0,0041% de Brasil é Caetés

Pastel de vento

Agarrado no batente da porta do banheiro, o aniversariante não quer tomar banho por nada. 

– Quem vai vir aqui, pai? Vem ninguém não. 

– Como? Tem que tomar banho, Joca. Ficar bonito pra tua festa, rapaz.

– Falou comigo, Simão? Joca tá pronto? Já já o povo chega – Edineia gritava da cozinha.

– Peraí, Edineia. Que é que tu queres? O menino tá empacado.

– Já tá enfeitado, é? Coisa linda de mainha. Cadê? Quero ver. Venham simbora, já já o povo chega.

Joca tinha dito ontem de noite, de novo, que nem adiantava assar bolo, quem é que vai vir pra festa num barulho desses? Edineia riu. O menino não entendeu nada mas riu também assim meio que por espelhamento. Edineia, andava risonha. Joca falava e ela ria, Simão falava, ela ria também. Às vezes nem era de rir o assunto. Com a cara ainda meio congelada, Joca olhou pro pai. Simão tinha a boca muito cheia pra rir, mas também não ficou sério não. Estavam na cozinha e o jantar era de 3 travessas, inhame, queijo assado e carne de sol. Ninguém tem razão pra ficar sério em jantar de 3 travessas. Ele repetiu, quem é que vai vir pra festa num barulho desse? Ninguém disse nada. 

No outro dia, Edineia assou o bolo e vestiu verde que o menino embora fosse pernambucano torcia pro Palmeiras. Enrolou brigadeiro, surpresa de uva e bem-casado, fritou coxinha e pastel, fez cachorro quente e tudo. A conta da comida pensou pra 15 crianças, eram 20 na quarta série, mas tem sempre uns que faltam. Meia hora antes da festa deu aquele medo de ter sido pouco, e se trouxerem os irmãos? Veio ninguém. Quem é que vai vir pra festa num barulho desse?

Contra corrente

Pode ser que essa dor no pé da barriga seja de medo. É que olhando pra cima não dá nem pra ver o fim da escada. Tá quente, quente como se Eulálio e Joca estivessem dentro de um cano de cimento no meio do agreste pernambucano. E estão. Um cano de 120m de altura. Mas pode ser também que seja de energia aventureira. Joca foi na frente pra proteger o amigo. Muito menino pra saber que quem protege na subida vai atrás. Na altura do segundo tubo, porque o cano é feito de 6 tubos mais largos na base do que no topo, Eulálio perdeu a alpercata. Chorou, mas já estavam tão no alto que a lágrima se desfez antes de encostar no chão. Joca perguntou se “firmeza?!” no vocabulário recém-adquirido dos vídeos dos jogadores paulistas. Eulálio mentiu que “firmeza!”. 

Quanto mais alto subiam mais doiam as barrigas. A de Eulálio e a de Joca, líder da expedição que (segredo nosso) também subia pela primeira vez o aerogerador. Na hora que viram de pertinho, pertinho de encostar, as hélices gigantes gritaram como gritam os alpinistas no topo de uma montanha. Gritavam também o vento e as pás de vento dos aerogeradores vizinhos. Edineia dentro de casa, a 150m do acontecimento não ouviu. O grito deles, igualzinho à lágrima de Eulálio se desfez antes de encostar no chão. Caetés inteiro procurou pelos meninos. Eles sabiam, mas só puderam descer depois que as pernas descansaram.

Ligada no 220

Encostado no portão do curral, Simão acompanhava a dança da vaca. Desde que pariu o último bezerrinho deu pra perseguir a sombra das pás de vento. Corria até cansar, depois andava e no fim do dia já ia assim, meio que sacudindo o corpo feito mãe de menino novo que embala o menino mesmo quando tá sem menino no colo. O leite secou. Pro bezerro, pra Simão e pro menino de Simão. Edineia não toma leite. Anda cheia de alergia, de leite, de pão, de marido. 

Soprar no ouvido

– Que foi? Tu não quer não é?

– Desculpa, amor – Edineia puxa a camisola de volta pra baixo com uma mão e o lençol pra cima com a outra

– Ô, mulher. Eu não já apaguei a luz.

– Mesmo assim.

– Não era a luz? – Simão tenta. 

– Mas eu fico vendo a sombra, sei lá. Que agonia. Ai, tô agoniada, amor.

– Feche o olho que a sombra desliga na sua cabeça, vá.

Tudo isso dito em sussurro gritado, um no ouvido do outro. 

– Bora agoniado mesmo, no meio do caminho a gente desagonia.

– Quero não. Comi muito pastel, tô feia, tô buchuda.

Tava nada. E depois tudo que Simão queria era ver Edineia buchudinha.

Palavras ao vento

0.0041% do Brasil é Caetés. 0,19% do estado de Pernambuco é Caetés. Agora, até 1963, nem Caetés era Caetés. Era Garanhuns. Joca não. Joca já nasceu Joca e segue Joca mesmo agora que saiu da escola do sítio pra estudar na da cidade. Simão vai levar de Uno todo dia. Na hora do almoço ele volta de moto táxi. É perigoso e sai caro, mas Joca ama a brisa que a moto faz quando corre. Ama mais ainda ver os cataventos se afastando de manhã cedo no caminho pra escola. Só não ama muito essa coisa da mãe de Eulálio não deixar mais ele vir brincar depois da aula. Eulálio é o único amigo que ainda não mudou pra cidade. Simão prometeu que resolve. Já já chega um irmãozinho.

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