Carta para alguém bem perto

Inspirado no clássico Carta a D., de André Gorz, o músico, jornalista e escritor paulista Cadão Volpato concebeu a pequena joia de autoficção que é Notícias do Trânsito (Seja Breve). O pequeno grande livro de Gorz, escrito na segunda pessoa, é um texto íntimo e reflexivo onde o autor dialoga com sua esposa Dorine, compartilhando angústias e esperanças diante da velhice e da proximidade da morte, falando de amor, finitude e criticando a sociedade consumista. Espelhando Gorz, Volpato também utiliza seu conhecido tom menor – discreto, sugestivo e bem humorado – para expressar sua visão sobre o sentido da vida e a solidariedade humana, apresentando um testemunho pessoal que une o filosófico ao afetivo.

Mas Volpato vai mais longe em criar uma investigação da paternidade à luz da transição de gênero de seu filho mais velho. A investigação da paternidade é também uma investigação sobre a masculinidade – no caso, a de um homem do século 20, cheio de preconceitos, trejeitos e recalques que se transforma ao mesmo tempo em que vê a transição do filho para filha. Livro sensível e original, que transita entre o memorialismo, o ensaísmo e a reconstituição dos últimos 60 anos, ilumina um tema difícil e até então não abordado pela literatura brasileira.

PROPOSTA

A ideia é também escrever na segunda pessoa um texto – não necessariamente uma carta – dirigido a uma outra pessoa que está em longe, mas ao mesmo tempo é uma pessoa próxima.

Você pode escrever uma autoficção.

Ou partir para a ficção pura, criando ambos os personagens.

O conflito: o personagem destinatário está em algum processo de transformação / mudança / metamorfose / crise.

Esta mudança também atinge de algum modo o personagem que escreve.

Quem são os dois?

Mãe e filha, irmão e irmã, marido e mulher, amantes, dois amigos / duas amigas, colegas de trabalho, parentes distantes que já foram próximos, mestre e aluno, analista e analisando…

O desafio é tratar das transformações do destinatário ao mesmo tempo em que fala das transformações do remetente.

Ou seja, o texto precisa estar lá e cá ao mesmo tempo.

Outro cruzamento é entre as histórias íntimas com o contexto histórico e dissertativo.

Em outras palavras, enquanto o narrador vai falando dos enredos de destinatário e remetente, vai ensaiando em torno das histórias pequenas hipóteses, suposições, conceitualizações, abstrações – sem deixar de lado que há um panorama histórico por trás.

Você pode dividir seu texto em pequenos capítulos, tratando de pequenos subtemas.

Ou então, como se fossem diferentes entradas em um diário.

Escreva, claro, na segunda pessoa, por volta de 12 mil caracteres.

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