tamanho de um bonde. Valério tem a voz mole.
Essa noite teu nome será Blanche Dubois.
Eu não tem na ponta da língua o nome do Stanley Kovalski, apenas o braço forte do Marlon Brando.
Ele não sai do personagem. Ou ele é o personagem. Talvez eu seja a personagem.
I don’t want realism, I want magic.
Rodolfo-Kovalski-Giz esclarece em tom professoral, quase desenho, que é especializado em penteados magia, não em amor. Tudo que virá dele será um empréstimo. Ressalta que não ama e anda armado, e quando voa longe, nunca volta.
O alerta agudo reverbera como uma onomatopéia de moeda de troca. Cai em mim com um efeito avassalador. No sofá-cama eu-Blanche me desmancho, e entre ácaros e molas soltas, eu menstruo. Ele lambe a hemorragia e o resultado é inversamente proporcional ao que deveria ser estranhamento.
(me recuso a escrever o que então se passou)
Amanhece tarde demais – para mim. Ele parece morto, mas só finge dormir. A força com a qual bato a porta não é mesma em que me agarro para sair no tranco dessa vida besta. Óculos escuros camuflam o rímel sangrado que listra meu rosto. Idealizo encerrar essa súbita relação de forma analógica, como uma carta escrita de próprio punho entregue via carteiro. Mas a minha ansiedade corta o caminho pelo direct do Instagram, quando roubo na cara dura uma frase do livro de Julia.
O inferno é o céu da sua boca hashtag bomdiaparavocetambem.
A falsificação da escrita me rasura e verte minha decepção em literatura marginal.
Rodolfo-Kovalski-Giz contra-ataca na hora
És tão doce
e não escreve mais nada. Não envia nem um infeliz emoji de coração. Permanece mudo, porém online. Eu continuo só. Só, palavra pobre. Só, palavra mísera. Só, seca. Só, real. A obsessão por homens que não mentem me faz amar menos, cada vez mais. Na ruptura do engano eu berro hostilidade. Enfio a mão no meio das pernas e espalmo o sangue nas páginas do livro. Declaro guerra aos dois.
Olho o relógio. Percebo que estou atrasada. Passei da hora de dar um bom mergulho no mar.
Glaucia Faria
