Ressaca.
Antigamente você dropava um ibuprofeno e mandava um big mac (comida de doente) pra dentro e seguia o jogo, sem crise, dava até pra disfarçar no trabalho. Depois dos trinta, porém, a ressaca envolve necessariamente questionar todas as escolhas de vida que te levaram até ali, de tão violenta, tão inclemente. Derrubado na cama, celular na mão, o cérebro uma geleia pisoteada, me deparo com os vídeos de um rapaz que vai em busca do melhor dogão de Maringá.
Isso de encontrar “o melhor” é uma baita obsessão dos nossos tempos, né. Tá por todo canto, a melhor pizza, o melhor prato feito, a melhor comida afetiva – mas que jojoca é comida afetiva? Eu digo o que é: uma contradição em termos. Um restaurante é um lugar onde profissionais servem comida inafetiva. Onde a cozinheira não é a minha mãe e, se for, tem que servir a mesa ao lado tão bem quanto a minha. O resto é perfumaria. “Mais que um lanche, uma experiência.” Eu só queria um lanche mesmo, valeu. A experiência de comer um lanche e nada mais. Antes que alguém questione a minha metodologia, quero dizer que não sou sociólogo, antropólogo, nada disso, eu sou só um bêbado. Minha metodologia é a ressaca de ontem.
Além disso, qualquer lugar que diga que tem o melhor sorvete (o melhor gelato, bello!) da cidade, está mentindo. Deus me proteja de estabelecimento comercial com autoestima elevada. É o canto de Ossanha: o que diz sou, não é. Quem é mesmo é não sou. O Madero, por exemplo, aquela tragédia. Estampa seu slogan megalomaníaco em letras douradas por tudo quanto é canto: the best burger in the world. Sem o menor constrangimento. A gente devia ter desconfiado de que algo ali não cheirava bem. Mas não, precisou daquele vídeo bizarro, onde o dono, sem que ninguém perguntasse a opinião dele, dizia que o Brasil não podia parar só porque cinco mil pessoas iam morrer na pandemia. Afinal de contas, o que seriam cinco (ou setecentas) mil mortes perto do melhor hambúrguer do mundo.
Mas claro, toda regra precisa de uma exceção, que serve pra confirmá-la. E a exceção, neste caso, se chama lanchonete Asa Branca, ou Bar do Gilmar, onde uma humilde tabuleta, escrita à mão e pendurada na árvore em frente ao boteco, avisa pra quem passa a pé pela Avenida Riachuelo (quem passa de carro precisa cuidar do trânsito, não pode ler tabuleta): temos salgados, frito e assados, o melhor da cidade. Perceba que apenas os salgados assados, mais nobres e esnobes, é que merecem a marca distintiva do plural. Gilmar e Dona Celeste, a responsável pelos quitutes, uma cabeça que veste lenço e surge de quando em quando na janelinha da cozinha, os dois nunca erraram. Ao lado, sobrevive uma loja de aviamentos. Encapamos botões, pregamos ilhós. Como será que andam os meus ilhós? Surge-me uma vontade irrefreável de pregá-los.
Eu ontem estive no Tribo’s, lendária casa de shows de Maringá, onde eu não pisava tinha uns, sei lá, dez anos. Desde a época em que essa história de melhor dogão da cidade não importava um palito. Lá dentro tudo tava exatamente igual, mas parecia que eu via as coisas de cima. Bebi um Kissifoda (clássico absoluto da casa, um shot flamejante com vodca, pinga e conhaque – sim – além de molho de pimenta – pois é), só de nostalgia. Só que a Dami não botou fogo no meu copo. Talvez tenham parado com a prática depois de algum acidente. Ou então ela tava sem o isqueiro, olhou pro copo e pensou: que se foda. A banda principal eu não vi. Faz parte da experiência completa do Tribo’s perder alguns dos shows da noite sentado lá fora, nas mesas do fundo. Só quero mencionar a banda que abriu e se chama Unbelieveable Things. Era mesmo uma coisa inacreditável que, depois de tanto tempo, a Rannah e eu estivéssemos de volta àquele lugar, entre amigos, bebendo cerveja e lirismo em copos de plástico, eu abraçado à garrafa.
Na mesa do merch, tinha um zine sendo distribuído. Alguém queria mesmo me ver chorando, comovido como o diabo. Folheio-o agora. Nas páginas finais, encontro a sessão “top 3 lanches pra comer depois da meia-noite”, onde figuras carimbadas da cena alternativa da cidade elegem os, bem, os melhores lanches pra comer depois da meia-noite. Anoto uma sugestão ou outra.
No seio do algoritmo ou no zine de papel, nada muda. A obsessão vive. Não existe alternativa.
