Roberto Efrem Filho
Arlindo se esconde debaixo do jambeiro quando ouve o homem gritar. Socorro, tem alguém aí? Faz mais de semana, o terreiro vai inteiro pintado das florinhas cor-de-rosa que caem dos quatro pés de jambo. Madalena pediu que o filho calçasse a alpargata e fosse catar manga madura. Vá, Arlindinho, vá ligeiro, vá. Pegue a vara comprida. Tá escorada na mangueira do lado direito da casa grande. Sim, a espada. A mangueira tá gorda, vi? Arlindo saiu de casa sem cumprir a ordem da mãe. Foi descalço pelo terreiro, certo de que melhor seria melar a sola com flor. O menino passa já defronte ao terraço quando escuta o grito derradeiro, socorro, eu tô preso, socorro, socorro. De primeiro, Arlindo toma um susto. Corre pra baixo do jambeiro porque o grito do homem vem de cima, do quarto de Dona Ofélia. Sentadinho na raiz, ainda consegue enxergar o rapaz na janela, abraçado à grade branca que se arqueia em meia-lua. É bonito, e ainda mais assustado que o menino. Arlindo não o conhece, pensa em correr até a casa, avisar Madalena ou a vó, contar que viu um homem gritando socorro. Desiste de se mexer assim que o motor do carro de Seu Afrânio ronca na rodagem, agudo e metálico.
Afrânio pulou cedo da cama. Duvidou se havia dormido. A cabeça cheia, a boca amarga, uma caixa de dipirona. Mal a manhã chiou no canavial, levantou feito raio. Sábado era dia de feira em Gameleira. A essa altura, os feirantes montavam as barracas, abarrotavam a rua principal da cidade. Se corresse, Afrânio compraria tudo novinho, escolheria a melhor carne, pediria a Lena que preparasse o cozido, receita de sua mãe. Entrou no banheiro, lavou o rosto. No quarto, diante da janela aberta, vestiu a roupa da noite anterior. Pegou do chão a camisa, a calça e os sapatos de Otávio, que dormia nu nos lençóis brancos de Dona Ofélia. Vendo o rapaz na cama, os poucos pelos que subiam até o início das costas, Afrânio sentiu-se enrijecer, a boca salivar e secar, sentiu medo. Nunca levou um homem pra casa, muito menos pra casa de sua família. Noite passada, no segundo exato em que Otávio gargalhava entre os amigos no salão principal do Chanteclair e convertia àquele par de olhos verdes todas as luzes do centro do Recife, Afrânio se aproximou do rapaz convencido de que ele entraria no seleto e impronunciável grupo dos homens que foram seus. Dois, três, quatro, cinco, quantos não importava. Para Afrânio, a certeza de que teria um homem era proporcional ao desejo de que ninguém jamais soubesse. Frango era seu irmão, Aparício. A derrota de seu pai. A vergonha de Seu Siqueira. Afrânio comia cu de frango, era diferente. Fazia isso aqui e ali, entre as centenas de mulheres que deitaram em sua cama ou nas camas de quem deitou, cabaré a cabaré. Afrânio era homem. E, sendo o homem que era, faria Otávio pedir que o tomasse, rasgasse, defenestrasse, fundo.
Escondido no tronco do jambeiro, Arlindo acompanha Afrânio estacionar o carro e descer as compras da mala. Há meses o patrão não aparecia na propriedade. Mandava somente recado pra ordenar o corte, negociar a entrada dos treminhões, tratar do preço da cana. Os moradores reclamam. Acusam Seu Afrânio de abandonar as terras, atrasar salário. Na última visita, em junho, Afrânio passou duas semanas na casa, hospedado no quarto dos pais. Foi tempo de Arlindo ver a mãe doida. Madalena se agonia na presença do patrão. Cumpre ordem atrás de ordem. Lustra ladrilho, limpa móvel, lava e passa os panos todos do enxoval de Dona Ofélia, cuida do almoço e da ceia de Seu Afrânio. E escapa da casa grande grande logo que a luz rareia e os moradores se recolhem nos sítios. Bora, Arlindo, bora, bora. Arrasta o menino pelo braço na esperança de não encontrar o patrão. Agora, dois ou três minutos depois de o patrão entrar na casa, Arlindo o vê na janela do quarto superior. Tem uma trocha de roupa nas mãos e, sorrindo de um jeito que o menino não adivinharia de que Seu Afrânio fosse capaz, fala com o homem que antes gritava socorro.
Afrânio se atraiu pelo traquejo de Otávio. Ao menos é nisso que pensa enquanto percorre a calça ajustada nas coxas e na bunda, a camisa ensacada, o trancelim dourado no peito que os botões abertos da cambraia deixam entrever. Do lado oposto do salão, Afrânio observa quando o rapazote entra no Chanteclair rodeado de outros quatro homens. São jovens, todos eles. Falam alto como se o puteiro lhes pertencesse e não houvesse puta velha ou puta moça que desconheça seus nomes, sua precedência, o útero de onde saíram e o futuro que viceja em seus gestos largos, no modo como se abraçam e riem, brindam às putas e ao Recife que delas vive. Afrânio lembra de ter topado com o rapaz em outras noitadas. Sabe que é michê. Mas é no momento em que, com uma garrafa de whisky na mão direita, chega ao grupo e ouve Otávio pronunciar o nome de seu irmão, que Afrânio compreende. É o boy que come Aparício. Eu posso saber o que os senhores estão comemorando? Otávio recua desconfiado. Um dos seus amigos responde que estão no meio de uma despedida de solteiro. Ah, que maravilha! E a quem eu devo desejar meus pêsames? Os rapazes riem mais uma vez e apontam Otávio que, ali mesmo, engolido pelos olhos de Afrânio, pressente que se deitará com aquele homem nesta noite.
Arlindo estranha a forma como o rapaz toca a mão do patrão no parapeito da janela. O moço se achega a Seu Afrânio, que enverga a quartinha de barro num copo d’água e desabotoa a camisa de seda. Arlindo conhece a seda porque, no final do ano, ganhou de Seu Afrânio um corte do tecido pra sua formatura no grupo escolar. Na prova da roupa, foi só abotoar a camisa, percebeu a avó chorar. É o pai escritinho, Madalena. Arlindo não tem pai, mainha. Eu já disse. Aquela desgraça não é pai de seu ninguém. O rapaz toca o braço do patrão, o ombro, o peito. E Seu Afrânio o puxa pra longe da janela, algo que, à vista do menino debaixo do jambeiro, aparenta ser um abraço. Arlindo corre do pé de jambo para o terraço da casa grande. Lá, no topo da escadaria, sobe na coluna que sustenta o alpendre. Tantas vezes trepou nesse telhado na intenção de tirar manga ou abacate, tantas vezes Madalena ralhou com o filho. Tu vai cair daí, miserávi. Vai torar a cabeça no chão, Arlindinho. Esse menino não tem conserto, minha Nossa Senhora. Arlindo se agacha e ziguezagueia entre as telhas até se agarrar à grade da janela. Brechando, encontra os dois homens na cama.
Ei, bonitão. Tá bom já. Vamo sair daqui. Otávio ensaia pedir ao garçom a terceira garrafa de whisky da madrugada e Afrânio intervém. Sobram apenas dois dos cinco jovens que tomaram o salão de assalto. Um par de horas atrás, três amigos se engancharam com duas raparigas e, às custas do dote de Otávio, desapareceram num quartinho do cabaré. O quarto amigo se atracou bêbado com a jukebox. Mete fichas em série na máquina e faz os últimos sobreviventes do salão escutarem Leonardo Sullivan há vinte rodadas. Vamo comigo, Otávio. Tu quer me comer, Afrânio? Bicho, tu vai implorar pra eu te comer. Otávio gosta da arrogância e, como quem consente, cambaleia na direção do parceiro. Acho que tô meio queimado. Tem nada nã0, eu ajudo a sarar. Vamo nessa? Otávio segue Afrânio e entra no carro estacionado na Avenida Rio Branco. Vou te levar pra casa grande. Porra de casa grande é essa, véi? Dá um cochilo aí que em uma hora a gente chega.
O menino não enxerga o que os olhos alcançam. Deitado sobre o outro, Seu Afrânio é carinhoso. Beija o rosto do rapaz com calma. Testa, bochecha, queixo, testa, bochecha, queixo. Fala baixinho que é seu homem, o primeiro, o único homem. O rapaz gargalha, acha graça. Eu nunca passei por isso, Afrânio. Sempre foi eu que… O patrão lambe a boca do rapaz. Cospe na própria mão. Abre as pernas e força o corpo contra o corpo do moço, que se queixa. Assim dói, caralho. Na janela, Arlindo segura na meia-lua da grade. Tenta se apoiar no parapeito, quer entender o que acontece entre os dois homens. Cacete. O pé direito do menino escorrega e empurra uma telha que se quebra arrastando outras telhas para o chão. De costas pra janela, dentro de Otávio, Afrânio encara o assombro no amante. O que foi? Um menino, Afrânio, uma criança na grade. Afrânio salta da cama e, da janela, divisa Arlindinho correndo pelo terreiro. O menino manca, machucado da queda, num fundo cor-de-rosa. Que merda tu fez, pirralha? O patrão veste as calças, sai do quarto, desce as escadas para a sala de estar, pega o revólver do velho Siqueira no fundo falso da cristaleira. Tu vai fazer o quê, bicho? Fica aí, Otávio. Vou resolver um problema.
Arlindo se apressa para o canavial que liga a casa grande ao sítio de sua avó. Madalena está lá, esperando a bacia de manga espada que encomendou ao filho. O menino vacila. A raiz da cana latanha a ferida que se abriu no pé direito. Madalena não o deixa andar descalço pelo canavial. Cadê a bota? Tu sabe que tem cobra, Arlindo. O menino busca a mãe na memória, mas o que escuta é a voz de Seu Afrânio. Cadê tu, Arlindinho? Pai quer conversar contigo. O menino trava, paralisa. Afrânio é serpente rasgando o canavial. Palmo a palmo, persegue o rastro deixado pela criança, o vermelho despontando no verde da folhagem, cúmplice doce do sangue que aduba cada pé de cana-de-açúcar. Bora, Arlindinho, apareça, vá. Pode deixar que pai perdoa. A gente conserta o telhado. Tá tudo certo. O menino se abaixa. Rente com o chão, Arlindo vê os pés brancos do patrão se aproximando. Atrás dele, outros dois pés. Decide correr, levanta, segue. É tarde. Uma braçada do patrão derruba o menino. Caralho, quem mandou tu subir naquele telhado, porra? O menino mareja os olhos, a garganta fraqueja, a palavra se molha no choro. Foi nada não, Seu Afrânio. Eu tava atrás de manga só. A mão esquerda comprime o pescoço da criança, a direita mantém o revólver nas costas. Tu tava atrás de manga na minha janela, seu bosta? Não, Seu Afrânio, eu não sabia que o senhor tava lá, eu escutei um barulho, foi só isso, eu não vi nada não.
Otávio antecipa o movimento da arma, que sai das costas de Afrânio e se alinha à vista do menino. Arlindo soluça. Por favor, Seu Afrânio, eu não vi nada não. Afrânio duvida, claudica. No soluço de Arlindo, Otávio advinha o choro do próprio filho. Inácio aturdido na porta de casa, agarrado nas pernas da bisavó no dia em que o pai deixou pra trás o sítio pra fazer a vida no Recife. Otávio mesmo, muito miúdo, agarrado nas pernas da avó no dia em que a mãe largou Condado pra viver nunca se soube onde, nunca se soube com quem, nunca se soube do quê. A lágrima salgada de cada menino rega a plantação. Otávio cresce sobre Afrânio. Com as duas mãos, prende a mão direita do homem que, alguns minutos atrás, mantinha entre as coxas. Vai, menino, corre. Desvia a arma da criança, que se levanta e foge. Que merda é essa, Otávio? Otávio puxa o revólver no sentido contrário ao da fuga. Impede que Afrânio dispare contra Arlindo. Com a mão esquerda, Afrânio esmurra Otávio. Estômago, queixo, cabeça. Estômago, queixo, cabeça. Otávio se defende com as pernas, tenta impor seu tamanho e parar Afrânio. Estica os dois braços, quer afastar o revólver, tirá-lo do patrão. Afrânio se joga sobre Otávio, os dois homens caem no chão, rolam um sobre o outro. Os braços cedem. A arma se aproxima das duas cabeças. Otávio percebe que livrou Arlindo. O menino tá salvo, caralho, o menino tá salvo. Mas tu não tá, viado safado. O dedo indicador de Afrânio pressiona o gatilho. O tiro se dilata no canavial. Abraçados sobre um cavalo a caminho dos sítios vizinhos, Arlindo e Madalena ouvem apenas o eco.
